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ELEIÇÕES NOS EUA: TRUMP derrota HILLARY. O que esperar das eleições brasileiras?

Por Alessandra Verch.

Surpreendendo e contrariando o que as últimas pesquisas indicavam, Donald Trump venceu Hillary Clinton nas eleições presidenciais norte-americanas por uma margem apertada. Surpreendendo alguns, mas não Michael Moore. O cineasta anteviu o desfecho dessa rinha de galo ainda em Julho deste ano quando em um editorial publicado originalmente no HuffPost US e traduzido e publicado no HuffPost Brasil afirmou que Donald Trump ganharia as eleições a serem realizadas quatro meses depois. Para sua “mediunidade” se amparou em 5 motivos relevantes. São eles:

1 – O cinturão Industrial dos Grandes Lagos que compreende os estados do Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. A região quebrou devido a políticas comerciais desastradas dos democratas e desde de 2010, embora fosse reduto democrata, vinha elegendo governadores republicanos. Trump foi na jugular e ameaçou as empresas automobilísticas com interesses de sair da região rumo ao México em buscas de “vantagens” produtivas com a singela taxa de 35% sobre carros comercializados nos EUA oriundos do México. Os trabalhadores vibraram.  “De Green Bay a Pittsburgh, isso, meus amigos, é o meio da Inglaterra: quebrado, deprimido, lutando. As chaminés são a carcaça do que costumávamos chamar de classe média. Trabalhadores nervosos e amargurados, que ouviram mentiras de Ronald Reagan e foram abandonados pelos democratas”, escreveu Moore.

PIMBA!

Trump não só venceu em Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, como levou quase todos os estados da porção central dos EUA. Texas (nenhuma surpresa), Kansas, Nebraska, Missouri, Oklahoma, Loisiana, Mississipi, Alabama, Kentucky, entre outros, deram a vitória a Trump. O republicano ainda venceu em todos, sim, T-O-D-O-S os estados do sul da costa leste, isso inclui a Flórida, meus queridos. Lembram daquele chão de terra dos EUA que mais parece uma extensão da América Latina? Sim, pasmem. Trump perdeu apenas em quatro estados na região central: Minnesota, Illinois, Colorado e Novo México; nos estados do norte da costa leste: Maine, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut, Nova Jersey, Rhode Island, Delaware, Maryland, Nova York,Vermont e Virgínia; e na Costa oeste.

2 – Trump encarna o ideal romântico do homem-branco-trabalhador-que-venceu-na-vida contra as “modernidades” que colocam em risco o “sereno” domínio masculino sobre a família nuclear, “a base de uma nação que prospera”. Ah, o passado. Nada mais acalenta a alma do homem branco desempregado e falido que vê sua virilidade ruir ao se perceber lavando a louça enquanto sua mulher trabalha para sustentar a casa do que a idealização de um passado que não viveu. “Antigamente é que era bom” e a síndrome de Meia-noite em Paris em busca de um fantasma inatingível.

3 – Hillary Clinton. Ela mesma. A candidata que melhor representa o mainstream do sistema político estadunidense. Embora mulher, era ela que representava o status quo da classe política. “O quê? Não, você está delirando, seria uma ruptura, pela primeira vez uma mulher seria A presidentA dos EUA”. Desculpe-me, trago verdades. O fato de Hillary ser mulher é apenas um detalhe. A candidata da família Clinton incorpora a figura típica do político tradicional cujos elementos principais são ambição em dose tripla e sem gelo, todo o oportunismo que existe no mundo e um tonel de vaselina. Lamentavelmente (?), ao que tudo indica, esses elementos não são tendência. “Ela representa a política de antigamente: faz de tudo para ser eleita. É por isso que ela é contra o casamento gay num momento e no outro está celebrando o matrimônio de dois homens”, afirmou Moore.

Aí vocês perguntam: “Como assim? O fato dela representar a política de antigamente a prejudicou, mas o Trump representar o ideal de antigamente o beneficiou?” Exatamente. Trump é um outsider. Um sujeito ogro e nada erudito que nunca se candidatou a nada e conseguiu incorporar aquele já machucado e desacreditado“americam dream”. É fácil entender. Basta perceber que uma coisa é o eleitorado e outra coisa (cada vez mais descolada deste, inclusive) é o sistema político. Hillary era o sistema político. Trump era o eleitorado. Ambos antiquados. Ambos distintos.

