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Todas as referências culturais de Gilmore Girls – T1, E4

Por Alita.

Bom, a primeiríssima referência cultural começa antes de qualquer uma das garotas gilmores bocejarem. Começa antes mesmo da deliciosa abertura. Ela está no título! Muito embora o título em português seja “Em busca da perfeição” e traduza literalmente o enredo do episódio em que Rory vai mal pela primeira vez na vida em uma prova escolar (e fica muito chateada e enfia sua cara nos estudos para brilhar no teste seguinte – o que infelizmente não ocorre), o título original remete a um clássico filme que não é tão literal, mas é muito mais criativo.

Metáforas <3.

1) The Deer Hunter

O título do episódio é The Deer Hunter, mais conhecidos nessas bandas como O franco atirador. O filme é um drama de guerra de 1978, dirigido por Michael Cimino e estrelado por Robert De Niro, Meryl Streep, Christopher Walken, entre outros. O enredo gira em torno de um trio de metalúrgicos russos-americanos e seu serviço de infantaria na guerra do Vietnã. É um libelo pacifista por expor de forma contundente as consequências da guerra para o indivíduo submetido a ela, que vai do abuso de drogas às doenças mentais.

A metáfora com episódio provavelmente se relaciona com o fato de Rory se submeter à níveis de estresse e pressão altíssimos na busca pela sua adequação aos padrões de excelência de Chilton. Isso levou Rory a fazer loucurinhas momentâneas. Evidentemente um paralelo exagerado, mas um exagero engraçado e criativo.

 

2) Sheakespeare

William Sheakespeare. É sobre ele que será a prova de Rory (que vale 20% da nota final) e a garota precisa ahasar para compensar o fracasso do “D” no trabalho anterior. Shakespeare, como (acredito) todos sabem, foi um dramaturgo, poeta e ator inglês que (acredita-se) viveu de 1564 a 1616 nesse mundo de meu deus. O autor se notabilizou pelas comédias, tragédias e dramas históricos que escreveu, além de seus poemas e sonetos. Entre suas comédias as mais famosas são: Sonho de uma noite de verão, A megera domada e O mercador de Veneza. Já entre suas tragédias destacam-se: Romeu e Julieta, Rei Lear, Hamlet, Macbeth e Otelo. Entre os dramas históricos estão Henrique IV e Ricardo II.

Shakespeare se eternizou como o principal decodificador das paixões mais violentas do ser humanos, transformando em belas palavras pulsões tão subjetivas que não poderiam ser apreendidas por outras mãos.

Shakespeare

BBC certa vez selecionou as 10 frases mais famosas das obras de Shakespeare. Dá uma olhada no nível:

1) Os covardes morrem muitas vezes antes de sua morte; os valentes morrem uma única vez.” (De Júlio César)
2) “A vida é uma simples sombra que passa (…); é uma história contada por um idiota, cheia de ruído e de furor e que nada significa” (De Macbeth)
3) “Mais doloroso do que o dente de uma cobra é ter um filho ingrato! Partamos, vamos.” (De Rei Lear)
4) “Oh Deus! Por tudo quanto tenho lido ou das lendas e histórias escutado, em tempo algum teve um tranquilo curso o verdadeiro amor.” (De Sonho de uma Noite de Verão)
5) “Não serre o ar com as mãos, desta maneira; seja temperado nos gestos; pois mesmo na torrente, na tempestade e até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade – o que engrandece a ação.” (De Hamlet)
6) “Você tem bruxaria em seus lábios, Kate.” (De Henrique V)
7) “O Inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.” (De A Tempestade)
8) “No entanto, para dizer a verdade, hoje em dia a razão e o amor quase não andam juntos. É pena que alguns vizinhos honestos não se esforcem para torná-los amigos. Como vê, também posso ser espirituoso se houver ocasião.” (De Sonho de uma Noite de Verão)
9) “O mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres não passam de meros atores. Eles entram e saem de cena, e cada um, no seu tempo, representa diversos papéis. Seus atos se distribuem por sete idades.” (De Como lhe Aprouver)
10) “Ah, apesar de amar o que outros abominam, com os outros tu não deves abominar o meu estado; se a tua falta de valor despertou o amor em mim, mais digno eu, de ser de ti amado.” (Do Soneto 150).

3) Chevalier

Drella, a harpista, tropeça com sua harpa em Michel, o francês, que fica revoltado e a chama de imbecil. Drella então solta um “Pare com isso, Chevalier”. Chevalier é o título honorífico que os cavaleiros de Napoleão recebiam. Michel emenda “Você é estúpida, cega e desajeitada”, ao que Drella rebate “Pelo menos não sou francesa”. Hmmm. Piadinhas problemáticas não são raras.

4) Versace

Os dois continuam discutindo e Michel fala que seus sapatos italianos foram caríssimos. Drella o chama de bebê e indaga “Eu me pergunto de Versace faz chupeta”. Gianni Versace foi um estilista famosérrimo italiano que foi assassinado por um serial killer em Miami Beach. Foi o fundador de uma das marcas de modas mais sólidas e luxuosas. Após sua morte o império Versace passou a ser administrado por sua irmã Donatella Versace.

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5) Black Sabath

Drella toca alguns acordes de “Iron Man” do Black Sabath em sua harpa. Hahah Lorelai chega rapidamente e vaticina “Nada de Black Sabath, Steely Dan, Boston ou Queen”. Poxa, Lorelai. Só os clássicos.

