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Pastoral Americana: Philip Roth adaptado para as telas

Por Alita.

Descobri Philip Roth apenas em 2014, quando li Complexo de Portnoy para um clube do livro. O clube não vingou (como todos clubes de livro), mas Roth ficou. Era a segunda vez que descobria um autor cuja linguagem, escolha das palavras, forma da escrita e conteúdo geravam uma identificação imediata, desde as primeiras páginas (o primeiro foi aos 15, com Sabino, “O Encontro Marcado”. Que livro, senhoras e senhores). Voltando.

Roth falava comigo. A forma como os dilemas morais e os conflitos pessoais e psicológicos são postos parecem dizer algo sobre nós. Mesmo que eu não saiba exatamente o quê. A coisa bate em mim e de alguma forma fica aqui, grudada em algum lugar. Fui atrás do cara. Li “O Patrimônio” e me extasiei. Ele coloca a cena. Eu, inevitavelmente, penso sobre como me comportaria. Eu continuo lendo e, então, os personagens parecem até andar através de linhas já imaginada por mim, mas aí vem Roth (pessoalmente ou vestindo seu alter-ego Zuckerman) e me pega pela mão e diz “Veja, essa é a vastidão infinita da humanidade”. Colocando dessa forma até parece uma coisa meio Mufasa. “Tudo isso que o sol toca é o nosso reino”. Mas, de fato, é mais ou menos isso. Roth parece compor seus personagens com partículas mínimas da humanidade, de modo que cada personagem ao mesmo tempo que é parte de um todo, é também a totalidade. Os elementos constitutivos de cada um são profundamente humanos. O que muda, talvez, seja a disposições deles dentro de cada pessoa. Olhamos para eles e vemos o nosso reino. Mesmo que em um cantinho qualquer, ou escondido atrás de uma pedra, nos encontramos ali em algum lugar.

Então, cheguei em Pastoral Americana e a certeza foi selada: Roth é meu escritor favorito. Como alguém consegue colocar em corpos bem específicos conflitos sociais e históricos de uma época não vivida por nós de modo que não propriamente conseguimos viver essa época, mas conseguimos senti-la como se ela vivesse em nós sem nem nós mesmos sabermos? Pastoral Americana parece ser sobre um conflito de um pai moralmente irretocável e de uma filha criminosa completamente desviante da moralidade paterna, mas não é. É sobre como uma moralidade geograficamente localizada é apertada demais para vestir toda a história. E como a dialética acaba rasgando ternos outrora adoráveis. Fica a melancolia e a saudade das festas. Percebe? É o tempo. Um dado histórico, mas profundamente humano e inevitavelmente individual.

Entrei no Netflix e ele estava lá nas sugestões a espera de um clique. Vi correndo. Dizem que livros ruins dão bons filmes e que adaptação de bons livros tendem a virar tragédias. Talvez não seja difícil entender o porquê. Livros ruins, ou melhor, livros comerciais tendem a centrar suas tramas no verbo. O conflito é APENAS entre corpos determinados e as tramas são visíveis a olho nu, facilmente decifráveis. Não há uma entrada sem pedir licença em NOSSOS cômodos privados. São tramas que nos deixam de lado como observadores privilegiados em outros cômodos que não nossos. Não são ruins, na realidade. Mas Literatura, com L maiúsculo, parece ter se caracterizado por ser outra coisa. 

Roth trabalha em outro nível. O nível micro, das densas camadas psicológicas dos personagens. O mundo que implode em milésimos de centímetros sem tirar um abajur do lugar. A ação por vezes é apenas o olhar. Um olhar que se transforma em território infinito que latitude alguma alcança. Pastoral Americana não é um livro bom, é um libelo. Em poucas páginas, não estamos mais no conforto da cama, estamos nos corpos dos personagens. Seus desassossegos são meus também. Até prolongo um pouco cada momento e o reenceno mentalmente incluindo minhas próprias tragédias, traçando diálogos mentais como se algumas linhas estivessem a minha disposição e eu, sem nem perceber, vou completando com tudo que deveria ter dito, mas não disse, naquela quinta-feira chuvosa.

Ousar adaptar Roth pareceria uma sandice, fracasso inevitável. Mas o filme, pra mim, está longe de ser ruim. Bem verdade que ele não realiza o mergulho profundo em nossas almas, proposto pelo livro. Talvez porque no cinema todas as linhas precisam de alguma forma serem preenchidas. Não estão mais lá a nossa inteira disposição. Embora alguns espaços desocupados sejam sempre valiosos no cinema, eles não dão conta da vastidão de nosso reino. Acho que o filme Pastoral Americana consegue ir até o limite. Bergman, claro, foi muito além com Sétimo Selo, O ovo da Serpente ou Sonata de Outono. Muito além mesmo. Mas ele não partiu de uma referência já dada. Não estava aprisionado a nada. Interiores, de Woody Allen, idem. Aliás, cai como uma luva ali o tal mundo que implode sem tirar um abajur do lugar.

