Bandido bom é bandido morto?

Por Alessandra Verch.

Lembram do Marcos Rogério dos Santos Guedes, o Porcão, um dos líderes dos “bala na cara”? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do Willian da Silva de Mello, o Nego Blade, investigado por pelo menos 5 homicídios? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do casal Kellen Monteiro Dorneles e Luis Antônio Rosa da Fé, o dindinho? Sabem onde eles estão?
Na vala.

Lembram do Anderson Henriques da Silva, preso por assalto e roubo de veículo? Sabem onde ele está?
Na vala.

Júlio César de Moura Santana, assaltante e homicida?
Na vala.

Cláudio Eduardo Bandeira da Silva, traficante, assaltante e homicida?
Na vala.

Fabiano Lemos, traficante e homicida?
Na vala.

Gérson Renato Dias Fagundes, o Gersinho?
Na vala.

Diego Pavelak, o Morto?
Na vala.

Os suspeitos pela morte de mais uma mãe na capital gaúcha?
Na vala, amanhã ou depois.

Não estão vendo?

Eles nasceram na vala.

Quando a gente cansar de matar e morrer poderíamos sentar e discutir políticas públicas. “Mandar pra vala” não está resolvendo.

Teste cego de Direitos Humanos

Se eu fosse do Marketing da Direitos Humanos Inc., eu providenciava, imediatamente, um Comercial com um teste cego do produto. Ele seria apresentado por alguma celebridade global popular, tipo Thiago Lacerda (era adolescente nos anos 90 e ainda tenho aquela revista Querida em que ele aparece na banheira).

Enfim…

No copo 1 teria um suco de Direitos Humanos com:

TRABALHO
EDUCAÇÃO
SAÚDE
LAZER
ESPORTE
MORADIA
PREVIDÊNCIA SOCIAL
IGUALDADE SOCIAL
JUSTIÇA
AMPLA DEFESA
PAZ
PROGRESSO
AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS
SUSTENTABILIDADE
LIBERDADE
PROCON
E
INTERNET GRÁTIS

No copo 2 teria um mistura de “bandido bom é bandido morto” com:

LINCHAMENTOS PÚBLICOS
EXECUÇÃO DE GAYS
MULHER VADIA MERECE SER ESTUPRADA
COMUNISTAS METRALHADOS
FEMINISTAS QUEIMADAS
MARXISTAS ASSASSINADOS
ARMA
ARMA
ARMA
MAIS ARMA
UMAS BALAS PERDIDAS
e uma gravação do Alexandre Frota falando TOP TOP TOP TOP

A pessoa teria que – vendada, óbvio – experimentar os dois sucos. Aí o Thiago Lacerda perguntaria:

– E então qual você mais gostou????

Se a pessoa dissesse:
– O COPO 1 CLAROOOO

Sirenes tocariam, balões cairiam do teto, musiquinha, purpurinas e mais purpurinas, vibração, euforia…

Thiago Lacerda, então, diria:
– Parabéns, você acaba de ganhar uma viagem com tudo pago e com todos os ingredientes do suco de Direitos Humanos para a Noruega (ou Dinamarca, Finlândia, Suécia…enfim, qualquer país com IDH alto). Tá feliz??

– SIIIIMMMM. NOSSA. QUE EMOÇÃO

Maaaas se a pessoa dissesse:
– UHUUUU É COPO 2!! Bandido bom é bandido moooorrr

Cai direto na Síria.

Peninha do racismo

Por Bruna Stephanou.

Não entendo da conjuntura futebolística e tenho sérios problemas em relevar fanatismos por times, então vou me ater ao preconceito racial na mídia que se prestou a divulgar o caso do goleiro aranha. Sim, desculpem-me, estou atrasada no assunto, mas não achava que havia mais ângulo a ser explorado nessa história, até que…

O jornalista Eduardo Bueno, mais conhecido como Peninha, chamou minha atenção em uma declaração infeliz. Revelou seu pensamento de que o goleiro Aranha havia demorado muito para perdoar a menina que o chamou de macaco.

Olha, sei que o jornalismo está longe de ser imparcial e que muitas opiniões são dadas sem perguntas acerca das mesmas (como eu faço aqui, por exemplo), mas temos que desmembrar essa questãozinha aí!

Centenas de anos de escravidão, outras centenas de anos de discriminações, marginalizações e violências e esse jornalista branco vêm dizer que um negro demorou muito pra perdoar uma menina branca que o chamou de macaco porque Gandhi perdoou todos seus torturadores?! Tu tá de brication comigo? Qual é o tempo que voismicê acha justo? Meia horinha, tá bom?