Pois é…

Já disse que Hillary perdeu na Flórida?

4 – O eleitor deprimido de Bernie Sanders. Traduzindo para o “brasileiro”, o eleitor deprimido do PT, ou seja, aquele que evidentemente vai votar no candidato do partido mesmo que ele já tenha 120 anos e uma dicção de não causar inveja, mas não peça para ele ir de graça para alguma esquina para tremular euforicamente bandeiras do partido enquanto distribui flyers e conversa entusiasmadamente com prováveis eleitores. Ele não vai. Aliás, ele não tem mais vontade nem de convencer a mãe. Sorry.

5 – O efeito Jesse Ventura, aqui conhecido como “só de raiva, vou votar nele”. “Lembra nos anos 1990, quando a população de Minnesota elegeu um lutador de luta livre para governador? Elas não o fizeram porque são burras ou porque Jesse Ventura é um estadista ou intelectual político. Elas o fizeram porque podiam. Minnesota é um dos Estados mais inteligentes do país. Também está cheio de gente com um senso de humor distorcido — e votar em Ventura foi sua versão de uma pegadinha no sistema político”, lembrou Moore.

Sim, senhoras e senhores. Trump não se elegeu presidente da mais poderosa nação do mundo porque o eleitorado norte-americano é imbecil e nas horas vagas pasta feito gado. Assim como João Dória não se elegeu prefeito de São Paulo pelos mesmos motivos. Ambos representam o self-made man, são outsiders que não pertencem ao campo político. Segundo o cientista político André Marenco, “o homem político […] vem perdendo espaço para outsiders que ingressam na política mais tarde, após uma vida profissional já estabelecida, conquistando sua cadeira parlamentar sem a necessidade de percorrer todas as escalas da carreira e de um longo estágio no interior de organizações partidárias” (ler na íntegra aqui). Marenco se deteve nas eleições legislativas para sua análise, mas agora, ao que tudo indica, os outsiders estão mais ambiciosos e almejam as principais cadeiras do Executivo.

Isso deve acender a luz vermelha para a ala progressista brasileira muito satisfeita em adjetivar o eleitorado. Grite, chame de burro, chore, esperneie. Mas, depois do chilique, levante-se e olhe para os lados, Maomé. A montanha está no mesmo lugar e é você que deve ir até ela. O Haiti É aqui e os EUA também.

As eleições nos EUA evidenciam um fenômeno que parece ser global. O esgotamento do discurso de esquerda e o distanciamento dos partidos progressistas do eleitorado. O eleitor e a eleitora estão saturados de discursos ideológicos que não oferecem (ou parecem não oferecer) soluções práticas para os problemas de âmbito local. Pouco importa para o desempregado de Ohio ou para a Dona Maria do Realengo se o político é neoliberal ou social-democrata. O que eles querem saber é quem pavimentará as suas ruas e quem impedirá que empresas sumam de suas cidades levando consigo os empregos. Diante disso a esquerda (aqui e lá), além de ter falhado com o/a eleitor/a ao não resolver em definitivo problemas recorrentes, se viu envolvida em uma série de problemas de corrupção – com cobertura seletiva, claro, mas nada surpreendente para quem não atende pelo nome de Pollyanna e entende minimamente como os conglomerados de mídia se posicionam em disputas políticas  –  e com isso optou por um discurso pedagógico e defensivo. Defendendo e defendendo seu legado e lembrando a população que sempre existiu corrupção. (UAU, que alívio). A ala conservadora se lambuzou.

Os grupos políticos progressistas entraram em cena prometendo moralizar o sistema e solucionar os problemas da população. Falharam vergonhosamente ao menos na primeira promessa. Como um pêndulo, o eleitorado volta-se, novamente, para a direita. Não porque já esqueceram os prejuízos que ela causou, mas, principalmente, porque não conseguem mais diferenciar os grupos políticos. Na bem da verdade, o eleitorado encheu o saco, aqui e lá. Não à toa os principais vencedores dos pleitos eleitorais foi um tal de “Zé Ninguém”. Abstenções, nulos e brancos foram os verdadeiros winners. Mas claro, como diz a máxima “nenhum espaço de poder fica no vácuo”. Menor engajamento político? Maiores são as chances dos outsiders e seus discursos hodiernos (e muitas vezes patéticos). O sistema político democrático é um bandidinho de meia-tigela que foi pego em flagrante batendo carteira no centro da cidade: todos querem dar um peteleco nele.

Agora, as chances para a esquerda parecem ser apenas duas. Ou ela para de chorar feat brigar e aglutina em torno de um nome que consiga capitalizar o ódio do eleitorado com o sistema político brasileiro ou ela corre para forjar um partido 0km e lança candidatura de alguma figura de fora do sistema. Um ator global progressista bem sucedido quem sabe aka Capitão Nascimento. Porque agora é a vez dos outsiders. O político tradicional com seus códigos, técnicas, jeitos e trejeitos virou démodè. O candidato que mais murro der no sistema político e na figura do político tradicional vencerá. No Brasil, abre-se uma avenida para Ciro Gomes e seu jeitão de coronel sem papas na língua, mas pra isso ele ainda terá de perder qualquer resquício de vergonha que tiver e descer abaixo do nível do mar, porque abre-se uma Transamazônica para figuras como Bolsonaro. É ele quem vai disputar com unhas e babas o título de rei dos insatisfeitos-com-tudo-que-está-aí nas próximas eleições brasileiras. Embora não seja um outsider, Bolsonaro não encarna a figura típica do político tradicional. Bolsonaro é o nosso Donald Trump. É ele que tem mais chances de capitalizar o eleitorado que quer dar uma voadora no sistema político. Ciro Gomes precisará lembrar constantemente ao eleitorado que na realidade Bolsonaro é raposa, ou lobo em pele de cordeiro: um sujeito que vive de política e não é a personificação da moralidade como costuma se vender (suas ligações com Eduardo Cunha não são de hoje).

Lembram-se das eleições de 2010 quando Dilma e Serra pareciam fazer cabo de força com a figura oculta de uma senhorinha missionária católica e quase a partiram no meio em pleno debate? Aquilo soará como uma ópera wagneriana perto do que virá. Erudição pura. Segurem-se em suas poltronas, o que está por vir é Casos de Família (com Christina Rocha!).

CRUZES

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Sobre eleição e vitimização: as fragilidades de Marina Silva

Por Alessandra Verch.

Há alguns dias, a presidenciável Marina Silva está vendo suas intenções de votos caírem, enquanto Dilma experimenta subida nas mesmas pesquisas. Marina que tinha vantagem de 10% no 2º turno, agora está em empate técnico, com uma vantagem pequena de 1%. Se em função da desproporcionalidade do tempo de propaganda eleitoral disponível para ambas ou por outra variável é difícil predidizer, a questão é que Marina e seus simpatizantes agora vêm afirmando que o PT está realizando uma campanha do medo, atacando sua imagem, utilizando-se de “baixarias” e a difamando. Ou seja, realizando uma campanha violenta contra ela semelhante a enfrentada por Lula na disputa presidencial de 2002. 

Primeiro erro de Marina

Seus simpatizantes e a própria candidata ao fazerem essas acusações se acuam sem demonstrar onde está a difamação. O PT, de fato, está esmiuçando suas falas, suas declarações, suas ações políticas e o seu projeto de forma dura a fim de sair vitorioso no pleito eleitoral. Falta à Marina mostrar onde está a baixaria que tanto enxerga. Falta à Mariana Ir para o embate e aceitar que eleição não é conversa de comadre.

Todavia, ironicamente, quando Marina vem a público dizer que o PT escolheu uma pessoa para roubar a Petrobras durante 12 anos, a mesma não enxerga “baixaria” em suas atitudes. Marina proferiu uma opinião radicalizada com o intuito evidente de enfraquecer sua oponente e seu partido. Assim, emitiu um juízo de valor que encontrou eco no eleitorado que pretende conquistar. Sua afirmação não corresponde a nada além de sua legítima opinião. Não é fato inconteste, é nada mais do que percepção. Não poderíamos atribuir a isso a pecha de baixaria? Agora, por que afinal o PT está sendo “baixo” e Marina está sendo “elevada”? Porque o PT é contra a independência do banco central e utiliza o seu espaço legítimo para argumentar, justificar e, sim, dramatizar seu posicionamento? Porque (agora) se posiciona a favor da criminalização da homofobia e questionou duramente o comportamento de Marina ao se dobrar a 4 tuítes de um pastor evangélico? Isso não é desmoralizar uma pessoa, isso é banal em um embate político, em que cada lado utiliza e explora as fraquezas do outro e defende com argumentações contundentes o seu posicionamento.  Marina parece errar sistematicamente ao escolher estratégias frágeis e incoerentes em sua campanha, apelando sempre para a piedade do eleitorado ao mostrar-se frágil e indefesa diante dos “velhos tubarões” da política. 

