Todas as Referências Culturais de Gilmore Girls – T1, E3

Por Alita.

É o episódio do ~~ciuminho~~ de Lorelai. Lembram? Rory tem um (surpreendente) dia agradável com seu avô e Lorelai fica meio “hãn, ok, onde coloco minhas mãos, mesmo?”

O episódio começa em um dos clássicos jantares de sexta-feira. Richard não sabe quem é a criada nova, Emily informa que seu nome é Mira, Lorelai diz “thanks, Mira” e Mira responde “meu nome é Sarah”. Uma ceninha cômica e agradável, mas é o primeiro episódio em que não há nenhuma referência cultural na cena antes da abertura.

Então, dá um play na própria abertura e vai aquecendo.

1) Ainda estamos lá no jantar de sexta-feira e (catzo) Emily está pegando pesado com a Lor hoje. Rory precisa escolher um esporte para realizar por exigência do colégio Chilton. Richard cita nada mais nada menos que Platão. Que loosho!

Exercício físico é tão importante quanto exercício intelectual”, profetiza Richard.

Platão, aquele conhecido filósofo grego and pupilo de Sócrates, concebia a alma dissociada do corpo (dualismo). Para o filósofo, o corpo estava sujeito aos males do tempo e da vida e a alma era infinita, além de ser o sopro vital do corpo. O conhecimento se dá apenas através da alma que muda de corpo quando o corpo morre no processo de “transmigração”, para o filósofo. Platão acreditava que tudo que existe na terra (tanto as coisas concretas – objetos – quanto abstratas – sentimento, valores) possuem uma forma ideal. Por exemplo, existem concretamente vários tipos de lápis, mas existe uma forma ideal de lápis que é O lápis, ou seja, é muito superior a forma real. A forma ideal é a forma verdadeira, única, a forma mais perfeita de um lápis. Essa forma só existe enquanto imagem ideal, uma idealização. O mesmo vale para outras coisas como valores morais, cores, enfim, tudo. A teoria do conhecimento de Platão consiste na busca incansável para conhecer essas formas ideais, e essa busca é tarefa apenas da mente. Mas, no processo, é fundamental que o corpo esteja são para carregar a alma na busca do conhecimento. Oh loko, bicho. Que viagem!

Platão-e-Aristóteles

2) Emily “sugere” que Richard ensine Rory a jogar golf. Lorelai retira sua mãe da mesa para ter uma conversinha com ela. Emily, como uma esfinge, decifra Lorelai. Ela não quer que Rory vá, porque está com medo que ela goste de tudo aquilo que Lorelai recusou, deduz Holmes. Lor diz:

Ok, Bob Barker”.

Bob Barker é um ator e apresentador que ficou conhecido por apresentar o programa The Price is Right, de 1972 a 2007. O programa é um game show de adivinhação. Hehe

bob-barker

3) As garotas estão saindo do jantar e Rory parece bem confortável com a ideia de passar um dia com seu avô aprendendo golf. Rory sugere a sua mãe que vá também. Lorelai começa a fazer piadonhas.

Prefiro fazer plástica, ficar parecida com aquela ricaça com cabeça de leão a ir ao clube com você”

Jocelyn Wildenstein é uma socialite suiça filha de pai brasileiro recordista em cirurgias plásticas (pena que não é esporte olímpico). Com seu divórcio em 1999, ela faturou 2,5 bilhões de dólares. Em 2014 era considerado o segundo divórcio mais caro da história. Em 2016, Jocelyn mãos de tesoura reapareceu na mídia por ter atacado seu namorado com uma tesoura. Ah, e ela tem cara de leão.

4) Lorelai está realizando os preparativos para um grande casamento duplo (de irmãs gêmeas com dois irmãos gêmeos, sim, bizarro) que ocorrerá no hotel Holiday Inn. A mãe das jovens noivas está de saco cheio das filhas. Lorelai aconselha ela a ir para o quarto para receber uma espetacular massagem de um sósia do Antonio Banderas.

Em 2000 Antonio Banderas ahasava, crianças.

5) Lorelai comenta com Michel como está ansiosa pela ligação de pedido de socorro de Rory. Michel de forma muito metafórica diz “caguei para você”.

Para mim você é a professora do desenho Charlie Brown”, diz Michel.

Gênio!

6) Rory chega na casa de seus avós. Emily coloca a boina (que virou icônica feat quero) em Rory.

Parece Tiger Woods”, mente Emily.

Claro. Idêntica. Olhei e pensei “nossa, irreconhecível”. Mas tudo bem. Cena com golf sem referenciar o sujeito não existe. Pra quem não sabe, Woods é o Michael Jordan do golf.

AP TIGER WOODS GOLF S ENT USA GA

7) Os cisnes chegaram no hotel. Michel tem um grande trauma com os bichinhos por um dia ter sido atacado por um grupo de cisnes. Lorelai não perde a oportunidade.

Era um grupo só de garotos? Uma versão avícola do N’Sync?”, pergunta Lor.

Deus, o que é o cabelo do Justin Timberlake? Os anos 90 precisam ser estudados. Definitivamente.

8) A harpista (porre) Drella chama Michel de Pepe Le Pew (é Pepe Le Gamba aqui).

Gênia!

9) Rory e seu avô estão almoçando e falando de uma suposta conspiração na empresa de seu avô.

É Peyton Place”, afirma ele.

Peyton Place é um filme de 1957, dirigido por Mark Robinson e estrelado pela diva Lana Turner. A história se inicia em 1941 na cidade aparentemente tranquila de Peyton Place. A maioria das pessoas da cidade trabalham na fábrica de tecidos local e todo mundo se conhece…Escolas, igrejas e coisa e tal. Allison vive com sua mãe Constance. Sua melhor amiga é Selena, que é filha da empregada e vive com o padrasto alcoólatra. Seu melhor amigo é Norman. Certo dia Allison e Norman são confundidos com um casal que, digamos assim, não estava rezando em Cristo no riacho da cidade. Bafo, fofocão. A mãe de Allison usa o tubinho preto “que história é essa?”. Allison enche o saco da cidade e vai embora. Ela retorna um ano mais tarde para assistir ao julgamento de sua melhor amiga que confessara um crime.

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O filme foi baseado no livro homônimo e foi indicado para 13 Óscars, mas (fuee fueee fueeeee) não faturou nenhumzinho.