Está fácil chegar à unanimidade de que esta declaração, além de compactuar com o preconceito no sentido de ignorar o negro como ser possuidor de sentimentos (acha exagerado? Reflita.), também favorece com o desvirtuamento da atenção, passando a tratar os agentes da situação como meros personagens de uma má história.

Não quero nem saber se vocês sentem pena da garota, ou se Peninha sente peninha da garota. Ela cometeu um crime previsto na Constituição Federal de 88, e peninha não é atenuante de crime algum. Depois, as merdas que ela falou, sinceramente, problema é dela não do Aranha.

Peninha não cometeu crime nenhum, mas foi de caso bem pensado, um declarante de insensibilidade, amoralidade e extrema falta de ter o que falar. Não sei vocês, mas Gandhi perdoou seus agressores, Aranha demorou pra perdoar a menina, Peninha não perdoou Aranha e eu não perdoei Peninha. Ponto.

Cultura de gênero em ilustrações, o projeto Man Meets Woman de Yang Liu

Por Alessandra Verch.

Os estereótipos de gênero estão em pauta no projeto Man Meets Woman, novo livro da editora Taschen (disponível apenas nos EUA, por enquanto).

O livro explora, através de ilustrações minimalistas da artista Yang Liu, as diferenças culturais existente entre os sexos. A artista de 38 anos usa as imagens para evidenciar as desigualdades de gênero e os estereótipos culturais que criam papéis específicos para homens e mulheres.

As ilustrações referentes ao universo masculino e feminino postas lado a lado mostram de forma contrastante como ambos sexos se enxergam e, também, em como são vistos socialmente.

O livro estará disponível a partir do dia 6 de outubro, e não tem lançamento previsto para o Brasil, mas pode ser encontrado em sites como a Amazon.

Enquanto o livro não chega por essas bandas, dá uma olhada em algumas das ilustrações que mostram as disparidades culturais entre os sexos, ou seja, a cultura de gênero:

1-810x505 3034703-inline-i-2-tk-gender-stereotypes-illustrated-in-playful-pictograms illustrazione-tratta-dal-libro-man-meets Man-meets-Woman-Yang-Liu-Feeldesain06 Man-meets-Woman-Yang-Liu-Feeldesain07 o-BEST-WEAPON-facebook 001-128_YANG_LIU_MAN-WOMAN_VA_LITHO_GB_04622.IND7 001-128_YANG_LIU_MAN-WOMAN_VA_LITHO_GB_04622.IND7 001-128_YANG_LIU_MAN-WOMAN_VA_LITHO_GB_04622.IND7 001-128_YANG_LIU_MAN-WOMAN_VA_LITHO_GB_04622.IND7

Sobre eleição e vitimização: as fragilidades de Marina Silva

Por Alessandra Verch.

Há alguns dias, a presidenciável Marina Silva está vendo suas intenções de votos caírem, enquanto Dilma experimenta subida nas mesmas pesquisas. Marina que tinha vantagem de 10% no 2º turno, agora está em empate técnico, com uma vantagem pequena de 1%. Se em função da desproporcionalidade do tempo de propaganda eleitoral disponível para ambas ou por outra variável é difícil predidizer, a questão é que Marina e seus simpatizantes agora vêm afirmando que o PT está realizando uma campanha do medo, atacando sua imagem, utilizando-se de “baixarias” e a difamando. Ou seja, realizando uma campanha violenta contra ela semelhante a enfrentada por Lula na disputa presidencial de 2002. 

Primeiro erro de Marina

Seus simpatizantes e a própria candidata ao fazerem essas acusações se acuam sem demonstrar onde está a difamação. O PT, de fato, está esmiuçando suas falas, suas declarações, suas ações políticas e o seu projeto de forma dura a fim de sair vitorioso no pleito eleitoral. Falta à Marina mostrar onde está a baixaria que tanto enxerga. Falta à Mariana Ir para o embate e aceitar que eleição não é conversa de comadre.

Todavia, ironicamente, quando Marina vem a público dizer que o PT escolheu uma pessoa para roubar a Petrobras durante 12 anos, a mesma não enxerga “baixaria” em suas atitudes. Marina proferiu uma opinião radicalizada com o intuito evidente de enfraquecer sua oponente e seu partido. Assim, emitiu um juízo de valor que encontrou eco no eleitorado que pretende conquistar. Sua afirmação não corresponde a nada além de sua legítima opinião. Não é fato inconteste, é nada mais do que percepção. Não poderíamos atribuir a isso a pecha de baixaria? Agora, por que afinal o PT está sendo “baixo” e Marina está sendo “elevada”? Porque o PT é contra a independência do banco central e utiliza o seu espaço legítimo para argumentar, justificar e, sim, dramatizar seu posicionamento? Porque (agora) se posiciona a favor da criminalização da homofobia e questionou duramente o comportamento de Marina ao se dobrar a 4 tuítes de um pastor evangélico? Isso não é desmoralizar uma pessoa, isso é banal em um embate político, em que cada lado utiliza e explora as fraquezas do outro e defende com argumentações contundentes o seu posicionamento.  Marina parece errar sistematicamente ao escolher estratégias frágeis e incoerentes em sua campanha, apelando sempre para a piedade do eleitorado ao mostrar-se frágil e indefesa diante dos “velhos tubarões” da política. 