Segue a trágica lista de proibições:

6) Mozart

Mozart tá liberado pela Lorelai. Wolfgang Amadeus Mozart foi um genial compositor austríaco que nasceu em 1756 e morreu em 1791 e escreveu mais 600 obras nesse pequeno intervalo de tempo. Não existia netflix nessa época. Talvez tenha sido pop, mas quem resiste a I want to break free. I want to break free. I want to break free from your lies. You’re so self satisfied I don’t need you. I’ve got to break free. God knows, God knows I want to break free. Poxa.

A Flauta Mágica é uma das mais famosas obras de Mozart. Nesse vídeo abaixo ela é interpretada pela Orquestra Sinfônica de Limeira e regida pelo maestro Fernando Barreto.

7) Artie Shaw

Drella resmunga para Lorelai “Eu sou o Artie Shaw dos harpista” após Lorelai lembrá-la que Mozart estava liberado. Artie Shaw foi um famoso clarinetista de jazz dos EUA. Nasceu em 1910 e morreu em 2004. Era um músico autoral e seus clássicos mais famosos são Begin the Beguine e Oh, Lady Be Good.

Shaw estrelou alguns filmes também, interpretando ele mesmo. Em Second Chorus, estrelado por Fred Astaire e Paulette Goddard, ele recebeu duas indicações ao Oscar pela Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção (Love of My Life).

8) Joana D’arc

Lorelai chega a cozinha e pergunta se tem café. Sookie completamente aérea e desiludida com parte da crítica feita por um famoso crítico gastronômico local responde que há café fresco. Lorelai pega a cafeteira seca e retruca com uma piadonha. “Fresco na minha primeira vida como Joana D’Arc”.

Essa vai ser copia e cola da wiki >>> “É a santa padroeira da França e foi uma chefe militar da Guerra dos Cem Anos, durante a qual tomou partido pelos Armagnacs, na longa luta contra os Borguinhões e seus aliados ingleses. Foi executada na fogueira, em um auto de fé pelos Borguinhões em 1431”. Quem quiser saber mais sobre essa célebre personalidade histórica joga na wiki que tem bastante coisa ou veja a produção tcheco-francesa de 1999 dirigido por Luc Besson e estrelado pela maravilhosa Milla Jovovich. Há também uma produção estadunidense clássica dirigida por Victor Fleming e protagonizada por outra maravilhosa aka Ingrid Bergman, de 1948.

 

9) Shakespeare, Marlowe, Bacon, Ben Jonson, John Webster.

Esses são os figurões da literatura elisabetana que Rory irá estudar no seu primeiro ano em Chilton.

Shakespeare foi descrito acima. Marlowe, ou , é contemporâneo de Shakespeare. Nasceu em 1564 e morreu aos 29 anos assassinado em uma taberna. Suas peças mais famosas são O Judeu de Malta, A trágica história do Dr. Fausto e Hero e Leandro. Em 2016, a Oxford University Press informou que Marlowe será creditado como coautor em três obras atribuídas a Shakespeare. Especialistas confirmaram que a contribuição de Marlowe a esses textos foi “importante e suficientemente evidente”, declarou à BBC Gary Taylor, da Oxford University Press. Os dois escritores aparecerão, a partir de agora, juntos nos títulos de crédito das três partes da obra de teatro “Enrique VI” (veja mais aqui).

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Francis Bacon foi um político, filósofo e ensaísta inglês e é considerado o fundador da ciência moderna. No campo literário, seus Essays (Ensaios), publicados em 1597, 1612 e 1625 são fundamentais.

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Ben Jonson foi um dramaturgo, poeta e ator inglês da Renascença, também contemporâneo de Shakespeare. Suas peças mais conhecidas estão Volpone, O Alquimista e A Feira de São Bartolomeu: uma Comédia.

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John Webster, por sua vez, se notabilizou com as tragédias The White Devil e The Duchess of Malfi.

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10) B-52’s

Uma menção honrosa a essa banda clááássica formada em 1976. A banda, talvez a mais famosa de rock e new wave, interrompeu seus trabalhos em 1994, mas retornou à atividade em 1998.

Lorelai chega para a reunião de pais da escola de Rory vestindo uma camiseta massa da banda.

11) Saved by the bell

Rory explica que sentiu muito humilhada pela nota baixa que recebeu e por isso não contou a Lorelai. Lorelai então a acalma. “Querida, uma vez você me disse que adorava Saved by the bell. O que poderia ser mais humilhante que isso?”. Ahahah

A série de TV norte-americana, Saved by the bell exibida originalmente em 4 temporadas, o Brasil, foi exibida pelo SBT com o nome de Uma Galera do Barulho. Nossa, lembro demais. Eu amava essa e O mundo é dos Jovens. Queria muito ser Topanga.

12) Soneto 116, de William Shakespeare

Rory está cada vez mais tensa com a prova que se aproxima e Paris faz questão de esbanjar antipatia exibindo toda sua erudição ao recitar um trechinho desse soneto a Rory.

Não me permita permitir, entre o casamento
de duas mentes verdadeiras, impedimentos. Amor
não é amor se muda ao encontrar mudança.

Ou se é apagado pelo apagador.
Oh, não! O amor é escrito em tinta perpétua
e atravessa, sem mácula, a água de tempestades.

É o mapa que guia navios perdidos,
seu valor é incalculável,
embora sua extensão física seja calculável.