Pastoral Americana é um belo filme. É o primeiro filme dirigido por Ewan McGregor (haja coragem), que também o protagoniza, interpretando o pai da jovem “revolucionária” Merry Levov (Dakota Fanning), Seymour Levov. Quem não leu o livro ou está intoxicado por ideologias talvez veja apenas a exaltação ou a crítica da sua própria ideologia. Seymor não é a exaltação de uma “ética protestante e o espírito do capitalismo”, assim como sua filha assassina não é a crítica aos movimentos revolucionários de esquerda. Seymor É a ética protestante, assim como sua filha É a ética da contestação. E a contestação é assim, meio errada, suja, assassina, vacilante, gaga…Até irromper e virar a regra…E ser contestada por seus filhos. Assim foi a revolução russa, como também foi a revolução burguesa na França. Construção e destruição em uma dança dialética, sem juízo de valores estúpidos.

Um filme corajoso considerando que o projeto consistia em reduzir dilemas morais brutais imersos em uma rede de afetividades e frustrações (que na realidade são dilemas sócio-históricos) em um punhado de imagens com possibilidades limitadas. Gostei do resultado. Acho que era o possível.

Na trilha sonora há uma deliciosa releitura de “Moon River” (de Bonequinha Luxo) interpretada por Priscilla Ahn. A música lotada de vazios encerra o filme. McGregor parece ter consciência de que o espaço do filme não era o suficiente.

Fazendo uma analogia com a letra de “Moon River”, a tarefa de McGregor não era apenas atravessar o rio em busca da lua, mas mergulhar no rio e tocá-la, lá no fundo. McGregor, óbvio, não consegue tocar uma imagem, mas também não se contenta em ficar apenas à deriva a perseguindo.

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Todas as Referências Culturais de Gilmore Girls – T1, E1

Por Alita.

Tudo começa no inverno. É o início de tudo. O início da jornada das Gilmore. Aos poucos somos apresentados a cada personagem e PLIM: “QUE SÉRIE MARAVIJOSA É ESSA? QUERO”. A lanchonete do Luke ainda nem era “A lanchonete do Luke”. O episódio piloto foi rodado em uma cidadezinha do Canadá chamada Unionville, em Ontario.

No piloto conhecemos Lorelai, mãe-aos-16-solteira-gerente-de-hotel-viciada-em-café, e Rory, adolescente-CDF-meio-blerg-pra-dar-a-real-e-também-viciada-em-café. Lorelai recebe a notícia de que Rory foi aceita em Chilton, mas não tem um puto para bancar a escola particular para a filha. É então que somos apresentados à Emily, sua mãe AND ricaça. Um leque se abre sobre a mesa com um punhado de conflitos que vão fazer a trama andar.

Mas comecemos do começo.

1) Nos primeiros momentos vemos Lorelai caminhar em direção a lanchonete do Luke. Ela entra, implora por uma xícara de café (de cara descobrimos tratar-se de uma coffee junkie) e vai para sua mesa. Um rapaz se aproxima e puxa aquele papinho levemente convencional “vem sempre aqui?”, ele se apresenta como um viajante. Deixou quicando. Lorelai lança sua primeira referência.

Você é um Jack Kerouac”

Jack Kerouac, Kero para os íntimos (alocka), era um escritor norte-americano que liderou a Geração Beat nos EUA e foi o principal influenciador da juventude sessentista. Passou a vida escrevendo e viajando e escrevendo e viajando e escrevendo sobre suas “viagens” (inclusive as literais). Sacou? Han-Han. Ok, parei. “On the Road” é de 1957 e é considerado a obra-prima do querido. O livro é apenas a “bíblia hippie” e narra, em fluxo de consciência, a viagem dos best junkie friends Sal Paradise e Dean Moriarty pelos EUA. Os moços, que não são viciado em café, atravessaram os EUA e selaram para sempre um roteiro de viagem que todo mundo que leu o livro sonha em fazer. QUERO. (Eduardo Jorge, love you).

Adiante.

2) Rory entra na lanchonete e pede a Lorelai um gloss (ou brilho labial whatever). Lorelai, então, tira 2764 estojos de maquiagem da bolsa para Rory escolher. Rory não perde a oportunidade.