Segundo erro de Marina

Marina tenta se colocar em situação favorável frente a seu eleitorado ao se equiparar a Lula, tanto em seu projeto quanto na perseguição sofrida. Por ingenuidade, má assessoria ou erro tático, a candidata acreditou nessa estratégia para retirar votos de Dilma e não calculou o que parecia ser o desfecho evidente: obrigar Lula a entrar de vez no jogo e negar veemente a equiparação.

Lula estava à margem da disputa, não havia se manifestado de forma contundente e em certo ponto até parecia que não iria participar ativamente da campanha. Entra em cena motivado, fundamentalmente, pelo uso político de sua imagem que a opositora de sua candidata fez. Ora, Lula está vivo, emite seus juízos, era óbvio que a partir do momento que Mariana tentasse capitalizar seu capital político ele entraria em cena para defender seu partido, seu projeto político e, claro, sua candidata frente à tentativa da oponente de enfraquecê-la. Tentativa ingênua de Marina, reação óbvia de Lula. Foi Marina quem estimulou a entrada decisiva de Lula ao tentar desviar parte do capital político dele para si, o evocando sistematicamente e usando recursos discursivos para se vender como a herdeira legítima do “governante com a maior taxa de aprovação da história da democracia brasileira”. Ingenuidade acreditar que Lula permitiria tal usurpação. Aliás, até permitiu, mas só até o exato momento em que isso começou a desfavorecer Dilma.

Terceiro erro de Marina

Ao invés de utilizar seu escasso tempo para construir sua imagem, justificar seus posicionamentos e MOSTRAR o erro adversário, Marina numa estratégia imatura se satisfaz em afirmar que está sendo perseguida pelo PT e por Lula (aquele que ao que parece deveria amá-la). Ao se negar a realizar o debate, a candidata se vitimiza e acumula mais um erro em sua campanha. E Dilma cresce e Marina cai.

“Estão usando de baixaria. É baixaria dizer que a independência do Banco Central gerará fome e desemprego”, acusam. Pois essa é uma conclusão amplamente difundida por diversos economistas. Presentes em várias teses econômicas. Evidentemente, há economistas plenamente a favor da independência. Faz parte do jogo. Economia é política também. Há diversos economistas favoráveis à medida e outros diversos economistas contra. Escolhemos um lado, argumentamos nosso ponto de vista e refutamos o do adversário. Ponto. Não se trata de baixaria, trata-se do debate necessário para conhecer os candidatos. A baixaria está na fuga do debate ou na tentativa de despolitizar a política.

Como assim despolitizar a política?

Eis o quarto erro de Marina. Ao se auto-atribuir o status de “novo”, da candidata “certa”, da “mudança”, da “esperança”, quando seu projeto é tal qual o projeto implementado por FHC ou ainda mais radical (idêntico as medidas conhecidas como Consenso de Washington – ou neoliberais[1] que FHC não levou a cabo plenamente), Marina despolitiza o debate. Esconde-se atrás de adjetivações vazias que visam produzir uma pretensa neutralidade e assim negar o conflito. Política é conflito, negar isso é uma baixaria. É impossível ser contra e a favor a Reforma Agrária. É impossível ser contra e a favor a tributação sobre grandes fortunas. É impossível levantar a bandeira ecológica saciando os interesses de latifundiários e da indústria do agrotóxico. “O cobertor é curto”, já disse Dilma. Marina não parece representar o novo, nem tampouco o certo, Marina representa um projeto político específico e bem conhecido, mas ao se negar informar ao eleitor que projeto é esse a candidata despolitiza o debate.

Bater e correr do embate, usurpar a imagem de político vivo e em lado oposto para se fortalecer, ter síndrome de perseguição em uma disputa eleitoral para chefe de Estado e afirmar que agradará a “gregos e troianos” transformam Marina em uma candidata que parece estar na fina flor da adolescência. Seus oponentes estão fazendo o que era esperado: mostrar as fragilidades de Marina. Mais do que isso, é DEVER deles fazê-lo para que a população conheça suas opções.

Aécio merece mais o segundo turno…


[1] Para saber mais sobre as medidas neo-liberais clique aqui

%d blogueiros gostam disto: