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Adorável Cinema: Sideways – Entre umas e outras, de Alexander Payne

Por Alessandra Verch.

Uma direção sem erros e um roteiro que combina road movie por belíssimas paisagens com vinhos, uvas e mais vinhos que são apreciados pelos protagonistas adoravelmente antagônicos da trama, impossível essa combinação de elementos não se transformar em um adorável cinema. Sideways – entre umas e outras é esse filme.Sideways-movie-posterDirigido pelo já especialista em filmes adoráveis Alexander Payne (Os descendentes e As confissões de Schmidt), em Sideways vemos o professor divorciado e especialista em vinhos, Miles, maravilhosamente interpretado por Paul Giamatti (Anti-herói americano e Tudo pelo poder) e o canastrão Jack, interpretado por Thomas Haden Church (Compramos um Zoológico e Maluca Paixão) em uma viagem pelo Vale de Santa Ynez, região da Califórnia conhecida pela produção de bons vinhos. A viagem é a despedida de solteiro de Jack, que quer curtir com algumas mulheres, mas para Miles é uma oportunidade para apresentar ao amigo os melhores (e piores) vinhos produzidos no país.

Miles é um depressivo professor de colegial, frustrado pelas várias tentativas fracassadas de publicar seus livros e, para piorar, tem problemas sérios para se relacionar com mulheres. Miles ainda não aceitou o fracasso de seu último casamento, apenas mais um fracasso na sua triste vida. Sua válvula de escape é a paixão por vinhos, a única paixão que deu certo. O escritor frustrado é um exímio apreciador de vinhos. Já Jack é o seu oposto. Um ator de novelas canastrão que às vésperas de seu casamento só quer saber de transar com o maior número possível de mulheres. Não se aprisiona a nada, é destemido, na realidade o típico homem de meia-idade infantil e que não aceita não ter mais 20 e poucos anos. Um tipo boa-vida muito engraçado que só quer curtir.sideways-05Entre adoráveis e maravilhosas lições sobre vinhos, vemos o relacionamento conflituoso e bem resolvido entre os dois. Jack sempre deixa seu amigo na mão, mas Miles se vira bem com a companhia de um bom vinho. Quando ambos chegam a Solvang, mais uma cidade da rota vinícola traçada cuidadosamente por Miles, Jack consegue convencê-lo a relaxar, deixando um pouco a apreciação de vinhos de lado para “curtir” com duas mulheres, a garçonete Maya (Virginia Madsen, de Número 23) e a balconista Stephanie (Sandra Oh, a Dr. Yang de Grey’s Anatomy). Antes de entrar a contra gosto no restaurante, Miles alerta seriamente seu amigo: “se alguém pedir Merlot, vou embora. Não vou me juntar ao lado negro”. Uma piada que faz qualquer meio entendedor de vinhos dar gargalhadas (dizem que amantes de Merlot já criaram centenas de blogs para desmentir essa piadinha).SidewaysEsse é o tom do filme, entre piadas sutis e dramas singelos vemos os personagens serem saborosamente desnudados. Miles e Jack acabam por confrontar-se, explorando as origens de suas derrotas e de suas fraquezas.

Para quem é também apreciador de vinho, uma cena é emblemática, a bela cena em que Miles explica a Maya a sua paixão pelo Pinot Noir. Conferindo características humanas à uva, Miles disserta sobre as diferenças entre a Cabernet e a Pinot. Uma delícia!

Alexander Payne vem se consagrando por sua sutileza e delicadeza, tanto na direção, quanto na construção de seus roteiros. Optando por representar o cotidiano em suas minúcias e trivialidades, Payne foge de roteiros “modernos” que exigem o uso exacerbado de tecnologias. Talvez seja por isso que o diretor é acusado pelo crítico Ruy Gardnier de usar de forma medíocre a linguagem cinematográfica, privilegiando a história, ou o mundo, a ser narrado e colocando a linguagem do cinema mais como um “veículo de uma história do que como algo pensado e construído para um fim específico e próprio”.