Nem RuPaul precisa de tanta maquiagem”

RuPaul Andre Charles é apena A Drag mais famosa que você respeita. Em 2009, esse rapaz multitalentoso, conhecido apenas como RuPaul, lançou o famoso reality RuPaul’s Drag Race, nele diversas drags competem em busca do título “America’s Next Drag Superstar”. Tem no netflix. Garota, ahasou na referência!

3) Na sequência, Rory comunica que perdeu seu CD da Macy Gray. Sim, em menos de 3min apenas que três maravilhosas referências são jogadas na nossa cara com violência. Macy Gray todo mundo conhece. Dá um play aqui embaixo e segue lendo.

4) Lorelai vai pegar café no balcão para Rory. Luke muito preocupado com a gastrite e o vício da moça faz uma cara feia e Lorelai se explica.

Ouça, Oficial Krupke, ela está naquela mesa, bem ali”.

Oficial Krupke é o policial empata-fodatreta de todos os maloqueiros do musical West Side Story. Poxa, Oficial Luke, não deixa a Lorelai revoltada. Ela nunca teve o amor que toda criança deveria receber.

5) Lorelai está trabalhando no hotel. Rory chega vestindo tapada com um blusão meio edredão fofínio que não valoriza muito os contornos da garota e Lorelai encontra uma excelente oportunidade para fazer um bullying matinal. 

O que é esse muumuu?”

Muumuu é aquele vestidão típico havaiano, excelente para quem quer esconder uns Kg. Menti. Infelizmente não é excelente.

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6) E eis que entra em cena Lane, a rockstar coreana-americana. Imediatamente é apresentado ao público todo o apreço pela cultura norte-americana nutrido pela família coreana da garota.

Se meus pais ainda se irritam com o exagero das porções da comida americana, tenho minhas dúvidas se conseguirei fazer progresso com Eminem”.

Não vai garota. Progresso algum. Não diga para seus pais que ouve Eminem. Nenhum pai merece ouvir isso. Nem coreano, nem norte-americano, nem aqui no meu bairro. Não faça isso. #Dicão. Nem dêem play, continuem na Macy Maravilhosa. (PS: todo respeito pelo Eminem, mas acho uma bosta. Tenho direito. Eu acho). 

7) Rory e Lane entram na escola. Na sala a profe está lecionando Mark Twain, mais especificamente “As aventuras de Huckleberry Finn”. O livro narra a jornada do pequeno Huck, um garoto que forja sua própria morte para fugir tanto das senhoras que o adotaram para “civilizá-lo” quanto de seu pai alcoólatra. No percurso pela liberdade encontra Jim, escravo da senhora Watson que o havia adotado. Ao longo da história os dois desenvolvem uma amizade forte. Nossa. Nem consigo fazer piadonha. O livro é uma excelente metáfora da transição de uma sociedade decrépita e escravocrata para uma sociedade liberal onde novas formas de relacionamento interpessoais começam a surgir. O livro é de 1885 e é considerado a obra-prima do Twain. Quem era criança nos anos 90 viu no “cinema em casa” do SBT a adaptação protagonizada por Elijah Wood. A cena em que Twain é citado parece existir apenas pra mostrar como Rory é sabichona. Algumas garotas estão pintando unha e se surpreendem quando percebem que Rory está fazendo o trabalho sobre o autor pedido pela professora. A garota faz uma cara de “sim, faço trabalhos, não sou da laia de vocês” que é totalmente diferente da cara de “sim, sou nerd e sou feliz”.  Não gostei muito. 

8) Lorelai recebe uma carta do Colégio Chilton e corre para cozinha do Hotel para lê-la para (todos amam) Sookie. Antes já tínhamos sido informados que Lorelai e Sookie sonham em abrir seu próprio hotel e que Sookie é “levemente” (não é um trocadilho gordofóbico, faça-me o favor, só prestar atenção nas placas de aviso em todas as esquinas desse blog “Proibido ser escroto”) desastrada . Rory chega, as duas estão assustadoramente felizes, Rory pergunta o que está acontecendo e Lorelai entrega uma sacola com o uniforme de Chilton. Rory pega a saia xadrez e diz:

Vou aparecer no clipe da Britney Spears?”

Referência auto-explicativa. A essa altura a Macy já acabou, você não ousou dar um clique no Eminem, portanto segue com esse clássico, bicho. “Rory vai pra Chilton, Rory vai pra Chilton”.

9) Lorelai está na varanda de sua casa com Sookie esperando ter uma iluminação divina para encontrar uma forma de pagar a primeira mensalidade de Chilton (ou cogitando seriamente a possibilidade de assaltar um banco). Sookie sugere algo, mas é imediatamente interrompida por Lorelai.