O amor não se submete ao tempo,
mas a lábios rosados e as faces vermelhas.
O amor não se mede em horas ou semanas,
Ele persiste ainda nos portões do abismo.

E se eu estiver errado – e isso for provado,
eu jamais escrevi, e ninguém jamais amou.

13) Pat Benatar

Drella pergunta a Lorelai o que ela acha de Pat Benatar. Lorelai irônica responde: “Ótima ideia. Ela sabe tocar harpa?”

Pat Benatar é uma cantora de rock norte-america que compôs a música “Love is a Battlefield”, um hino adolescente em 1983, e trilha sonora do filme “De Repente 30”. Aquele cena da Jenifer Garner no quarto com as garotas dançando loucamente, lembra? Muito fofa!

14) Duce

Rory não consegue fazer o teste e Lorelai é chamada na escola. No calor da discussão com o diretor de Chilton, Lorelai se refere a ele como o “Duce”. Duce em italiano significa líder. Foi usado para designar diversos líderes, mas foi com o ditador fascista Benito Mussolini que o termo se popularizou e ficou para sempre associado ao fascismo.

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15) Flashdance

Achei que essa escola ia ser tão legal. E agora acho que vai para lista ‘cara, como eu estava errada’. Logo acima das calças-saias, mas abaixo da fase flashdance” (GILMORE, L, 2000).

Flashdance. Anos 80. Dança. Moletomzão. Calcinha preta. Permanente. Ombreiras. Salto agulha.

POLAINAS!

❤ ❤ ❤

Um filme desses, bicho! Fala mal não.

E o episódio chega ao fim.

Mais!!

Trilhas:

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O contorcionismo de José Padilha para “Estancar a sangria”

Por Alita.

Recentemente, José Padilha vem protagonizando a mais nova polêmica da cena pública brasileira. Provavelmente semana que vem será outra e com outros protagonistas, mas vamos aos fatos.

Sua mais recente produção, a série O mecanismo, vem recebendo uma chuva de críticas por parte de segmentos mais à esquerda no espectro político ideológico brasileiro devido à, digamos assim, liberdade artística “estranha” com que tratou os fatos históricos recentes. Dentre as várias críticas, destaca-se a colocação da notória expressão “precisamos estancar a sangria” (proferido por Romero Jucá) na boca do personagem João Higino, que na trama encarna o ex-presidente Lula. Para se defender, José Padilha alegou que trata-se de uma expressão idiomática e, por isso, não viu problema algum atribuí-la à Lula. Ao invés de manter a fidedignidade histórica, optou pela “liberdade artística”.

Pois bem, expressões idiomáticas são expressões que só podem ser entendidas contextualmente (literalmente não fazem sentido) e já foram consagradas pelo uso popular, de modo que sua origem, quem as inventou, são desconhecidas. Exemplo: chover no molhado, pendurar as chuteiras, chutar o pau da barraca, feito cego em tiroteio, etc. Ou seja, são expressões sem dono, de uso corriqueiro. Muitas gírias, inclusive, enquadram-se nesse conceito.

No entanto, quando evoca-se uma expressão e, imediatamente, a coletividade a associa a alguma pessoa, a uma figura política específica, não se está mais falando de expressão idiomática e sim de uma “citação”. “Estancar a sangria” é uma expressão que virou célebre na cultura brasileira por ter sido proferida por uma pessoa específica e em uma contexto igualmente específico (praticamente o oposto do que ocorre com uma expressão idiomática). Se outrora era uma simples expressão idiomática, deixou de ser, porque foi “privatizada”. Isso porque, no momento, está mais atrelada a uma pessoa determinada, se presta mais para fazer referência a Romero Jucá, do que ao sentido coletivo anteriormente dado a ela.

Importante lembrar que o principal requisito atribuído a uma expressão idiomática é o uso coletivo disseminado. No entanto, foi a própria coletividade que estranhou o seu uso. Foi o público que identificou uma fala verídica e não compreendeu o motivo dela ter sido colocada na boca de personagem diverso (e nesse quesito a crítica veio tanto da esquerda, quanto da direita). Portanto é constrangedor o autor utilizar o argumento da “expressão idiomática” para mitigar o estranhamento da coletividade, uma vez que ele próprio não é pessoa autorizada para definir se é ou não uma expressão idiomática. Quem o é, é justamento a coletividade.

Quando Padilha alega que trata-se de uma simples expressão idiomática, minimizando o problema e, inclusive, chamando a polêmica de “boboca”, está ou agindo de má-fé ou por desconhecimento. Não acredito que ele seja burro, então a primeira opção me parece a mais sensata, infelizmente.

Sim, todo artista goza do privilégio da liberdade artística e pode recriar ou recontar a história como lhe aprouver. Se Padilha quiser fazer um filme sobre o nazismo colocando Hitler em uma câmara de gás e os judeus de posse do molho de chaves do campo de concentração ele pode, é livre para encarar a empreitada. A grande questão que ficará é por quê? No caso concreto, me pergunto por que inverter e manipular fatos tão recentes da história do Brasil e que ainda estão em processos de metabolização e entendimento social. Para gerar um ruído? Desestruturar a narrativa do golpe com a qual, ao que tudo indica, Padilha não concorda e cuja principal evidência é, não coincidentemente, justamente o áudio em que Jucá profere a máxima “estancar a sangria” para então vaticinar “com o STF, com tudo”?