No entanto, é possível ver o trabalho do diretor e roteirista transitar bem entre escolhas pouco arriscadas, mas elegantes, utilizando muito bem, sim, o cinema como “veículo de uma história”, nas palavras de Gardnier. Seus temas giram em torno das maravilhosas e (quase) universais situações cotidianas: uma viagem, um divórcio, uma perda, a amizade, os relacionamentos amorosos, etc. O olhar de Payne parece ser sereno e limpo de juízos de valores, até mesmo quando seus personagens são questionáveis (como o adúltero Jack). Payne parece mais interessado em mostrar com alguma sátira o que eles tem de humanos, do que propor questionamentos filosóficos sobre seus erráticos comportamentos.

Sideways – entre umas e outras parte de um entendimento básico: todos somos falhos, uns mais, outros menos. Então o que fazer? Apreciar um bom vinho e curtir, as coisas vão se resolver. Simples e adorável.

O filme é de 2004 e entre os prêmios faturados estão o Oscar e o Bafta de roteiro adaptado e o Globo de ouro de melhor filme e de melhor roteiro. As indicações foram várias, mas entre as falhas inexplicáveis está a não indicação de Paul Giamatti ao Oscar de melhor ator, em 2005.

Vale lembrar ainda que o roteiro é mais uma parceria entre Payne e Jim Taylor (os dois sempre escrevem juntos), baseado na novela de Rex Pickett.

Algumas curiosidades:

George Clooney queria o papel de Jack, mas Payne negou por achar Clooney famoso demais. Anos mais tarde eles viriam a trabalhar juntos no adorável filme Os descendentes.

A maior parte dos vinhos que os atores degustaram em Sideways era uma bebida não-alcoólica. No entanto, eles consumiram tanto esse “líquido” que precisaram, algumas vezes, beber um pouco de vinho verdadeiro para evitar enjoos.

O diretor Alexander Payne e a atriz Sandra Oh, a balconista Stephanie, foram casados de 2003 a 2006.

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Adorável Cinema: Bem-vindo, de Philippe Lioret

Por Alessandra Verch.

Bem-vindo (título original Welcome) é um adorável filme francês de 2009.Pôster WelcomeA história narra a trajetória do jovem curdo Bilal que está completamente apaixonado e fará de tudo para rever sua amada, na Inglaterra. Bilal (interpretado por Firat Ayverdi) consegue chegar à França de forma ilegal, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. Tendo em vista as políticas de imigração europeias, a opção que se mostra mais acessível é atravessar o canal da mancha a nado para reencontrar sua paixão. No entanto, esse jovem sequer sabe nadar. Seu desejo parece uma sandice, mas sua vontade aguerrida cativa e emociona a todos. Um libelo ao amor.Welcome O jovem contará, então, com a ajuda de um professor de natação, Simon (Vincent Lindon), que lhe dá auxílio e moradia para não ser deportado. A jornada é longa , mas o garoto é persistente. Na sua trajetória, acaba por mudar a vida de várias pessoas, principalmente a de Simon. O professor está separado, mas ainda ama sua ex-esposa. Ele mora na mesma cidade que ela e é incapaz de expressar, ou melhor, lutar por seus sentimentos, reconquistar seu amor. Os valores, a força de vontade e a dedicação do ingênuo rapaz o modificam profundamente.

Embora a história centre-se na paixão, no amor e na superação de obstáculos, o pano de fundo, extremamente bem trabalhado, são as políticas de imigração. Bilal fugiu de seu país de origem, Iraque, por causa da guerra. No entanto, nenhum país o recebe de forma digna. Na França tem que enfrentar as noites frias para conseguir um prato de comida oferecido por pessoas que se solidarizam com a situação indigna que vivem milhares de imigrantes.

O pano de fundo é importantíssimo para a narrativa e é explorado de forma elegante, sem discursos didáticos. O problema da imigração é colocado de forma crua. Não vemos defesas expressas de políticas mais justas, nem críticas exacerbadas à política adotada. Em Bem-vindo vemos as consequências das políticas, vemos a forma como o macro atinge o micro, como a sociedade (e todas as suas estruturas de poder) atuam sobre o indivíduo. Somos convidados, não a fazer julgamentos de valor, mas a nos emocionar com os seres humanos e com suas complexas vidas.

Bem-vindo é um filme extremamente triste e ao mesmo tempo adorável. Nada parece gratuito no filme. Diante de um roteiro cativante, a direção e os atores se entregam de forma a nos envolver nos dramas dos personagens. Mesmo a ideia irreal de atravessar a nado o canal da mancha não soa, em momento algum, como infeliz ou cômica, soa, contudo, como um desespero emocionante, um grito que precisa ecoar. Bilal quer atravessar o gélido Canal da Mancha, pois distante do calor de seu amor nada o aquece, nada o conforta. Ele não possui um chão, uma terra, resta-lhes apenas os laços que mantém de forma fervorosa.welcome1Embora, como dito acima, o filme não se preste a dar lições de moral ou formular críticas ferrenhas às políticas de imigração francesas do governo conservador de Sarcozy (pelo menos não de forma direta, e sim de forma elegantemente sutil), o drama gerou um impacto tão grande que um projeto de lei para acolhimento de imigrantes, encaminhado ao Senado, recebeu o nome de Welcome, me referência ao filme.

A direção de Bem-vindo é de Philippe Lioret. O belíssimo roteiro é uma parceria do diretor com Emmanuel Courcol e Olivier Adam. Anteriormente, Lioret já havia dirigido o também adorável Não se Preocupe, Estou Bem! (Je vais bien, ne t’en fais pas). No elenco, além dos já citados e excepcionais Vincent Lindon e Firat Ayverdi, ainda temos Audrey Dana, interpretando Marion, a ex-mulher de Simon, e Derya Ayverdi, que interpreta Mina, a paixão de Bilal.

Uma curiosidade: Firat Ayverdi e Derya Ayverdi são irmãos e foi Derya quem indicou Firat, que não era ator, para o papel de Bilal.

Entre os prêmios que o filme recebeu estão os prêmios no Festival de Berlim 2009 (Panorama, Júri Ecumênico e Lable Europa Cinemas) e o prêmio LUX 2009, para o cinema europeu.

Para quem ainda não viu, confere aí o trailer e bora ir atrás:

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Adorável Cinema: Intocáveis, de Eric Toledano e Olivier Nakache

Por Alessandra Verch.

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As diferenças tornando-se insignificantes. As dores e injustiças da vida transformando-se em encantamento e alegria. Esse é o mote do filme Intocáveis, de Eric Toledano e Olivier Nakache.

A produção francesa, de 2012, é baseada na história real do milionário Philippe Pozo di Borgo e na sua relação com o enfermeiro Abdel Selou, que se transformou em Driss no filme. Philippe ficou tetraplégico após um acidente.

No filme, o rico aristocrata Philippe, vivido por François Cluzet, contrata Driss (Omar Sy) como seu assistente. No entanto, Driss não possui qualificação alguma. Philippe de alguma forma identifica-se com o imigrante marginalizado e insiste em sua contratação.

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A identificação torna-se uma comovente amizade que toca-nos profundamente. A graça e a leveza no relacionamento dos dois são evidenciadas após a exposição e superação de suas diferenças. Um é jovem, pobre, imigrante e completamente marginalizado, o outro é um rico aristocrata, mas, de forma semelhante, marginalizado devido sua condição física. Philippe é totalmente dependente de terceiros e se torna totalmente dependente de Driss. Ambos estão dispostos a apresentar seus respectivos mundos e surge da diferença um encontro comovente.

Intouchables

Philippe e Driss se despem de seus respectivos preconceitos para construir uma relação que enche os olhos de qualquer espectador. Todo o conflito que provoca uma mudança positiva é emocionante, e é, exatamente, isso que ocorre no filme. Tem-se um conflito entre personagens, aparentemente, irreconciliáveis, mas o mesmo é superado pela minimização das diferenças e pela maximização das semelhanças. Surge uma amizade forte, mas antes disso surgem novas pessoas, mais maduras, mais humanas, mais comoventes.

Uma linda história, um belo filme. Intocáveis não é um filme inovador do ponto de vista da linguagem e nem da estética, é um filme correto. Seu diferencial é seu conteúdo, personagens complexos (a construção dos mesmos é, evidentemente, facilitada por se tratar de um roteiro adaptado) que se modificam de forma verossímil. Não passam de um estágio a outro de forma injustificada. São personagens extremamente reais e justificados, que tem seus horizontes ampliados quando se encontram. Como consequência do encontro modificam-se, alteram seus entendimentos e suas compreensões sobre o mundo e a vida. Impossível ficar indiferente a esse tipo de mudança. Saímos do cinema pessoas melhores também.

Um filme, inegavelmente, adorável que conta ainda com uma trilha sonora contagiante. Aliás, as diferenças musicais dão um toque leve e cômico indispensável. A cena em que Driss apresenta a “verdadeira música” a Philippe é de chorar no cantinho, ou de sair dançando.

Intocáveis é leve, sutil, comovente e divertido. Aliás, em recente entrevista, Philippe di Borgo disse que foi exatamente a leveza e a graça do projeto que o fez consentir com o mesmo. Di Borgo já havia negado a adaptação de sua história diversas vezes. “Eu já fui procurado por grandes nomes, mas nunca tinha consentido porque faltava senso de humor. Embora eles tenham adaptado a história, minha mulher e eu ficamos com a impressão de que os detalhes ainda estão lá. Nossos amigos estavam rindo e chorando ao mesmo tempo, então sentimos que alguma coisa havia acontecido”, disse di Borgo.

E aconteceu, Intocáveis é mais um filme indispensável. Já foi visto por milhares de pessoas no mundo inteiro e já é a segunda maior bilheteria da história do cinema francês.

Intocáveis é um filme popular. Aliás, a história real de como a superação das diferenças transformou-se em uma bela amizade é uma história popular. Ainda bem, seria triste se assim não fosse.

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Adorável cinema: Um bom ano, de Ridley Scott

A Good Year-18Por Alessandra Verch.

O dinheiro ou a paixão? O dinheiro ou sua vida? Esse é o enredo por trás do adorável filme de Ridley Scott, Um bom ano (A good year), de 2006.

Russell Crowe é Max Skinner um londrino bem sucedido homem de negócios. Max trabalha no mercado financeiro de Londres e é um workaholic que tem em sua rotina estressante o seu maior vício. Vida muita distante da educação que recebeu, o jovem Max (Freddie Highmore) foi educado por seu tio Henry (Albert Finney) em um bucólico e lindo vinhedo em Provence, na França. Max foi ensinado a apreciar um bom vinho e a usufruir da tranquilidade da vida bucólica, ensinamentos que o tempo o fez esquecer, mas que é obrigado a relembrar quando recebe a notícia do falecimento de seu tio. Max é o único herdeiro do vinhedo e precisa viajar a França para o acerto dos detalhes burocráticos e da venda do imóvel.

Max não só viaja para Provence, mas viaja, também, para seu passado. Como já era esperado o workaholic se deixa apaixonar (ou se reapaixona) pela beleza e tranquilidade do local. É lá que ele reencontra uma antiga paixão. Fanny Chenal, interpretada por Marion Cotillard, o deixa ainda mais confuso.

O filme está sintetizado em uma das cenas finais, quando Max é chamado para uma reunião com seu chefe, Sir Nigel. Ao entrar na sala, Max depara-se com um quadro de Van Gogh na parede, “espero que tenha uma boa fechadura na porta”, diz ele a seu chefe de forma irônica. No entanto, ele é retrucado, “não seja bobo, não é o original, o autêntico está em meu cofre”. Sir Nigel, então, oferece ao seu funcionário uma proposta. Quando Max retorna para informar sua decisão é, imediatamente, interpelado, “qual é sua decisão, o dinheiro ou sua vida?”, pergunta o chefe. Max responde com perguntas, “quando o vê, Nigel? O autêntico [o quadro de Van Gogh]. Quando o olha? Vai até aonde o guarda à noite apenas para vê-lo?”. As perguntas são metáforas e fazem referência ao dilema central do filme, aproveitar a vida ou apenas guardá-la em um cofre?A good YearUm bom ano explora diversos antagonismos corriqueiros e de fácil identificação. Tem-se o passado versus o presente, o dinheiro versus a paixão, o urbano versus o bucólico, enfim, diversos dilemas que se impõem ao personagem principal e que apreciamos enquanto voyers da vida alheia, degustando um pouquinho de tudo sem ter de nos limitar às escolhas que competem ao personagem. Aliás, a escolha é o de menos, como o enredo é delicioso não nos importamos com o tempo, é um delicioso passeio por distintas atmosferas. A excitação da vida corrida e da rotina de trabalho no mercado financeiro londrino dá lugar as belíssimas locações e a beleza sufocante dos vinhedos franceses, tudo isso regado a vinho e a lições de como produzi-lo, precisa mais alguma coisa?

O elenco de Um bom ano conta com a participação de atores de vários países, como Russel Crowe, da Austrália, Marion Cotillard, da França e Freddie Highmore, Albert Finney e Archie Panjabi, da Inglaterra. O filme foi rodado em Londres e em diversas cidades francesas, entre elas Gordes, Marselha, Avignon.

Um bom ano é baseado no livro homônimo de Peter Mayle que foi lançado em 2004. O escritor não só é amigo do diretor Ridley Scott, como faz um agradecimento especial a ele, na abertura de seu livro, pelo incentivo recebido. O livro centra-se de forma mais rica no universo da produção de vinho e é uma excelente dica para quem aprecia o tema, mas o filme não fica para trás. Aliás, se em um roteiro temos belas locações, vinhedos, produção e degustação de vinhos é difícil não termos um bom filme. Explorar com elegância a arte dos vinhos no cinema é quase jogo baixo, o filme torna-se, imediatamente, adorável (Sideways – entre umas e outras é outro jogo baixo).

Um bom ano é isso, elegante e saboroso. O filme ainda conta com uma fotografia impecável, contrastando as cenas frias de Londres, com as cenas quentes e aconchegantes das cidadezinhas de Provence.

Muitos acham Um bom ano um filme bobo, mas quem aprecia belas locações e, principalmente, vinhos não pode deixar de vê-lo. Pode até ser que Um bom ano seja um filme bobo, mas, se assim for, é um filme saborosamente bobo.

 

Adorável Cinema: Juno, de Jason Reitman

O filme de hoje não é apenas adorável, é adorabilíssimo, ou muitíssimo adorável….

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Juno, filme de 2007, dirigido por Jason Reitman e com roteiro de Diablo Cody, explora de forma original e criativa o drama de uma gravidez na adolescência, gravidez que acaba se tornando um detalhe dentro de uma história interessante e cativante: a história de Juno e suas relações pessoais. O filme é comentado, em voz off, pela personagem principal, que tece diversas considerações ao longo do mesmo, exercendo as vias de um narrador onipresente. Juno conta sua história de um futuro não muito distante, refletindo sobre acontecimentos e experiências.

Juno (Ellen Page) é uma garota que está no colegial, tem personalidade forte e está fora dos padrões típicos femininos, é uma garota “alternativa”(o que isso significa, mesmo?). Gosta de rock, se veste com roupas largas, toca guitarra, etc. “Não sei que tipo de garota eu sou”, desabafa para seu pai.

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O excelente roteiro, de Diablo Cody, procura fugir dos lugares comuns, padrões ou clichês. Juno não é apenas uma garota do TIPO incomum. Nada em Juno é típico, e tudo é encantador. Os personagens não podem ser facilmente identificados, pois possuem complexidade. Não são tolos, nem espertos. Não são feios, nem lindos. Não são “alternativos”, nem padronizados. A roteirista Diablo Cody ao construir seus personagens mesclou várias características, aparentemente, antagônicas e acabou por construir um belo roteiro sem dicotomias vagas e infantis, com personagens cativantes e humanizados.

Juno por um descuido engravida de um colega e amigo seu, Paulie Bleeker (Michael Cera), um garoto fascinado por balas de laranja. Sua melhor amiga é líder de torcida e é, exatamente, o seu oposto, mas ambas estão em perfeita sintonia. Juno mora com seu pai, sua madrasta e sua irmã. Possui atritos com a madrasta (Alisson Janney), mas a relação de ambas é de carinho e respeito. É comovente vermos implicâncias, preocupações e carinho em uma mesma relação e assim é o relacionamento delas.  Seu pai (J.K. Simmons) é seu amigo e a apoia ao longo de toda a sua jornada, outro relacionamento adorável no filme. Juno, que no primeiro momento queria interromper a gestação, ao não conseguir abortar o feto decide continuar a gravidez e entregar a criança para a adoção, se julga muito nova para se tornar mãe. Não romantiza a situação, tampouco a dramatiza. Todas as aparências enganam no filme e pequenos detalhes, aparentemente, pouco conciliáveis o enriquecem muito, pois dão verossimilhança, por mais estranho que algumas coisas possam parecer, imediatamente, nós assimilamos que elas assim o são apenas na tela, que conhecemos vivências semelhantes e pessoas parecidas. Nos aproximamos dos personagens, de suas histórias, jeitos e cacoetes por nos identificarmos com eles.

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A garota encontra o casal ideal para adotar a criança que gesta, eles são Mark e Vanessa Loring, interpretados por Jason Baterman e Jennifer Garner, respectivamente. Juno passa, então, a se envolver de forma complexa com o casal. Por identificação, carência ou por descuido, desenvolve uma relação mais íntima com Mark, o que o faz repensar sua relação com a sua mulher e, também, a adoção. Não há recriminações, não há moralismo, as coisas, simplesmente, acontecem. Em uma conversa com Paulie, após dizer que havia passado a tarde com Mark, o garoto a pergunta, sutilmente, se isso é normal. Juno responde que não sabe, que talvez não seja mesmo. É uma garota, que apesar da pecha do “diferente”, também sabe seduzir, é uma garota normal.

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A separação do casal causa um desconforto, temporário, em Juno e a obriga a reestruturar os detalhes da adoção, mas a garota consegue. Ao final de sua jornada, Juno se descobre apaixonada por seu colega de banda e pai de seu bebê Paulie Bleeker. “Sei que o normal é as pessoas se apaixonarem antes de se reproduzir, mas acho que a normalidade não faz o nosso estilo”, conclui a garota.

Além de um roteiro delicado, de uma direção impecável e de atuações cativantes, um detalhe chama bastante a atenção: a trilha sonora do filme é excepcional. Na soundtrack estão Kinks, Cat Power, Belle & Sebastian, Sonic Youth, entre outros artistas. A música tema da relação de Juno e Paulie Bleeker, e cantada ao final do filme pelos dois, é Anyone Else But You, do Moldy Peaches, a letra permeada por antíteses acaba por ser a síntese do filme. Um filme simples e complexo, triste e feliz. Um filme imperdível.

Algumas curiosidades sobre Juno:

#Foi a própria Ellen Page, atriz que interpretou Juno, que sugeriu algumas das bandas da trilha sonora para compor sua personagem.

#O telefone de hambúrguer, uma marca no filme, é de verdade e é de Diblo Cody, roteirista do filme.

#Juno ganhou vários prêmios, entre eles o Oscar e o Bafta de melhor roteiro original.