Uma certa coincidência ocorreu dias após a cerimônia do Oscar. A filha adolescente de Lana Turner esfaqueou o gangster Johnny Stompanato (que era amante de sua mãe). Stompanato não resistiu ao ferimento no pescoço e veio a falecer. Posteriormente, a filha de Lana, Cheryl Crane, escreveu sua autobiografia em que declarou que sentia orgulho de ter matado o gansgter para defender sua mãe. Lana Turner era constantemente violentada por ele e ameaçada de ter seu rosto desfigurado caso a atriz deixasse de o sustentar. À época, a menina foi processada e julgada inocente. Corajosa a garota.

E aqui preciso abrir um parêntese.

O Brasil é o quinto país do mundo em feminicídios. São 5.000 mil (!) mulheres assassinadas por ano. A cada 1h e 30min uma mulher é morta no Brasil por seu companheiro ou conhecidos próximos. Então, por favor, não venha com o papinho “ah, as mulheres morrem menos, porque os números totais anuais são muito maiores”. Não queridinho, eu não estou falando de violência urbana (que por sinal, são homens matando homens, mulheres e crianças). Eu estou falando de maridos, ex-maridos, namorados, ex-namorados, pais e padrastos matando aquelas as quais deveriam amar, respeitar e proteger.

Mais policiamento nas ruas para combater feminicídios seria uma estupidez, porque não tem nada a ver com violência urbana, é um violência que ocorre dentro casa. É violência de gênero que ocorre em todo o canto do Brasil, inclusive naquelas cidadezinhas aparentemente seguras para viver (para o homem, claro). Ou você quer colocar um policial dentro de cada casa? (ah, viram o vídeo da semana do policial espancando sua ex-namorada à luz do dia, em via pública?). As causas do feminicídio não estão na má distribuição de renda, escolas precárias, falta de segurança urbana, etc. porque o feminicídio não tem classe, não tem cor, não tem credo. Enfim, quando se trata de matar uma mulher, o brasileiro não é preconceituoso, mata todas.

Então, antes de sair falando bobagem, informe-se. Deixe de ser machista. E principalmente entenda: a mulher não é seu apêndice. Ela pensa com sua própria cabeça. Ela age conforme a sua própria vontade. Ela usa a roupa que quiser, porque ela é um indivíduo completo e apartado de você. Assim, como o homem também é, saca? Então, homens, aceitem e parem de tratar as mulheres como seus objetos sexuais se dando ao luxo de ficarem “nervosinhos” e “perderem a cabeça” apenas por elas terem feito O QUE ESTAVAM A FIM DE FAZER. POHA! Eu ia colocar a hashtag militei. Mas esse assunto é tão sério, bicho, que não cabe piadinha.

Homens: Melhorem!

Mulheres: Vamos proteger umas as outras! Peçam ajuda. Nós não somos culpadas de quererermos ser felizes e nos livrarmos de trastes que prometeram nos amar, mas decidiram apenas incomodar, humilhar, limitar e nos violentar. Não se sintam culpadas de buscarem a felicidade. Denunciem. Liguem no 180. Não aceitem. E mais: Nunca recebam homem agressor, mesmo que estejam acompanhadas. Não caiam no papinho “vim ver meu filho” (é o momento que eles estão usando para nos matar). “Ah mas ele tem direito de ver o filho”. Tem, mas chamem a escolta antes. Vocês não podem ficar na presença de criminosos perigosos (são o que são, criminosos). Se só podem ver o filho acompanhados de assistente social, fizeram por merecer (i love meritocracia). Uma vítima não tem obrigação de voltar a ver seu agressor. Isso é uma segunda violência por si só.

Sorry, precisei abrir esse parêntese, porque esse parêntese, no Brasil, deve ser aberto sempre que houver oportunidade. Mata-se mais aqui do que em qualquer país islâmico (estamos mais inseguras aqui do que no Estado Islâmico. A Síria, país ocupado pelo EI, não está nem entre os 10 primeiros colocados no ranking de feminicídios). E os países islâmicos não são exatamente reconhecidos como países que respeitam as mulheres. A situação é calamitosa e a nossa ficha ainda não caiu. Parêntese fechado.

10) A mãe das noivas está conversando com Drella sobre o reportório musical do casamento. Pede Samuel Barber, John Cage e Philip Glass. E encerra pedindo Man! I feel like Woman, da Shania Twain.

WOOOOOW. PERFECT para o momento e para acabar com a bad depois desse papo serião que tivemos. Tá sozinhx? AUMENTA O SOM E DÁ UMA PIRADA (mas depois volta, não me deixa aqui falando com as paredes).

Let’s go, Girls!!!!

Isso é muito bom!

Mas…Vai começar uma cena totalmente desnecessária. Lorelai vai dar um piti ridículo de adolescente (ao melhor estilo “a minha melhor amiga saiu com a Larissa e eu odeio a Larissa e por isso vou ser hostil com minha melhor amiga”), porque estava com ciúmes de sua própria filha com seu próprio pai.

Affe.

Eu AMO GG, mas tem coisas que não dá para aceitar. Paladinos, meus fofos, vocês não podem construir personagens maravilhosos e complexos e de repente fazê-los fazer coisas totalmente incompatíveis com suas personalidades, idades e a trajetórias. Cadê a coerência interna? Não é uma surpresa do tipo “nossa, que personagem complexo, achei que fosse de um jeito e ele é de outro ou melhor é de vários jeitos”. Isso são as camadas dos personagens e são ótimas. É uma surpresa do tipo “hãn, que cena aleatória”. Ou seja, aparece desconectada de tudo que veio antes e não se conectará com o que vem depois.

É óbvio que Lorelai poderia ficar com ciúmes. Ciúmes é um sentimento humano que não tem idade. O problema não é esse. O problema é que ela é madura demais para não ter autoconsciência do que está fazendo e fingir que está puta por uma coisa, quando na realidade é por outra. Acho que é aí que está o problema: a falta (momentânea e injustificada) de autoconsciência de Lorelai, uma vez que ela lê as pessoas perfeitamente e sabe se ler também. Ok, no final ela “percebe” que estava com ciúmes feat insegura e pede desculpa. Mas ocorre que desde o início, e é evidente para quem vê, ela sabia disso. Ou seja, o conflito (essencial para fazer a trama andar) que era profundo e complexo (Lorelai vê problemas na aproximação de Rory com seus pais) foi substituido por um teatrinho.  Não tem sentido. Faz a treta, ué. Cria o conflito e deixa os personagens se entenderem de forma coerente. O subterfúgio do blusão deixou a Lorelai sem cara de Lorelai. Se as personagens são inteligentes e possuem autoconsciência, elas não podem perder esses elementos temporariamente para se adaptar ao conflito que o roteirista cria. São os conflitos que precisam se adaptar as personalidades já definidas.