Talvez, de fato, algum dia “estancar a sangria” vire novamente uma simples expressão idiomática, carregada de apenas um sentido aceito por todos e de uso trivial. Não duvido. Acredito mesmo que se dissociará de Jucá e do processo político que enfrentamos. Todavia não creio que volte a ter a acepção coletiva antiga (interromper processos danosos). Aliás, aposto que virará sinônimo de pilantragem, próximo ao sentido hoje dado ao “jeitinho”, ou seja, golpe. Mas, se é para apostar, aposto mais que “Padilhando” daqui a algum tempo será equivalente a “dando migué” ou “passando recibo”.

Todas as Referências Culturais de Gilmore Girls – T1, E3

Por Alita.

É o episódio do ~~ciuminho~~ de Lorelai. Lembram? Rory tem um (surpreendente) dia agradável com seu avô e Lorelai fica meio “hãn, ok, onde coloco minhas mãos, mesmo?”

O episódio começa em um dos clássicos jantares de sexta-feira. Richard não sabe quem é a criada nova, Emily informa que seu nome é Mira, Lorelai diz “thanks, Mira” e Mira responde “meu nome é Sarah”. Uma ceninha cômica e agradável, mas é o primeiro episódio em que não há nenhuma referência cultural na cena antes da abertura.

Então, dá um play na própria abertura e vai aquecendo.

1) Ainda estamos lá no jantar de sexta-feira e (catzo) Emily está pegando pesado com a Lor hoje. Rory precisa escolher um esporte para realizar por exigência do colégio Chilton. Richard cita nada mais nada menos que Platão. Que loosho!

Exercício físico é tão importante quanto exercício intelectual”, profetiza Richard.

Platão, aquele conhecido filósofo grego and pupilo de Sócrates, concebia a alma dissociada do corpo (dualismo). Para o filósofo, o corpo estava sujeito aos males do tempo e da vida e a alma era infinita, além de ser o sopro vital do corpo. O conhecimento se dá apenas através da alma que muda de corpo quando o corpo morre no processo de “transmigração”, para o filósofo. Platão acreditava que tudo que existe na terra (tanto as coisas concretas – objetos – quanto abstratas – sentimento, valores) possuem uma forma ideal. Por exemplo, existem concretamente vários tipos de lápis, mas existe uma forma ideal de lápis que é O lápis, ou seja, é muito superior a forma real. A forma ideal é a forma verdadeira, única, a forma mais perfeita de um lápis. Essa forma só existe enquanto imagem ideal, uma idealização. O mesmo vale para outras coisas como valores morais, cores, enfim, tudo. A teoria do conhecimento de Platão consiste na busca incansável para conhecer essas formas ideais, e essa busca é tarefa apenas da mente. Mas, no processo, é fundamental que o corpo esteja são para carregar a alma na busca do conhecimento. Oh loko, bicho. Que viagem!

Platão-e-Aristóteles

2) Emily “sugere” que Richard ensine Rory a jogar golf. Lorelai retira sua mãe da mesa para ter uma conversinha com ela. Emily, como uma esfinge, decifra Lorelai. Ela não quer que Rory vá, porque está com medo que ela goste de tudo aquilo que Lorelai recusou, deduz Holmes. Lor diz:

Ok, Bob Barker”.

Bob Barker é um ator e apresentador que ficou conhecido por apresentar o programa The Price is Right, de 1972 a 2007. O programa é um game show de adivinhação. Hehe

bob-barker

3) As garotas estão saindo do jantar e Rory parece bem confortável com a ideia de passar um dia com seu avô aprendendo golf. Rory sugere a sua mãe que vá também. Lorelai começa a fazer piadonhas.

Prefiro fazer plástica, ficar parecida com aquela ricaça com cabeça de leão a ir ao clube com você”

Jocelyn Wildenstein é uma socialite suiça, filha de pai brasileiro, recordista em cirurgias plásticas (pena que não é esporte olímpico). Com seu divórcio em 1999, ela faturou 2,5 bilhões de dólares. Em 2014 era considerado o segundo divórcio mais caro da história. Em 2016, Jocelyn reapareceu na mídia por ter atacado seu namorado com uma tesoura. Ah, e ela tem cara de leão.

4) Lorelai está realizando os preparativos para um grande casamento duplo (de irmãs gêmeas com dois irmãos gêmeos, sim, bizarro) que ocorrerá no hotel Holiday Inn. A mãe das jovens noivas está de saco cheio das filhas. Lorelai aconselha ela a ir para o quarto para receber uma espetacular massagem de um sósia do Antonio Banderas.

Em 2000 Antonio Banderas ahasava, crianças.

5) Lorelai comenta com Michel como está ansiosa pela ligação de pedido de socorro de Rory. Michel de forma muito metafórica diz “caguei para você”.

Para mim você é a professora do desenho Charlie Brown”, diz Michel.

Gênio!

6) Rory chega na casa de seus avós. Emily coloca a boina (que virou icônica feat quero) em Rory.

Parece Tiger Woods”, mente Emily.

Claro. Idêntica. Olhei e pensei “nossa, irreconhecível”. Mas tudo bem. Cena com golf sem referenciar o sujeito não existe. Pra quem não sabe, Woods é o Michael Jordan do golf.

AP TIGER WOODS GOLF S ENT USA GA

7) Os cisnes chegaram no hotel. Michel tem um grande trauma com os bichinhos por um dia ter sido atacado por um grupo de cisnes. Lorelai não perde a oportunidade.