Segundo erro de Marina

Marina tenta se colocar em situação favorável frente a seu eleitorado ao se equiparar a Lula, tanto em seu projeto quanto na perseguição sofrida. Por ingenuidade, má assessoria ou erro tático, a candidata acreditou nessa estratégia para retirar votos de Dilma e não calculou o que parecia ser o desfecho evidente: obrigar Lula a entrar de vez no jogo e negar veemente a equiparação.

Lula estava à margem da disputa, não havia se manifestado de forma contundente e em certo ponto até parecia que não iria participar ativamente da campanha. Entra em cena motivado, fundamentalmente, pelo uso político de sua imagem que a opositora de sua candidata fez. Ora, Lula está vivo, emite seus juízos, era óbvio que a partir do momento que Mariana tentasse capitalizar seu capital político ele entraria em cena para defender seu partido, seu projeto político e, claro, sua candidata frente à tentativa da oponente de enfraquecê-la. Tentativa ingênua de Marina, reação óbvia de Lula. Foi Marina quem estimulou a entrada decisiva de Lula ao tentar desviar parte do capital político dele para si, o evocando sistematicamente e usando recursos discursivos para se vender como a herdeira legítima do “governante com a maior taxa de aprovação da história da democracia brasileira”. Ingenuidade acreditar que Lula permitiria tal usurpação. Aliás, até permitiu, mas só até o exato momento em que isso começou a desfavorecer Dilma.

Terceiro erro de Marina

Ao invés de utilizar seu escasso tempo para construir sua imagem, justificar seus posicionamentos e MOSTRAR o erro adversário, Marina numa estratégia imatura se satisfaz em afirmar que está sendo perseguida pelo PT e por Lula (aquele que ao que parece deveria amá-la). Ao se negar a realizar o debate, a candidata se vitimiza e acumula mais um erro em sua campanha. E Dilma cresce e Marina cai.

“Estão usando de baixaria. É baixaria dizer que a independência do Banco Central gerará fome e desemprego”, acusam. Pois essa é uma conclusão amplamente difundida por diversos economistas. Presentes em várias teses econômicas. Evidentemente, há economistas plenamente a favor da independência. Faz parte do jogo. Economia é política também. Há diversos economistas favoráveis à medida e outros diversos economistas contra. Escolhemos um lado, argumentamos nosso ponto de vista e refutamos o do adversário. Ponto. Não se trata de baixaria, trata-se do debate necessário para conhecer os candidatos. A baixaria está na fuga do debate ou na tentativa de despolitizar a política.

Como assim despolitizar a política?

Eis o quarto erro de Marina. Ao se auto-atribuir o status de “novo”, da candidata “certa”, da “mudança”, da “esperança”, quando seu projeto é tal qual o projeto implementado por FHC ou ainda mais radical (idêntico as medidas conhecidas como Consenso de Washington – ou neoliberais[1] que FHC não levou a cabo plenamente), Marina despolitiza o debate. Esconde-se atrás de adjetivações vazias que visam produzir uma pretensa neutralidade e assim negar o conflito. Política é conflito, negar isso é uma baixaria. É impossível ser contra e a favor a Reforma Agrária. É impossível ser contra e a favor a tributação sobre grandes fortunas. É impossível levantar a bandeira ecológica saciando os interesses de latifundiários e da indústria do agrotóxico. “O cobertor é curto”, já disse Dilma. Marina não parece representar o novo, nem tampouco o certo, Marina representa um projeto político específico e bem conhecido, mas ao se negar informar ao eleitor que projeto é esse a candidata despolitiza o debate.