Seria mais coerente um piti sem subterfúgios. “Garota, estou com receio de que você virará uma Emily, não criei você para isso” – uma insegurança (e autoconsciência da insegurança) que se conectaria perfeitamente com o que vem depois —> Rory vira uma patricinha mimada. Mas optou-se por um conflito aleatório cuja conclusão foi “minha filha é maravilhosa, eu fui uma ridícula e imatura” – uma afirmação incoerente que é feita a todo instante e que não condiz com o que é mostrado. 

Não há problema nenhum o personagem ser ridículo, tosco, mimado, desprezível. Os personagens, inclusive, não podem ser todos perfeitinhos, sob pena de virar um porre. Mas eles precisam ser coerentes consigo mesmos. Não com o mundo, não com valores alheios, apenas consigo mesmo. A trajetória deles é chamada “arco dramático”. Cada conflito o muda um pouquinho (ou mostra uma faceta de sua personalidade) e o joga para frente. E assim vai, até o final do seu arco de modo que o personagem começa a trama em um ponto e acaba em outro. Se ele acaba no mesmo ponto em que começou e nada é modificado, não temos história. A trajetória pode ser tanto de evolução, quanto de involução, mas deve ser precisa e os elementos devem se conectar de forma coerente. Enfim, é um arco, uma parábola, não é um eletroencefalograma. Alguns elementos em GG de vez em quando parecem completamente aleatórios. Mas o mais estranho é que as vezes os próprios Paladinos não parecem ter consciência de algumas coisas e tratam o que é uma ação negativa, como se positiva fosse. Sinto que as vezes os Paladinos no dizem “é isso que vocês devem pensar sobre Rory”, mas as cenas mostradas nos fazem pensar o oposto. Vamos se ligar, amores!

11) Enfim, segundo parêntese aberto e fechado. Nessa cena aleatória, Rory cita o livro A Mencken chrestomathy, comprado por seu avô para presenteá-la.

O livro foi escrito por Henry Mencken que era um jornalista e crítico social norte-americano. O livro citado é uma reunião de vários textos e reflexões que haviam ficado de fora de outras publicações. Dei uma pesquisada na Wiki e não gostei das “frases mais famosas dele”. Uma delas é “os solteirões entendem mais de mulheres que os casados; do contrário também estariam casados”. Como se todos os homens fossem maravilhosos e todas mulheres insuportáveis. Meio misógino isso, não? 

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12) Babette interrompe a conversa das duas para pedir ajuda para seu gato que está preso debaixo do alpendre. Ela diz que seu marido estava tocando “Thelonious” e por isso não escutou os pedidos de ajuda de “canela”

Para quem não conhece Thelonious Monk é o Michael Jordan do Jazz. Hehe. Monk é um pianista considerado um dos músicos mais importantes do Jazz. Era um revolucionário. Em 1993, ele ganhou um Grammy póstumo e, em 2006, ganhou o Pulitzer de música.

15) Babbete vai embora. Lorelai pergunta “sabe o que eu estava pensando?”

Que Madonna e Sean Penn deveriam se casar de novo?”, pergunta Rory

Os dois foram casados entre 1985 e 1988 e se divorciaram alegando irreconciliáveis diferenças. Na realidade Madonna foi vítima constante de violência doméstica. Se tornou notório nos bastidores de hollywood o episódio conhecido como “noite do terror de Malibu” que selou o fim de seu casamento em 1988. Em 1987, Madonna foi para o hospital Cedars Sinai fazer um raio-x depois que Sean havia batido em sua cabeça usando um taco de beisebol. Madonna não fez uma queixa oficial por pressão externa em função dele já estar prestes a cumprir uma pena de prisão por agredir uma pessoa no filme Surpresa em Shangai.

A “noite do terror de Malibu”, ocorreu em dezembro de 1988. Madonna ainda não havia contatado os advogados e ainda estava dividida entre os constantes pedidos de reconciliação, o medo e um sentimento de culpa comum para quem passa por isso. No final da tarde do dia 28 de dezembro de 1988, Penn escalou o muro da casa de Malibu onde Madonna estava e a encontrou sozinha no quarto. Madonna disse que sairia de casa. Os dois, então, começaram a brigar e Penn pegou uma lâmina elétrica e machucou as mãos da diva pop. A cantora fugiu do quarto, mas o que se seguiu foi um calvário de NOVE horas de tortura. Penn a amarrou em uma cadeira, ameaçou cortar seu cabelo, saiu para comprar álcool para incendiá-la, voltou, continuou a torturá-la e a desamarrou depois que ela concordou em fazer um ato sexual degradante com ele. Madonna pegou seu carro e fugiu para o gabinete do xerife de Malibu. O tenente Bill McSweeny disse na ocasião: “Eu quase não a reconheci como Madonna. Ela estava chorando, seus lábios estavam sangrando e ela, obviamente, tinha sido agredida”. Penn foi algemado e uma semana depois Madonna contatou seus advogados. Era o fim da união. E até hoje, ninguém em sã consciência, acha que Madonna deve voltar a se casar com Sean Penn.

AIAI. O Dia foi tenso. O espírito demoníaco que entrou sem querer no set de GG encontrou as locações do “O exorcista” e Lorelai voltou a ser Lorelai.

Lorelai pede desculpas para sua filha durante o casamento que ocorreu no hotel (que por sinal foi um sucesso). As duas fazem as pazes, Lorelai controla sua insegurança com relação a Rory e se acalenta com a vida que construiu. Mas, no fundo, Lor já sabe que terá problemas.

Antes de sair, dá uma relaxa e escuta essas delícias que estão na trilha do episódio: 

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Todas as Referências Culturais de Gilmore Girls – T1, E2

Por Alita.

Lorelai e Rory preparam-se para o triunfal início de Rory em Chilton. E tudo dá mais ou menos errado, mas no final melhora.

1) Lorelai está pintando as unhas do pé de Rory de vermelho, porque meninas de colégio particular são más e meninas más têm unhas vermelhas, argumenta Lorelai. Todo sentido nenhum. Lane chega correndo e gritando sobre seu novo CD da banda XCT, Appple Venus Volume 2 e foda-se a unha de Rory, vamos escutar XTC.

Nunca ouvi falar dessa banda então fui dar uma googlada. XCT foi uma banda britânica de new wave e rock alternativo (todo sentido todo a empolgação da Lane) formada em 1976. Os maiores hits da banda são Making Plans For Nigel“, de 1979, “Senses Working Overtime“, de 1982, e “Dear God“, de 1986. A banda parece que acabou em 2006, mas, segundo a wikipédia, de um jeito não oficial. Andy Partridge (guitarra e vocais) apenas anunciou que Colin Moulding (baixo e vocal) não estava mais interessado em compor, nem gravar músicas. E era isso.