Era um grupo só de garotos? Uma versão avícola do N’Sync?”, pergunta Lor.

Deus, o que é o cabelo do Justin Timberlake? Os anos 90 precisam ser estudados. Definitivamente.

8) A harpista (porre) Drella chama Michel de Pepe Le Pew (é Pepe Le Gamba aqui).

Gênia!

9) Rory e seu avô estão almoçando e falando de uma suposta conspiração na empresa de seu avô.

É Peyton Place”, afirma ele.

Peyton Place é um filme de 1957, dirigido por Mark Robinson e estrelado pela diva Lana Turner. A história se inicia em 1941 na cidade aparentemente tranquila de Peyton Place. A maioria das pessoas da cidade trabalham na fábrica de tecidos local e todo mundo se conhece…Escolas, igrejas e coisa e tal. Allison vive com sua mãe Constance. Sua melhor amiga é Selena, que é filha da empregada e vive com o padrasto alcoólatra. Seu melhor amigo é Norman. Certo dia Allison e Norman são confundidos com um casal que, digamos assim, não estava rezando em Cristo no riacho da cidade. Bafo, fofocão. A mãe de Allison usa o tubinho preto “que história é essa?”. Allison enche o saco da cidade e vai embora. Ela retorna um ano mais tarde para assistir ao julgamento de sua melhor amiga que confessara um crime.

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O filme foi baseado no livro homônimo e foi indicado para 13 Óscars, mas (fuee fueee fueeeee) não faturou nenhumzinho.

Uma certa coincidência ocorreu dias após a cerimônia do Oscar. A filha adolescente de Lana Turner esfaqueou o gangster Johnny Stompanato (que era amante de sua mãe). Stompanato não resistiu ao ferimento no pescoço e veio a falecer. Posteriormente, a filha de Lana, Cheryl Crane, escreveu sua autobiografia em que declarou que sentia orgulho de ter matado o gansgter para defender sua mãe. Lana Turner era constantemente violentada por ele e ameaçada de ter seu rosto desfigurado caso a atriz deixasse de o sustentar. À época, a menina foi processada e julgada inocente. Corajosa a garota.

E aqui preciso abrir um parêntese.

O Brasil é o quinto país do mundo em feminicídios. São 5.000 mil (!) mulheres assassinadas por ano. A cada 1h e 30min uma mulher é morta no Brasil por seu companheiro ou conhecidos próximos. Então, por favor, não venha com o papinho “ah, as mulheres morrem menos, porque os números totais anuais são muito maiores”. Não queridinho, eu não estou falando de violência urbana (que por sinal, são homens matando homens, mulheres e crianças). Eu estou falando de maridos, ex-maridos, namorados, ex-namorados, pais e padrastos matando aquelas as quais deveriam amar, respeitar e proteger.

Mais policiamento nas ruas para combater feminicídios seria uma estupidez, porque não tem nada a ver com violência urbana, é um violência que ocorre dentro casa. É violência de gênero que ocorre em todo o canto do Brasil, inclusive naquelas cidadezinhas aparentemente seguras para viver (para o homem, claro). Ou você quer colocar um policial dentro de cada casa? (ah, viram o vídeo da semana do policial espancando sua ex-namorada à luz do dia, em via pública?). As causas do feminicídio não estão na má distribuição de renda, escolas precárias, falta de segurança urbana, etc. porque o feminicídio não tem classe, não tem cor, não tem credo. Enfim, quando se trata de matar uma mulher, o brasileiro não é preconceituoso, mata todas.

Então, antes de sair falando bobagem, informe-se. Deixe de ser machista. E principalmente entenda: a mulher não é seu apêndice. Ela pensa com sua própria cabeça. Ela age conforme a sua própria vontade. Ela usa a roupa que quiser, porque ela é um indivíduo completo e apartado de você. Assim, como o homem também é, saca? Então, homens, aceitem e parem de tratar as mulheres como seus objetos sexuais se dando ao luxo de ficarem “nervosinhos” e “perderem a cabeça” apenas por elas terem feito O QUE ESTAVAM A FIM DE FAZER. POHA! Eu ia colocar a hashtag militei. Mas esse assunto é tão sério, bicho, que não cabe piadinha.

Homens: Melhorem!

Mulheres: Vamos proteger umas as outras! Peçam ajuda. Nós não somos culpadas de quererermos ser felizes e nos livrarmos de trastes que prometeram nos amar, mas decidiram apenas incomodar, humilhar, limitar e nos violentar. Não se sintam culpadas de buscarem a felicidade. Denunciem. Liguem no 180. Não aceitem. E mais: Nunca recebam homem agressor, mesmo que estejam acompanhadas. Não caiam no papinho “vim ver meu filho” (é o momento que eles estão usando para nos matar). “Ah mas ele tem direito de ver o filho”. Tem, mas chamem a escolta antes. Vocês não podem ficar na presença de criminosos perigosos (são o que são, criminosos). Se só podem ver o filho acompanhados de assistente social, fizeram por merecer (i love meritocracia). Uma vítima não tem obrigação de voltar a ver seu agressor. Isso é uma segunda violência por si só.

Sorry, precisei abrir esse parêntese, porque esse parêntese, no Brasil, deve ser aberto sempre que houver oportunidade. Mata-se mais aqui do que em qualquer país islâmico (estamos mais inseguras aqui do que no Estado Islâmico. A Síria, país ocupado pelo EI, não está nem entre os 10 primeiros colocados no ranking de feminicídios). E os países islâmicos não são exatamente reconhecidos como países que respeitam as mulheres. A situação é calamitosa e a nossa ficha ainda não caiu. Parêntese fechado.

10) A mãe das noivas está conversando com Drella sobre o reportório musical do casamento. Pede Samuel Barber, John Cage e Philip Glass. E encerra pedindo Man! I feel like Woman, da Shania Twain.

WOOOOOW. PERFECT para o momento e para acabar com a bad depois desse papo serião que tivemos. Tá sozinhx? AUMENTA O SOM E DÁ UMA PIRADA (mas depois volta, não me deixa aqui falando com as paredes).

Let’s go, Girls!!!!

Isso é muito bom!

Mas…Vai começar uma cena totalmente desnecessária. Lorelai vai dar um piti ridículo de adolescente (ao melhor estilo “a minha melhor amiga saiu com a Larissa e eu odeio a Larissa e por isso vou ser hostil com minha melhor amiga”), porque estava com ciúmes de sua própria filha com seu próprio pai.

Affe.

Eu AMO GG, mas tem coisas que não dá para aceitar. Paladinos, meus fofos, vocês não podem construir personagens maravilhosos e complexos e de repente fazê-los fazer coisas totalmente incompatíveis com suas personalidades, idades e a trajetórias. Cadê a coerência interna? Não é uma surpresa do tipo “nossa, que personagem complexo, achei que fosse de um jeito e ele é de outro ou melhor é de vários jeitos”. Isso são as camadas dos personagens e são ótimas. É uma surpresa do tipo “hãn, que cena aleatória”. Ou seja, aparece desconectada de tudo que veio antes e não se conectará com o que vem depois.

É óbvio que Lorelai poderia ficar com ciúmes. Ciúmes é um sentimento humano que não tem idade. O problema não é esse. O problema é que ela é madura demais para não ter autoconsciência do que está fazendo e fingir que está puta por uma coisa, quando na realidade é por outra. Acho que é aí que está o problema: a falta (momentânea e injustificada) de autoconsciência de Lorelai, uma vez que ela lê as pessoas perfeitamente e sabe se ler também. Ok, no final ela “percebe” que estava com ciúmes feat insegura e pede desculpa. Mas ocorre que desde o início, e é evidente para quem vê, ela sabia disso. Ou seja, o conflito (essencial para fazer a trama andar) que era profundo e complexo (Lorelai vê problemas na aproximação de Rory com seus pais) foi substituido por um teatrinho.  Não tem sentido. Faz a treta, ué. Cria o conflito e deixa os personagens se entenderem de forma coerente. O subterfúgio do blusão deixou a Lorelai sem cara de Lorelai. Se as personagens são inteligentes e possuem autoconsciência, elas não podem perder esses elementos temporariamente para se adaptar ao conflito que o roteirista cria. São os conflitos que precisam se adaptar as personalidades já definidas.

Seria mais coerente um piti sem subterfúgios. “Garota, estou com receio de que você virará uma Emily, não criei você para isso” – uma insegurança (e autoconsciência da insegurança) que se conectaria perfeitamente com o que vem depois —> Rory vira uma patricinha mimada. Mas optou-se por um conflito aleatório cuja conclusão foi “minha filha é maravilhosa, eu fui uma ridícula e imatura” – uma afirmação incoerente que é feita a todo instante e que não condiz com o que é mostrado. 

Não há problema nenhum o personagem ser ridículo, tosco, mimado, desprezível. Os personagens, inclusive, não podem ser todos perfeitinhos, sob pena de virar um porre. Mas eles precisam ser coerentes consigo mesmos. Não com o mundo, não com valores alheios, apenas consigo mesmo. A trajetória deles é chamada “arco dramático”. Cada conflito o muda um pouquinho (ou mostra uma faceta de sua personalidade) e o joga para frente. E assim vai, até o final do seu arco de modo que o personagem começa a trama em um ponto e acaba em outro. Se ele acaba no mesmo ponto em que começou e nada é modificado, não temos história. A trajetória pode ser tanto de evolução, quanto de involução, mas deve ser precisa e os elementos devem se conectar de forma coerente. Enfim, é um arco, uma parábola, não é um eletroencefalograma. Alguns elementos em GG de vez em quando parecem completamente aleatórios. Mas o mais estranho é que as vezes os próprios Paladinos não parecem ter consciência de algumas coisas e tratam o que é uma ação negativa, como se positiva fosse. Sinto que as vezes os Paladinos no dizem “é isso que vocês devem pensar sobre Rory”, mas as cenas mostradas nos fazem pensar o oposto. Vamos se ligar, amores!

11) Enfim, segundo parêntese aberto e fechado. Nessa cena aleatória, Rory cita o livro A Mencken chrestomathy, comprado por seu avô para presenteá-la.

O livro foi escrito por Henry Mencken que era um jornalista e crítico social norte-americano. O livro citado é uma reunião de vários textos e reflexões que haviam ficado de fora de outras publicações. Dei uma pesquisada na Wiki e não gostei das “frases mais famosas dele”. Uma delas é “os solteirões entendem mais de mulheres que os casados; do contrário também estariam casados”. Como se todos os homens fossem maravilhosos e todas mulheres insuportáveis. Meio misógino isso, não? 