Bater e correr do embate, usurpar a imagem de político vivo e em lado oposto para se fortalecer, ter síndrome de perseguição em uma disputa eleitoral para chefe de Estado e afirmar que agradará a “gregos e troianos” transformam Marina em uma candidata que parece estar na fina flor da adolescência. Seus oponentes estão fazendo o que era esperado: mostrar as fragilidades de Marina. Mais do que isso, é DEVER deles fazê-lo para que a população conheça suas opções.

Aécio merece mais o segundo turno…


[1] Para saber mais sobre as medidas neo-liberais clique aqui

Genoíno, Dirceu e as tristes ironias históricas

Por Alessandra Verch.

Hoje, ontem, anteontem, o assunto foi o mesmo: a prisão dos envolvidos no escândalo do “mensalão”. A mágoa e a felicidade extrema passam uma sobre a outra nas redes sociais, mas o irônico é que estes sentimentos antagônicos, expostos de forma ora dramática ora violenta, não parecem se relacionar com a prisão de funcionários públicos envolvidos em um esquema de corrupção… Parecem, sim, vinculados a paixões e ódios já históricos.

De um lado, centenas de pessoas comovidas e tristes com um julgamento “injusto” que culminou não apenas com a prisão de funcionários e ex-funcionários públicos, mas com a prisão de “políticos queridos do PT”. Injusto, pois segundo estas, um julgamento sem provas concretas não dialoga com os anseios de justiça que a modernidade tanto preza. Prazos irregulares, nenhuma prova material e muitos indícios e presunções culminaram com a prisão de militantes honrados que dedicaram parte significativa de suas vidas lutando contra a ditadura e para construir a democracia brasileira, como José Genoíno e José Dirceu, afirmam muitos.

De outro lado, igualmente centenas de pessoas em festa celebrando uma das primeiras condenações de políticos brasileiros. Mas não só isso, celebrando o fato da Justiça brasileira ter ratificado um sentimento que lhes era antigo, o de que “o PT não presta” e “os Petralhas receberam o que mereciam”. Se justo ou injusto, pouco importa. Afinal, a vontade de vê-los preso é mais antiga que o próprio escândalo, sequer queriam que chegassem à presidência, lá terem ficado durante três mandatos é algo que não conseguem aceitar. Enquanto uma parte significativa e desequilibrada destes clama por mais, por paredão, pelo extermínio “de todos os petralhas”, outros se  regozijam com a imagem que tem do sistema carcerário brasileiro que agora ganha “petralhas que merecem ser presos em celas superlotadas e insalubres, com latrinas imundas, comida deplorável, água fria para a higiene” e etc.

Pelo menos duas narrativas para um mesmo fato.

Durante toda a história do Brasil pós-colonização convivemos com as mais sórdidas práticas políticas e sociais, desde matanças indígenas e escravidão, passando pelas oligarquias, pelo coronelismo e pela ditadura militar e suas sempre deploráveis formas de fazer política. Vieram quase uma dezena de Constituições, milhares de leis, dezenas de governos e pouquíssima democracia. São 25 anos de democracia desde 1988, antes disso um e outro hiato democrático na história do Brasil. Ou seja, possuímos pouca cultura democrática. Os valores democráticos ainda são bastante jovens e ainda não penetraram plenamente no tecido social. Exemplo disso é que parte significativa da população ainda não compreende a bestialidade da afirmação “direitos humanos para humanos direitos”. Mesmo assim conseguimos desfrutar de 25 anos democráticos ininterruptos. São 25 anos em que podemos emitir nossa opinião, votar, ser votados, nos expressar sem medo de censuras e lutar pelo que julgamos correto sem medo de ser preso por isso.

E não consigo deixar de ver uma certa ironia perversa neste momento histórico que vivemos. A ironia perversa está em um fato inquestionável: os políticos presos são os mesmo que lutaram pela democracia brasileira. Isso é inegável, não é um dado subjetivo ou uma representação emocional de seus familiares. Eles, de fato, lutaram para que superássemos uma história calcada na exclusão, na desigualdade e na ausência de direitos. A ironia perversa não está na suposição de injustiça ou justiça desse momento, mas no fato de que os primeiros políticos a serem julgados, condenados e presos por seus crimes são aqueles que tanto lutaram para que isso um dia ocorresse. E jamais saberemos quais das narrativas ou versões é a verdadeira, se Genoíno e Dirceu merecem as penas imputadas a eles, nem tampouco se são, de fato, responsáveis pelos crimes que foram julgados e condenados.

À parte das tantas bobagens que circulam por aí, pessoas clamando pela volta da ditadura, pedindo “paredón aos petralhas” e etc., dois desdobramentos distintos podem ser evidenciados, um positivo e outro negativo. O desdobramento positivo é a Lei e a Justiça valendo para políticos também, e em se tratando de nossa histórica dificuldade de punir políticos corruptos isso seria um avanço. O desdobramento negativo ocorrerá se isso apenas significar o acréscimo de um P na lista da seleta população carcerária. Além de “putas, pobres e pretos”, os petistas.

Na dúvida de quais serão os desdobramentos futuros desse momento, vale sempre lembrar e reafirmar que em se tratando de Genoíno e Dirceu o passado não os condena e seus feitos e trajetórias não serão apagados. Cumpre a nós, agora, avançarmos a democracia e lutarmos pelo desfecho positivo.

Uma retificação, antes afirmei que jamais saberemos qual a versão dos fatos é a verdadeira, reavalio. Se Maluf, Sarney, Demóstenes Torres, os políticos envolvidos no “mensalão tucano”, entre outros tantos, não forem julgados por seus atos saberemos a verdade.

“Por que o senhor atirou em mim?”. Por que atiramos em Douglas?

Por Alessandra Verch

“Por que o senhor atirou em mim?” é a pergunta feita por artistas e ativistas em um vídeo lançado no último domingo. A frase está virando um ícone contra a violência policial e foi feita pelo menino Douglas Rodrigues, 17 anos, e dirigida ao policial militar Luciano Pinheiro Bispo, após receber em seu peito um tiro disparado pelo PM, no último dia 27, na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo.

Minutos depois de fazer a pergunta o garoto morreu. O PM, preso em flagrante por homicídio culposo (sem intenção de matar), teve liberdade provisória concedida pela Justiça Militar.

Os rappers Emicida, Rashid, Rael da Rima, Flora Matos, Dexter e KLJ, do Racionais MCs e o funkeiro MC Guimê fazem uma segunda pergunta “Por que vocês atiram em NÓS?”. Na periferia, na juventude, nos negros.

Segundo o mapa da violência 2013, as principais vítimas da violência urbana são os jovens. Enquanto na população não jovem os óbitos por homicídio representam apenas 3%, na população jovem (com faixa etária de 15 a 24 anos) os óbitos beiram os 40%. De 1980 a 2010 foram 1.145.908 vítimas de homicídio. O Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo. “São números tão altos que torna-se difícil, ou quase impossível, elaborar uma imagem mental, uma representação de sua magnitude e significação. Para isso, deveremos recorrer a outros indicadores, tentado dar uma ideia, uma aproximação do que esses números representam”, afirma o relatório.

Pois para se elaborar essa “imagem mental” o mapa analisou as estatística de homicídio no Brasil comparativamente, contrastando com os dados dos 12 maiores conflitos mundiais, que ocorreram entre 2004 e 2007, que consta no Relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada.

Somados esses 12 conflitos vitimaram 169.574 pessoas nos quatro anos computados, entre eles estão o conflito no Iraque, no Afeganistão e na Palestina. “No Brasil, país sem disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos, conflitos de fronteira ou atos terroristas foram contabilizados, nos últimos quatro anos disponíveis (2008 a 2011) um total de 206.005 vítimas de homicídios, número bem superior aos 12 maiores conflitos armados acontecidos no mundo entre 2004 e 2007”, denuncia o mapa da violência.

Por quê? “Por que o Sr. atirou em mim?”

Uma das possíveis respostas é a tolerância institucional. Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, referindo-se aos homicídios de jovens e adolescentes já declarou que “o Brasil convive, tragicamente, com uma espécie de epidemia de indiferença, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social. Isso ocorre devido a certa naturalização da violência e a um grau assustador de complacência do estado em relação a essa tragédia. É como se estivéssemos dizendo, como sociedade e governo, que o destino desses jovens já estava traçado”. E esse destino é o caixão.

Engrossando todas essas estatística estará o menino Douglas, de 17 anos, que morreu sem uma resposta. Por quê? “Por que o senhor matou o menino Douglas?” Por que NÓS matamos o menino Douglas?

Para ler na íntegra o mapa clique aqui.

Será mesmo a partir da violência que geraremos o novo?

Por Alessandra Verch.

Obra de Banksy com a colaboração dos grafiteiros brasileiros Os Gêmeos, em sua passagem por New York
Obra de Banksy com a colaboração dos grafiteiros brasileiros Os Gêmeos, em sua passagem por New York

Recentemente, em um texto publicado no sítio Outras Palavras, o editor Antonio Martins escreveu sobre a onda de violência que vivemos e para isso analisou tanto a violência praticada pelos Black Blocs, como a mais recente contra o coronel Reynaldo Simões Rossi, da Polícia Militar de São Paulo, quanto as praticadas pela polícia, que vão desde a omissão total nos casos onde há depredação do patrimônio até assassinatos e agressões gratuitas. No entanto, Martins procura ir além do grito surdo, cheio de ódio e legitimidade “A POLÍCIA TEM QUE ACABAR”.

Segundo ele “as duas atitudes policiais retroalimentam-se uma à outra, em espiral. A brutalidade da tropa exalta os ânimos dos manifestantes e leva pequenos grupos a reagir de modo violento. As depredações promovidas por estes, nos momentos em que a polícia se omite, amedrontam a população e sugerem que a saída, diante dos protestos, é mais repressão”. Com isso, afirma que “está se consumando, rapidamente, o cenário desastroso previsto por Luís Nassif. Ele pode dar-se tanto como tragédia (na forma de um novo morticínio ‘corretivo’ contra a periferia, semelhante ao de 2006) quanto como drama arrastado (um longo sangramento dos movimentos sociais de todos os tipos, até que percam legitimidade junto à maioria)”.

Evidentemente, ainda é difícil afirmar o que pode ocorrer nesse cenário de incertezas e banalização da violência. Mas, é necessário problematizar essa falta de reflexão da nova militância social que está nas ruas, que se regozija no romantismo cego e narcísico do “estou fazendo história”. A história se faz independentemente de nossa vontade consciente.

A violência (econômica, de classe, de raça, de gênero) é um patrimônio da humanidade, na medida em que é violência política. Porém, quando, meramente, reagimos contra ela nós a perpetuamos. Para que ela finde não basta reagirmos, é preciso compreendê-la para superá-la, para que ela deixe de ser um marcador de ação.
Isso não pressupõe, em hipótese alguma, a defesa de um pacifismo cego que namora com a apatia social.

Não é pregar, insanamente, o fim de um movimento humano inegável, o dialético. Todavia, é não perder de vista que a dialética não é um movimento simplista e antagônico entre negativo/positivo, errado/certo, ruim/bom, PM/militante. A dialética é um movimento humano conflitivo (e necessário) que obrigatoriamente produz algo novo, ou melhor, temporariamente novo, pois a espera de um novo conflito. Tese, antítese e síntese. É com esses três elementos que temos movimento dialético, e a verdade está nesse movimento contínuo e não em uma ideia temporal, ou em um elemento específico. A antítese, por óbvio, é a oposição da tese, é ela que instaura o conflito. Lamentavelmente, por oposição e conflito muitos entendem, de imediato, violência, imposição, ou mais especificamente, luta armada. Enganam-se.

A dialética não se define pelo seu conteúdo e sim pelo seu movimento, pelo conflito entre proposições. Ela não está, necessariamente, atrelada a violência. Afirmar que a violência é necessária para alguma mudança é um engodo brutal. Em certa medida a violência pode até mesmo frear o movimento humano dialético, pois adia o contraponto necessário para o conflito político, para o conflito real. Não produzimos a antítese e ficamos trancados numa tese antiga e marcada pela violência.

Com isso, a dúvida de que podemos estar a produzir um conflito apenas performático precisa sempre ser posta. Combater a violência com violência não é trocar seis por meia dúzia? É preciso nos questionar. É preciso refletir.

Para usar a metáfora da excelente análise de Antonio Martins, apanha/bate, apanha/grita é tão dialético quanto uma mosca presa em um vidro.