Apple Venus Volume 2 (ou Wasp Star) é o último CD lançado da banda, em 2000. O álbum é composto de 12 faixas criadas para projetos anteriores, mas que haviam ficado de fora por falta espaço. A música que aparece na trilha desse episódio é I’m the Man Who Murdered Love, a sexta faixa do álbum. Além dessa pelo menos outra já foi trilha de outra série famosa. Stupidly Happy, a segunda faixa do álbum, apareceu em um episódio da série britânica Skins. Que por sinal é muito boa e tem ou tinha na Netflix. Acabei escutando várias faixas da banda e curti. Já entrou na minha playlist “as coisas não tem o menor sentido” do spotify.

2) O despertador chinês felpudo de Lorelai não desperta. Ela não consegue fazer tudo que tinha planejado fazer que basicamente era buscar as roupas na lavanderia para basicamente ter roupas para vestir. Ao que parece o único figurino disponível no armário de madre Gilmore era o look Expointer ou Barretos, com bota e tudo. As duas chegam em Chilton e ficam embasbacadas olhando a arquitetura do edifício em estilo meio gótico, com as esculturas de quimeras nas gárgulas do telhado, tipo catedral de Notre-Dame.

Eu me lembrava dele menor…”, diz Rory.

É…e menos…”, divaga Lorelai.

Off with their heads”, completa Rory.

Referência não muito explícita ao livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Caroll. “Off with their heads” (cortem fora suas cabeças) é uma frase célebre da Rainha de Copas (ou Rainha Vermelha). Mas, anteriormente, Shakespeare já havia usado frase semelhante (Off with his head) em várias peças, como Henrique VI. A frase remete ao ethos das dinastias autoritárias, cuja a contrariedade era cruelmente reprimida com o descolamento do órgão responsável pela razão e consciência do resto do corpo. Uma punição ao pensar. #Filosofei. A frase se notabilizou na boca de Helena Bonham Carter, a Rainha Vermelha absoluta da adaptação de Tim Burton para as telas. No diálogo, Rory parece confusa sobre o tamanho do prédio e no livro há também o fato de que Alice cresce muito modificando a sua percepção sobre os objetos.

3) Lorelai parece olhar atentamente para o alto do prédio e Rory pergunta o que ela está olhando.

Ahh…só estou tentando ver se há um corcunda na torre do sino”

capa da primeira edição de O corcunda de Notre-Dame

Essa foi quase explícita. Prédio gótico, quimeras e demônios ornamentando o telhado, “Cortem fora suas cabeças”. Só tá faltando mesmo um corcunda nessa Notre-Dame. “O corcunda de Notre-Dame” é um dos romances mais famosos de Victor Hugo e foi escrito em 1831. O romance narra os auspícios (palavra do dia) do corcunda Quasímodo que vive isolado do mundo em um campanário de Igreja. Quasímodo se apaixona por Esmeralda, uma jovem e bela cigana que luta contra a sociedade do século XV. A história já foi adaptada para ópera, teatro e cinema. No cinema, a história recebeu várias versões. Em 1939, Charles Laughton interpretou Quasímodo e Maureen O’Hara encarnou Esmeralda. Em 1997, foi a vez de Salma Haiek interpretar Esmeralda e Mandy Patinkin (o maravijoso Saul de Homeland), ser Quasímodo. E um ano antes, a Walt Disney lançara a versão animada e musical do romance. Com um final bem mais fofinho, claro.

4) Lorelai se despede avisando a Rory para ligar ser houver problema. A garota faz um charminho e diz que a mãe precisa entrar na escola no primeiro dia de aula dela (pais acompanhando filhos até a sala de aula no ensino médio é muito sinistro, quer dizer gótico). Lorelai nega graciosamente o convite.

Não! Eu estou parecendo aquela garota de The Dukes of Hazzards”.

The Dukes of Hazzards foi uma série exibida entre 1979 e 1984, nos EUA. A trama gira em torno dos primos, Bo e Luke Duke que produziam uísque clandestinamente, uma tradição familiar. A prima Daisy Duke era uma das personagens e era garçonete no bar “Ninho do Javali”.

A série foi adaptada para o cinema em 2005. No Brasil, ganhou o nome de “Os gatões, uma nova balada”, estrelado por Jessica Simpson (Daisy Duke), Johnny Knoxville (Luke Duke) e Seann William Scott (Bo Duke).

5) Depois de Lorelai sofrer muito bullying de sua mãe pelo figurino escolhido, Rory é entrevistada pelo diretor da escola. Ele pergunta sobre suas atividades sociais.

Estive no clube de alemão por um tempo, mas eramos só três pessoas. E dois saíram depois de ver A lista de Schindler”.

Um clássico desses, bicho. No filme Oskar Schindler abdica de toda sua fortuna para salvar a vida de dezenas de judeus. O filme recebeu sete Oscar, incluindo de melhor filme e melhor diretor, além de outros prêmios. Em 2007, o American Film Institute elegeu “A lista de Schindler” o oitavo melhor filme da história do cinema estadunidense.

6) Rory, então, informa ao diretor sua grande referência de vida. Christiane Amanpour. Amanpour foi correspondente chefe da CNN internacional de 1992 até 2010. Desde 2009 tem seu próprio programa de entrevistas de 30min de duração. Amanpour ficou famosa por ter tido uma rusguinha ao vivo com um sujeito chamado Yasser Arafat. A jornalista o entrevistou por telefone e o falecido líder palestino ficou bravo com uma pergunta e desligou na cara dela.

7) O diretor se surpreende com a referência profissional de Rory.

Não Cokie Roberts?”

Não”

Nem Oprah, Rosie e nenhuma das mulheres do The View?”

Puta cara chato, meu. Cokie Roberts é uma escritora e jornalista norte-americana que recebeu inúmeros prêmios, além de um Emmy por sua reportagem “Who is Ross Perot?”. Oprah todo mundo sabe quem é. The View é um talk-show diário do canal ABC. O programa está no ar desde 1997. Seu formato foi concebido por Barbara Walters e Bill Geddie e consiste em uma bancada formada por mulheres que discutem vários temas sociais, político, culturais e outros. Uma espécie de Saia Justa num formato menos aconchegante, mas mais hilário. Rosie O’Donnell é uma atriz, comediante, escritora, além de ativista dos direitos LGBT. Ela esteve na bancada do programa entre 2006 e 2007. Atualmente Whoopi Goldberg integra a bancada.