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12) Babette interrompe a conversa das duas para pedir ajuda para seu gato que está preso debaixo do alpendre. Ela diz que seu marido estava tocando “Thelonious” e por isso não escutou os pedidos de ajuda de “canela”

Para quem não conhece Thelonious Monk é o Michael Jordan do Jazz. Hehe. Monk é um pianista considerado um dos músicos mais importantes do Jazz. Era um revolucionário. Em 1993, ele ganhou um Grammy póstumo e, em 2006, ganhou o Pulitzer de música.

15) Babbete vai embora. Lorelai pergunta “sabe o que eu estava pensando?”

Que Madonna e Sean Penn deveriam se casar de novo?”, pergunta Rory

Os dois foram casados entre 1985 e 1988 e se divorciaram alegando irreconciliáveis diferenças. Na realidade Madonna foi vítima constante de violência doméstica. Se tornou notório nos bastidores de hollywood o episódio conhecido como “noite do terror de Malibu” que selou o fim de seu casamento em 1988. Em 1987, Madonna foi para o hospital Cedars Sinai fazer um raio-x depois que Sean havia batido em sua cabeça usando um taco de beisebol. Madonna não fez uma queixa oficial por pressão externa em função dele já estar prestes a cumprir uma pena de prisão por agredir uma pessoa no filme Surpresa em Shangai.

A “noite do terror de Malibu”, ocorreu em dezembro de 1988. Madonna ainda não havia contatado os advogados e ainda estava dividida entre os constantes pedidos de reconciliação, o medo e um sentimento de culpa comum para quem passa por isso. No final da tarde do dia 28 de dezembro de 1988, Penn escalou o muro da casa de Malibu onde Madonna estava e a encontrou sozinha no quarto. Madonna disse que sairia de casa. Os dois, então, começaram a brigar e Penn pegou uma lâmina elétrica e machucou as mãos da diva pop. A cantora fugiu do quarto, mas o que se seguiu foi um calvário de NOVE horas de tortura. Penn a amarrou em uma cadeira, ameaçou cortar seu cabelo, saiu para comprar álcool para incendiá-la, voltou, continuou a torturá-la e a desamarrou depois que ela concordou em fazer um ato sexual degradante com ele. Madonna pegou seu carro e fugiu para o gabinete do xerife de Malibu. O tenente Bill McSweeny disse na ocasião: “Eu quase não a reconheci como Madonna. Ela estava chorando, seus lábios estavam sangrando e ela, obviamente, tinha sido agredida”. Penn foi algemado e uma semana depois Madonna contatou seus advogados. Era o fim da união. E até hoje, ninguém em sã consciência, acha que Madonna deve voltar a se casar com Sean Penn.

AIAI. O Dia foi tenso. O espírito demoníaco que entrou sem querer no set de GG encontrou as locações do “O exorcista” e Lorelai voltou a ser Lorelai.

Lorelai pede desculpas para sua filha durante o casamento que ocorreu no hotel (que por sinal foi um sucesso). As duas fazem as pazes, Lorelai controla sua insegurança com relação a Rory e se acalenta com a vida que construiu. Mas, no fundo, Lor já sabe que terá problemas.

Antes de sair, dá uma relaxa e escuta essas delícias que estão na trilha do episódio: 

A reforma trabalhista é boa ou não para mim?

Por Alita.

Primeiro é preciso dizer que todos os direitos contemplados no Art. 611-A do texto final da reforma deixaram de ser garantias mínimas e passaram a ser objetos passíveis de discussão entre empregado e empregador, uma vez que ele prevê que “a convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei”. São eles:

Sem título

Na prática esses direitos não existem mais, uma vez que direito (no sentido positivo do conceito) é apenas aquilo prescrito no ordenamento jurídico. Os direitos ainda estão lá, mas o que não está passa a se sobrepor sobre o que está. Mas o problema não é apenas esse.

A reforma com uma mão fragilizou muito a representação sindical, mas com a outra aumentou as competências e poderes do sindicato. Por quê? Parece paradoxal, mas é estratégico. O trabalhador estava fragilizado e desarticulado, cada vez mais afastado dos sindicatos. O que fizeram? Concederam o “direito” dele não mais arcar com o ônus da contribuição sindical, e não arcará. Ao mesmo tempo em que a contribuição passa a ser condicionada a autorização prévia, veja você, os acordos coletivos estabelecidos entre sindicatos e patrões passam a se sobrepor a lei.  O empresariado percebendo as fragilidades do sindicalismo e as novas culturas organizacionais – altamente individualizadas e cada vez mais desprovidas de lideranças – o que fez? inviabilizou financeiramente a organização sindical e a transformou na principal mediadora dos conflitos, retirando competências outrora da Justiça do Trabalho. Ou seja, os sindicato se tornam inviáveis, mas também indispensáveis. Preciso dizer quem viabilizará financeiramente os sindicatos?  É trágico, mas é muito inteligente. Há que se admitir.

Enquanto o trabalhador se despolitiza, fragmenta-se e vira as costas para o sistema político (#nãomerepresenta), os empresários se organizam e se coletivizam. E fazem isso evocando o discurso do indivíduo e da “liberdade”. A classe média e a classe pobre se deram ao luxo de virar as costas para o sistema político, porque têm convicção de que tudo aquilo que conquistaram foi através de seus próprios esforços (e talvez não seja mentira). Mas a elite jamais daria as costas para o sistema político, porque essa convicção ela não tem. O empresariado dificilmente dominaria a Justiça do Trabalho, então direcionou seus esforços para dominar o Estado pelo executivo e legislativo. Financiou um golpe, tirando do jogo aqueles que eram obstáculos, e na sequência fez andar todos os seus projetos, um a um. 

Bobbio diz que a cidadania e o surgimento do indivíduo como sujeito político e não mais submetido a um Soberano absoluto se dá com a inversão da dicotomia dos deveres-direitos. “Os deveres sempre vieram antes dos direitos” afirma ele citando os códigos jurídicos de vários momentos da história antes da Revolução Burguesa da França. “Eram compostos de normas imperativas de comandos e proibições”. Mas o “primado dos direitos sobre os deveres” das Revoluções Burguesas foi ponto de inflexão da história. Esse primado está sucumbindo, não mais através de um soberano absoluto, mas justamente pela “mão invisível do mercado”, pela burguesia outrora marginalizada.

É flagrante como o discurso de um grupo específico é tomado como verdadeiro para todo um conjunto. “Vais ser bom para a mercado”, dizem. Como se os trabalhadores não fizessem parte do mercado. Como se os interesses dos trabalhadores não rivalizassem com os dos empresários  (trabalhador quer ganhar mais, empregador quer pagar menos, isso é indiscutível). Mas principalmente como se uma nação inteira devesse se organizar em função do “mercado” (leia-se empresariado) e não o contrário.

Essa reforma é unilateral. Aliás, como já afirmei no outro post, não é uma reforma. Reforma é quando o Estado reformula seus mecanismos institucionais e jurídicos para dar conta de se adaptar às mudanças históricas, em consonância com os anseios sociais. Não há, em absoluto, nenhum ganho para o trabalhador e, consequentemente, não há ganho para sociedade. Afirmar que “algumas categorias já funcionam dessa forma”, como alguns afirmam, não diz nada. Aliás, é fugir da questão posta sobre Justiça. A questão é muito simples e objetiva, não requer nenhuma grande elucubração teórica, basta que se adote referencial bem limitado de Justiça como o utilitarista: a reforma é boa para quem? Quantos serão prejudicados e quantos serão beneficiados? Se o número de beneficiados é maior, então, numa perspectiva utilitarista, está-se apto a afirmar que ela é boa e justa. 

A reforma não é boa, tampouco justa, porque ela é boa para uma diminuta parte da população ao passo que é muito ruim para um contingente significativo de pessoas. Quando o acordado prevalece sobre o legislado não temos uma Reforma. Temos um Despejo. O Estado, assim como Pôncio Pilatos, está lavando as mãos. O Estado não será mais o mediador entre os desiguais. Será mero observador do duelo entre leões famintos e cristãos inocentes, como numa arena romana. O que outrora eram direitos, deixaram de ser. É bem simples.

O ponto de vista daqueles que defendem a “reforma” trabalhista é apenas o ponto de vista do empresariado, um segmento importante, mas diminuto da sociedade e que jamais poderia das as cartas sozinho. É necessário um Estado mediando as relações entre os desiguais para que suas desigualdades não se converta em injustiça. Fala-se que havia muita “instabilidade jurídica no âmbito das relações trabalhistas”, quando especificamente o que está se dizendo é: “havia direitos trabalhistas em conflito com os interesses do empresariado”. Não é o fim de alguns direitos trabalhistas. É o fim do próprio conceito de direitos no âmbito do trabalho. 

OBSERVAÇÃO 1: os trabalhadores da indústria estão completamente desamparados, mas agora o setor de serviços caminhará a passos largos para emular a organização capitalista industrial, ou seja, terceirizadas surgirão em cada esquina.

OBSERVAÇÃO 2: Algumas pessoas estão afirmando que o acordo individual não entrou no texto da “reforma”, mas entrou também. O acordo entre empregador e empregado que “perceba salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social” passa a ser lei, quer dizer, equivalente a acordo coletivo.

OBSERVAÇÃO 3: Estão afirmando que o FGTS ficou intocado, mas é uma inverdade. O FGTS mudou também. A “reforma” criou a figura da demissão consensual (chega a ser hilária a nossa fragilidade), ou seja, o contrato extinto por “acordo entre empregado e empregador”. Nesse caso o trabalhador receberá apenas a metade tanto do aviso prévio, quanto da multa de 40% sobre o FGTS. Outra mudança no FGTS, a movimentação das contas vinculadas aos trabalhadores que foram “demitidos consensualmente” agora está limitada até 80% dos valores depositados. A pergunta que fica? Quem se “demitirá consensualmente”?

 

Reforma trabalhista, papo chato?

Por Alita.

Talvez ainda não tenham entendido o “X” da questão. Não se trata de uma Reforma Trabalhista, nem tampouco do fim de alguns direitos trabalhistas.

Reforma é quando o Estado reformula seus mecanismos institucionais e jurídicos para dar conta de se adaptar às mudanças históricas, em consonância com os anseios sociais.

O que a Lei aprovou é que a Lei não vale mais nada. Quando o acordado vale sobre o legislado, não temos uma Reforma. Temos uma Despejo. Ficamos sem casa.

O Estado, assim como Pôncio Pilatos, lavou as mãos. O Estado não será mais o mediador entre desiguais, impedindo que suas desigualdades se traduzam em injustiça. Será mero observador do duelo entre leões famintos e crentes em Jesus.

Não é o fim de alguns direitos trabalhistas. É o fim do próprio conceito de direitos no âmbito do trabalho.

Mas bora festejar.
Lula foi condenado.