8) O trio maravilha Paris, Madeline e Louise está escondido entre arbustos lendo a ficha de Rory. Paris descreve geograficamente onde fica Stars Hollow.

Vá a Oeste, vire à esquerda no monte de feno e siga as vacas”

Uhh, uma Dixie Chicks”

Dixie Chicks é uma banda country formada pelo trio Emily Robison, Martie Maguire e Natalie Maines. A banda é um dos grupos femininos de maior sucesso de todos os tempos e já vendeu 30 milhões de álbuns só nos EUA. Mas, of course, Louise não estava se referindo aos dotes musicais de Rory. Ela estava basicamente a chamando de caipira. Garotinha enojada. Dixie Chicks é tão fófis.

9) Arbustos em séries ou cinemas é quase meio caminho andado para a próxima referência. Madeline então diz.

I hate Nature!

A frase é uma linha clássica do clássico roteiro do clássico filme “Os Goonies”. Lembram? Gordo está fugindo para pedir ajuda e atravessa vários arbustos para chegar na estrada e parar algum carro. Sandra Bullock em “A proposta” também lança mão dessa fala. Um clássico.

10) A senhora Patti está dando aula de Ballet. Lorelai passa vestindo o look sensualizando em Barretos e recebe a décima nona gongada do dia. Patti volta a dar aula e percebe que as meninas estão tirando a malha.

Não, fiquem com as malhas. Aqui não é o Brasil”

Uma “lindinha” referência a nossa “maravilhosa” cultura peladística.

11) Rory está tendo sua primeira aula e é simplesmente bombardeada com inúmeras referências literárias. Tolstói, Dickens, Dostoievski, George Sand, Balzac, enfim, o rodo dos escritores de renome internacional passou por cima da garota.

Liev (ou Leo) Tolstói é o escritor Russo apenas que autor de “Anna Karenina” e “Guerra e Paz”. O primeiro mergulha fundo na psicologia da adúltera Anna, esposa do Conde Karenin, e faz um dos retratos femininos mais complexos da Literatura mundial. Na abertura do livro está uma das frases mais célebres da obra: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira”. Uwoou. “Guerra e Paz”é um romance sobre a história da Rússia na época das invasões napoleônicas. 

Fiódor Dostoiévski é outro gigante russo. Escreveu os monumentos “Crime e Castigo”, “Os irmãos Karamazov”, “Notas do subsolo” e vários outros. “Crime e Castigo” acompanha a história do jovem estudante Raskólnicov que após cometer um assassinato se vê atormentado pelo crime e perseguido pelos seus próprios pensamentos. A obra influenciou pensadores do quilate de Nietzsche, Sartre, Freud, além de escritores como George Orwell e Aldous Huxley. “Os irmãos Karamazov” narra a história de uma família atormentada comandada pelo patriarca mesquinho Fiódor Karamazov. Freud considera a maior obra da história e um dos mais importante retratos do embate entre pai e filho que fundamenta sua teoria sobre o Complexo de Édipo. “Notas do Subsolo” é um romance pequeno de Dostoiévski e é considerado a primeira obra existencialista. O subsolo é o inconsciente. Ao longo da obra há várias reflexões totalmente excelentes. Olha essa:

“Todo homem tem algumas lembranças que ele não conta a todo mundo, mas apenas a seus amigos. Ele tem outras lembranças que ele não revelaria nem mesmo para seus amigos, mas apenas para ele mesmo, e faz isso em segredo. Mas ainda há outras lembranças em que o homem tem medo de contar até a ele mesmo, e todo homem decente tem um considerável numero dessas coisas guardadas bem no fundo. Alguém até poderia dizer que, quanto mais decente é o homem, maior o número dessas coisas em sua mente.”

Charles Dickens foi um romancista inglês da era vitoriana e escreveu os célebres “Grandes Expectativas”, “Oliver Twist” e “David Copperfield”. “Grandes Expectativas” narra a história do jovem Pip e seus dilemas após mudar de classe social sem esforço algum. O livro recebeu dezenas de adaptações. A mais recente é de 2012 e foi estrelada por Jeremy Irvine e Helena Bonham Carter, mas talvez a mais famosa ainda seja a versão moderna de 1998 com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow. “Oliver Twist” relata as aventuras de um jovem órfão. Nessa obra o autor retrata o fenômeno da delinquência como consequência de condições de vida precária. Uma abordagem social bastante polêmica para época. O livro também foi diversas vezes adaptado, destaca-se a versão do famoso diretor Roman Polanski, em 2005. “David Copperfield” é uma trama de maturação e acompanha a vida de David da infância até a maturidade. Em 1935, George Cukor levou o livro para as telas de cinema. 

George Sand era o pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin e é considerada a maior escritora francesa de todos os tempos. A autora tem uma vasta produção, destacam-se “Lélia”, “Indiana” e “Taverino”. Honoré de Balzac é o autor de “A mulher de trinta anos” (daí a expressão “balzaquiana”), “Ilusões perdidas”, entre outros.

UFA. Estuda Rory. Vai ser dureza.

12) Lorelai acaba de dispensar Kirk (que não se apresenta como Kirk) após ele ter sido chamado por sua mãe para instalar uma internet mais rápida em sua casa. Os vizinhos perguntam se há algum problema.

Nada que Shakespeare não pudesse transformar em uma boa peça”, responde Lorelai.

Referência explícita ao célebre autor britânico William Shakespeare, pai das maiores tragédias familiares da Literatura Universal. Em “Hamlet” vemos como o príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, que fora assassinado pelo seu próprio tio. Em “Macbeth” vemos um general leal ao seu Rei ser dominado por sua ambiciosa esposa que o convence a matar o Rei para ocupar seu trono. Em “Otelo” vemos muita inveja, traições e rivalidades entre Otelo e sua esposa Desdêmona e outros personagens. E em “Gilmore” vemos o exercício do poder de manipulação e humilhação de uma mãe aristocrática para se vingar de sua filha suburbana que negou sua linhagem nobre.

13) Lorelai despeitada por ver sua mãe invadindo sua vida vai peitar Emily no cabeleireiro e apenas que faz a melhor propaganda do mundo da internet discada.

Gostamos de internet lenta, ok? Podemos ligar, passear, dançar um pouco, fazer um sanduíche. Com ADSL não tem dança, nem passeio e morreríamos de fome. Seria só trabalho sem lazer. Você não viu O Iluminado, mãe?”

O Iluminado é o clássico filme de Stanley Kubrick, baseado no romance homônimo de Stephen King. No filme o escritor Jack Torrance vai com sua família para um hotel isolado e fechado na esperança de curar seu bloqueio criativo. Bom, a coisa não sai bem como planejado. Muito trabalho, pressão para produzir, hotel abandonado e um pouco mal-assombrado…Jack acaba perdendo um pouco o contato com a realidade e vira um querido maníaco homicida que tenta matar toda sua família. Não é que internet discada tem suas vantagens!

14) O dia está acabando e Rory está cabisbaixa contando sobre os problemas na escola e com suas colegas. Lorelai tenta ajudar a garota.

Quer que eu fale com alguém? Um pai, um professor, um cara forte chamado Moose?

Essa eu peguei no blog gringo. Marmaduke Merton Matowski é o nome completo de “Moose” Mason. Ele é um personagem da série de quadrinhos “Archie”, considerado a turma da mônica norte-americana. Moose é um atleta popular bastante avantajado fisicamente e um dos melhores amigos de Archie. Archie sempre pede ajuda a Moose quando alguém ameaçador é necessário para resolver alguns probleminhas.

And durmam em paz garotas. O dia foi exaustivo. 

Ah, na trilha sonora não creditada tem mais Sam Phillips.

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Pastoral Americana: Philip Roth adaptado para as telas

Por Alita.

Descobri Philip Roth apenas em 2014, quando li Complexo de Portnoy para um clube do livro. O clube não vingou (como todos clubes de livro), mas Roth ficou. Era a segunda vez que descobria um autor cuja linguagem, escolha das palavras, forma da escrita e conteúdo geravam uma identificação imediata, desde as primeiras páginas (o primeiro foi aos 15, com Sabino, “O Encontro Marcado”. Que livro, senhoras e senhores). Voltando.

Roth falava comigo. A forma como os dilemas morais e os conflitos pessoais e psicológicos são postos parecem dizer algo sobre nós. Mesmo que eu não saiba exatamente o quê. A coisa bate em mim e de alguma forma fica aqui, grudada em algum lugar. Fui atrás do cara. Li “O Patrimônio” e me extasiei. Ele coloca a cena. Eu, inevitavelmente, penso sobre como me comportaria. Eu continuo lendo e, então, os personagens parecem até andar através de linhas já imaginada por mim, mas aí vem Roth (pessoalmente ou vestindo seu alter-ego Zuckerman) e me pega pela mão e diz “Veja, essa é a vastidão infinita da humanidade”. Colocando dessa forma até parece uma coisa meio Mufasa. “Tudo isso que o sol toca é o nosso reino”. Mas, de fato, é mais ou menos isso. Roth parece compor seus personagens com partículas mínimas da humanidade, de modo que cada personagem ao mesmo tempo que é parte de um todo, é também a totalidade. Os elementos constitutivos de cada um são profundamente humanos. O que muda, talvez, seja a disposições deles dentro de cada pessoa. Olhamos para eles e vemos o nosso reino. Mesmo que em um cantinho qualquer, ou escondido atrás de uma pedra, nos encontramos ali em algum lugar.

Então, cheguei em Pastoral Americana e a certeza foi selada: Roth é meu escritor favorito. Como alguém consegue colocar em corpos bem específicos conflitos sociais e históricos de uma época não vivida por nós de modo que não propriamente conseguimos viver essa época, mas conseguimos senti-la como se ela vivesse em nós sem nem nós mesmos sabermos? Pastoral Americana parece ser sobre um conflito de um pai moralmente irretocável e de uma filha criminosa completamente desviante da moralidade paterna, mas não é. É sobre como uma moralidade geograficamente localizada é apertada demais para vestir toda a história. E como a dialética acaba rasgando ternos outrora adoráveis. Fica a melancolia e a saudade das festas. Percebe? É o tempo. Um dado histórico, mas profundamente humano e inevitavelmente individual.

Entrei no Netflix e ele estava lá nas sugestões a espera de um clique. Vi correndo. Dizem que livros ruins dão bons filmes e que adaptação de bons livros tendem a virar tragédias. Talvez não seja difícil entender o porquê. Livros ruins, ou melhor, livros comerciais tendem a centrar suas tramas no verbo. O conflito é APENAS entre corpos determinados e as tramas são visíveis a olho nu, facilmente decifráveis. Não há uma entrada sem pedir licença em NOSSOS cômodos privados. São tramas que nos deixam de lado como observadores privilegiados em outros cômodos que não nossos. Não são ruins, na realidade. Mas Literatura, com L maiúsculo, parece ter se caracterizado por ser outra coisa. 

Roth trabalha em outro nível. O nível micro, das densas camadas psicológicas dos personagens. O mundo que implode em milésimos de centímetros sem tirar um abajur do lugar. A ação por vezes é apenas o olhar. Um olhar que se transforma em território infinito que latitude alguma alcança. Pastoral Americana não é um livro bom, é um libelo. Em poucas páginas, não estamos mais no conforto da cama, estamos nos corpos dos personagens. Seus desassossegos são meus também. Até prolongo um pouco cada momento e o reenceno mentalmente incluindo minhas próprias tragédias, traçando diálogos mentais como se algumas linhas estivessem a minha disposição e eu, sem nem perceber, vou completando com tudo que deveria ter dito, mas não disse, naquela quinta-feira chuvosa.

Ousar adaptar Roth pareceria uma sandice, fracasso inevitável. Mas o filme, pra mim, está longe de ser ruim. Bem verdade que ele não realiza o mergulho profundo em nossas almas, proposto pelo livro. Talvez porque no cinema todas as linhas precisam de alguma forma serem preenchidas. Não estão mais lá a nossa inteira disposição. Embora alguns espaços desocupados sejam sempre valiosos no cinema, eles não dão conta da vastidão de nosso reino. Acho que o filme Pastoral Americana consegue ir até o limite. Bergman, claro, foi muito além com Sétimo Selo, O ovo da Serpente ou Sonata de Outono. Muito além mesmo. Mas ele não partiu de uma referência já dada. Não estava aprisionado a nada. Interiores, de Woody Allen, idem. Aliás, cai como uma luva ali o tal mundo que implode sem tirar um abajur do lugar.

Pastoral Americana é um belo filme. É o primeiro filme dirigido por Ewan McGregor (haja coragem), que também o protagoniza, interpretando o pai da jovem “revolucionária” Merry Levov (Dakota Fanning), Seymour Levov. Quem não leu o livro ou está intoxicado por ideologias talvez veja apenas a exaltação ou a crítica da sua própria ideologia. Seymor não é a exaltação de uma “ética protestante e o espírito do capitalismo”, assim como sua filha assassina não é a crítica aos movimentos revolucionários de esquerda. Seymor É a ética protestante, assim como sua filha É a ética da contestação. E a contestação é assim, meio errada, suja, assassina, vacilante, gaga…Até irromper e virar a regra…E ser contestada por seus filhos. Assim foi a revolução russa, como também foi a revolução burguesa na França. Construção e destruição em uma dança dialética, sem juízo de valores estúpidos.

Um filme corajoso considerando que o projeto consistia em reduzir dilemas morais brutais imersos em uma rede de afetividades e frustrações (que na realidade são dilemas sócio-históricos) em um punhado de imagens com possibilidades limitadas. Gostei do resultado. Acho que era o possível.

Na trilha sonora há uma deliciosa releitura de “Moon River” (de Bonequinha Luxo) interpretada por Priscilla Ahn. A música lotada de vazios encerra o filme. McGregor parece ter consciência de que o espaço do filme não era o suficiente.

Fazendo uma analogia com a letra de “Moon River”, a tarefa de McGregor não era apenas atravessar o rio em busca da lua, mas mergulhar no rio e tocá-la, lá no fundo. McGregor, óbvio, não consegue tocar uma imagem, mas também não se contenta em ficar apenas à deriva a perseguindo.

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ELEIÇÕES NOS EUA: TRUMP derrota HILLARY. O que esperar das eleições brasileiras?

Por Alessandra Verch.

Surpreendendo e contrariando o que as últimas pesquisas indicavam, Donald Trump venceu Hillary Clinton nas eleições presidenciais norte-americanas por uma margem apertada. Surpreendendo alguns, mas não Michael Moore. O cineasta anteviu o desfecho dessa rinha de galo ainda em Julho deste ano quando em um editorial publicado originalmente no HuffPost US e traduzido e publicado no HuffPost Brasil afirmou que Donald Trump ganharia as eleições a serem realizadas quatro meses depois. Para sua “mediunidade” se amparou em 5 motivos relevantes. São eles:

1 – O cinturão Industrial dos Grandes Lagos que compreende os estados do Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. A região quebrou devido a políticas comerciais desastradas dos democratas e desde de 2010, embora fosse reduto democrata, vinha elegendo governadores republicanos. Trump foi na jugular e ameaçou as empresas automobilísticas com interesses de sair da região rumo ao México em buscas de “vantagens” produtivas com a singela taxa de 35% sobre carros comercializados nos EUA oriundos do México. Os trabalhadores vibraram.  “De Green Bay a Pittsburgh, isso, meus amigos, é o meio da Inglaterra: quebrado, deprimido, lutando. As chaminés são a carcaça do que costumávamos chamar de classe média. Trabalhadores nervosos e amargurados, que ouviram mentiras de Ronald Reagan e foram abandonados pelos democratas”, escreveu Moore.

PIMBA!

Trump não só venceu em Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, como levou quase todos os estados da porção central dos EUA. Texas (nenhuma surpresa), Kansas, Nebraska, Missouri, Oklahoma, Loisiana, Mississipi, Alabama, Kentucky, entre outros, deram a vitória a Trump. O republicano ainda venceu em todos, sim, T-O-D-O-S os estados do sul da costa leste, isso inclui a Flórida, meus queridos. Lembram daquele chão de terra dos EUA que mais parece uma extensão da América Latina? Sim, pasmem. Trump perdeu apenas em quatro estados na região central: Minnesota, Illinois, Colorado e Novo México; nos estados do norte da costa leste: Maine, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut, Nova Jersey, Rhode Island, Delaware, Maryland, Nova York,Vermont e Virgínia; e na Costa oeste.

2 – Trump encarna o ideal romântico do homem-branco-trabalhador-que-venceu-na-vida contra as “modernidades” que colocam em risco o “sereno” domínio masculino sobre a família nuclear, “a base de uma nação que prospera”. Ah, o passado. Nada mais acalenta a alma do homem branco desempregado e falido que vê sua virilidade ruir ao se perceber lavando a louça enquanto sua mulher trabalha para sustentar a casa do que a idealização de um passado que não viveu. “Antigamente é que era bom” e a síndrome de Meia-noite em Paris em busca de um fantasma inatingível.

3 – Hillary Clinton. Ela mesma. A candidata que melhor representa o mainstream do sistema político estadunidense. Embora mulher, era ela que representava o status quo da classe política. “O quê? Não, você está delirando, seria uma ruptura, pela primeira vez uma mulher seria A presidentA dos EUA”. Desculpe-me, trago verdades. O fato de Hillary ser mulher é apenas um detalhe. A candidata da família Clinton incorpora a figura típica do político tradicional cujos elementos principais são ambição em dose tripla e sem gelo, todo o oportunismo que existe no mundo e um tonel de vaselina. Lamentavelmente (?), ao que tudo indica, esses elementos não são tendência. “Ela representa a política de antigamente: faz de tudo para ser eleita. É por isso que ela é contra o casamento gay num momento e no outro está celebrando o matrimônio de dois homens”, afirmou Moore.

Aí vocês perguntam: “Como assim? O fato dela representar a política de antigamente a prejudicou, mas o Trump representar o ideal de antigamente o beneficiou?” Exatamente. Trump é um outsider. Um sujeito ogro e nada erudito que nunca se candidatou a nada e conseguiu incorporar aquele já machucado e desacreditado“americam dream”. É fácil entender. Basta perceber que uma coisa é o eleitorado e outra coisa (cada vez mais descolada deste, inclusive) é o sistema político. Hillary era o sistema político. Trump era o eleitorado. Ambos antiquados. Ambos distintos.

Pois é…

Já disse que Hillary perdeu na Flórida?

4 – O eleitor deprimido de Bernie Sanders. Traduzindo para o “brasileiro”, o eleitor deprimido do PT, ou seja, aquele que evidentemente vai votar no candidato do partido mesmo que ele já tenha 120 anos e uma dicção de não causar inveja, mas não peça para ele ir de graça para alguma esquina para tremular euforicamente bandeiras do partido enquanto distribui flyers e conversa entusiasmadamente com prováveis eleitores. Ele não vai. Aliás, ele não tem mais vontade nem de convencer a mãe. Sorry.

5 – O efeito Jesse Ventura, aqui conhecido como “só de raiva, vou votar nele”. “Lembra nos anos 1990, quando a população de Minnesota elegeu um lutador de luta livre para governador? Elas não o fizeram porque são burras ou porque Jesse Ventura é um estadista ou intelectual político. Elas o fizeram porque podiam. Minnesota é um dos Estados mais inteligentes do país. Também está cheio de gente com um senso de humor distorcido — e votar em Ventura foi sua versão de uma pegadinha no sistema político”, lembrou Moore.

Sim, senhoras e senhores. Trump não se elegeu presidente da mais poderosa nação do mundo porque o eleitorado norte-americano é imbecil e nas horas vagas pasta feito gado. Assim como João Dória não se elegeu prefeito de São Paulo pelos mesmos motivos. Ambos representam o self-made man, são outsiders que não pertencem ao campo político. Segundo o cientista político André Marenco, “o homem político […] vem perdendo espaço para outsiders que ingressam na política mais tarde, após uma vida profissional já estabelecida, conquistando sua cadeira parlamentar sem a necessidade de percorrer todas as escalas da carreira e de um longo estágio no interior de organizações partidárias” (ler na íntegra aqui). Marenco se deteve nas eleições legislativas para sua análise, mas agora, ao que tudo indica, os outsiders estão mais ambiciosos e almejam as principais cadeiras do Executivo.

Isso deve acender a luz vermelha para a ala progressista brasileira muito satisfeita em adjetivar o eleitorado. Grite, chame de burro, chore, esperneie. Mas, depois do chilique, levante-se e olhe para os lados, Maomé. A montanha está no mesmo lugar e é você que deve ir até ela. O Haiti É aqui e os EUA também.

As eleições nos EUA evidenciam um fenômeno que parece ser global. O esgotamento do discurso de esquerda e o distanciamento dos partidos progressistas do eleitorado. O eleitor e a eleitora estão saturados de discursos ideológicos que não oferecem (ou parecem não oferecer) soluções práticas para os problemas de âmbito local. Pouco importa para o desempregado de Ohio ou para a Dona Maria do Realengo se o político é neoliberal ou social-democrata. O que eles querem saber é quem pavimentará as suas ruas e quem impedirá que empresas sumam de suas cidades levando consigo os empregos. Diante disso a esquerda (aqui e lá), além de ter falhado com o/a eleitor/a ao não resolver em definitivo problemas recorrentes, se viu envolvida em uma série de problemas de corrupção – com cobertura seletiva, claro, mas nada surpreendente para quem não atende pelo nome de Pollyanna e entende minimamente como os conglomerados de mídia se posicionam em disputas políticas  –  e com isso optou por um discurso pedagógico e defensivo. Defendendo e defendendo seu legado e lembrando a população que sempre existiu corrupção. (UAU, que alívio). A ala conservadora se lambuzou.

Os grupos políticos progressistas entraram em cena prometendo moralizar o sistema e solucionar os problemas da população. Falharam vergonhosamente ao menos na primeira promessa. Como um pêndulo, o eleitorado volta-se, novamente, para a direita. Não porque já esqueceram os prejuízos que ela causou, mas, principalmente, porque não conseguem mais diferenciar os grupos políticos. Na bem da verdade, o eleitorado encheu o saco, aqui e lá. Não à toa os principais vencedores dos pleitos eleitorais foi um tal de “Zé Ninguém”. Abstenções, nulos e brancos foram os verdadeiros winners. Mas claro, como diz a máxima “nenhum espaço de poder fica no vácuo”. Menor engajamento político? Maiores são as chances dos outsiders e seus discursos hodiernos (e muitas vezes patéticos). O sistema político democrático é um bandidinho de meia-tigela que foi pego em flagrante batendo carteira no centro da cidade: todos querem dar um peteleco nele.

Agora, as chances para a esquerda parecem ser apenas duas. Ou ela para de chorar feat brigar e aglutina em torno de um nome que consiga capitalizar o ódio do eleitorado com o sistema político brasileiro ou ela corre para forjar um partido 0km e lança candidatura de alguma figura de fora do sistema. Um ator global progressista bem sucedido quem sabe aka Capitão Nascimento. Porque agora é a vez dos outsiders. O político tradicional com seus códigos, técnicas, jeitos e trejeitos virou démodè. O candidato que mais murro der no sistema político e na figura do político tradicional vencerá. No Brasil, abre-se uma avenida para Ciro Gomes e seu jeitão de coronel sem papas na língua, mas pra isso ele ainda terá de perder qualquer resquício de vergonha que tiver e descer abaixo do nível do mar, porque abre-se uma Transamazônica para figuras como Bolsonaro. É ele quem vai disputar com unhas e babas o título de rei dos insatisfeitos-com-tudo-que-está-aí nas próximas eleições brasileiras. Embora não seja um outsider, Bolsonaro não encarna a figura típica do político tradicional. Bolsonaro é o nosso Donald Trump. É ele que tem mais chances de capitalizar o eleitorado que quer dar uma voadora no sistema político. Ciro Gomes precisará lembrar constantemente ao eleitorado que na realidade Bolsonaro é raposa, ou lobo em pele de cordeiro: um sujeito que vive de política e não é a personificação da moralidade como costuma se vender (suas ligações com Eduardo Cunha não são de hoje).

Lembram-se das eleições de 2010 quando Dilma e Serra pareciam fazer cabo de força com a figura oculta de uma senhorinha missionária católica e quase a partiram no meio em pleno debate? Aquilo soará como uma ópera wagneriana perto do que virá. Erudição pura. Segurem-se em suas poltronas, o que está por vir é Casos de Família (com Christina Rocha!).

CRUZES

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Bandido bom é bandido morto?

Por Alessandra Verch.

Lembram do Marcos Rogério dos Santos Guedes, o Porcão, um dos líderes dos “bala na cara”? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do Willian da Silva de Mello, o Nego Blade, investigado por pelo menos 5 homicídios? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do casal Kellen Monteiro Dorneles e Luis Antônio Rosa da Fé, o dindinho? Sabem onde eles estão?
Na vala.

Lembram do Anderson Henriques da Silva, preso por assalto e roubo de veículo? Sabem onde ele está?
Na vala.

Júlio César de Moura Santana, assaltante e homicida?
Na vala.

Cláudio Eduardo Bandeira da Silva, traficante, assaltante e homicida?
Na vala.

Fabiano Lemos, traficante e homicida?
Na vala.

Gérson Renato Dias Fagundes, o Gersinho?
Na vala.

Diego Pavelak, o Morto?
Na vala.

Os suspeitos pela morte de mais uma mãe na capital gaúcha?
Na vala, amanhã ou depois.

Não estão vendo?

Eles nasceram na vala.

Quando a gente cansar de matar e morrer poderíamos sentar e discutir políticas públicas. “Mandar pra vala” não está resolvendo.

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