Sookie, há muitos capítulos dos livros de Stephen King que eu encenaria antes de recorrer a essa opção”

Uma das referências (e diálogo) mais inteligentes da série. King é aquele moço que escreveu “O iluminado”, “Carrie”, “Doctor Sleep”, “A dança da Morte”, entre outros vários livros de horror fantástico. Mas, olha só, esse mesmo moço escreveu “Conta Comigo” (!!). Sabe aquele filme fofíneo, River Phoenix, trama de maturação, o fim da infância, todos ama? Pois é! E tem mais, é dele também “A espera de um Milagre” e “Um sonho de liberdade”. Veja você! Lorelai, of course, não estava se referindo aos livros família de King.

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10) Lorelai está arrumando a bainha do saiote de Rory e Sookie pergunta onde está o patê. Lorelai responde:

Na casa de Zsa Zsa Gabor”

Nessa eu boiei. Zsa Zsa Gabor era uma atriz e socialite austro-húngara que se radicou nos EUA. Morreu em 2016, com 99 anos de idade. Teve nove maridos, sete divórcios e uma anulação, segundo a Wiki. Mas né. 99 anos. Fácil de entender. Gabor ficou famosa ao aparecer ao lado de John Huston em Moulin Rouge, em 1952. Em 1958, atuou em “A marca da Maldade”, de Orson Welles. Agora, dá onde o patê, gente? Sei lá, a única ligação que faço é com a mansão dela (que antes pertencia a Elvis Presley) e era o local do BAPHO da high society de LA, frequentado até por presidentes, reis e rainhas. Aquela coisa, garçons, pastinhas, canapés. Haja patê!

11) Rory conhece Dean <3. Como diria Laurinha, isso é tãão romântico (bem verdade que depois ele virará um toscão machista, maaas…cenas dos próximos capítulos).

Deus, você parece Ruth Gordon parado aí com o amuleto”

Rory tomou um susto com a presença silenciosa de Dean e o comparou com aquela senhorinha simpática, vulgo feiticeira Minnie, do filme O bebê de Rosemary.  Minnie é a personagem que “cuida” da Mia Farrow enquanto ela está grávida do Diabo. Ou melhor, cuida do filho do Diabo enquanto ele está sendo gestado por Mia. A personagem, foi interpretada pela atriz Ruth Gordon.

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12) Rory fica hipnotizada pelo garoto quando o garota desvenda a referência da moça. Ela, então, tenta estabelecer um diálogo. Dean diz que veio de Chicago e Rory expressa todo seu conhecimento sobre a cidade.

Chicago? Vento. Oprah”

Todo mundo já passou por isso, Rory.

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13) Felizmente o papo entre os dois evolui. Dean e Rory começa a conversar sobre o livro que Rory está lendo: Moby Dick. Infelizmente, só li a adaptação para crianças com 14 páginas de gravuras e algumas linhas em algumas delas. Mas é aquele romance do Herman Melville vasto de nomes pouco comuns, tipo quequeg ou pecod. Ambição, irracionalidade, moral da história meio que não é bom ser ambicioso e irracional. E não é nada bom cultivar inimizades com baleias também. Eu acho. Escreve aí o que acha.

14) Dean diz a Rory que está observando ela todos os dias (meio creepy isso, mas va lá, em 2000 talvez fosse fofinho).

Depois da escola, você sai, se senta sob aquela árvore e lê. Semana passada foi Madame Bovary. Esta semana é Moby Dick.”

Madame Bovary é um clássico da literatura mundial que levou seu autor, Gustave Flaubert, ao banco dos réus por ofender a moral e os bons costumes da época. O bicho pegava. O enredo gira em torno de Emma Bovary, uma mulher insatisfeita com seu casamento que encontra no adultério a liberdade para ser feliz. Nada fácil ser afrontosa em 1857. O livro recebeu diversas adaptações. A mais recente, de 2014, foi protagonizada por Mia Wasikowska, que fez a Alice de Tim Burton. 

15) Resultado? Rory não quer mais ir para Chilton. “Rory não vai para Chilton”, “Rory não vai para Chilton”. Lorelai ainda não entende e quer comer o fígado da garota por ter se humilhado pedindo dinheiro aos pais. Lorelai descobre que tem bofe na jogada e Rory sai andando rapidinho.

Terá que se transformar na Flo Jo para fugir de mim.”

Delorez Florence Griffith-Joyner, ou apenas Flo Jo, foi uma corredora medalhista olímpica cujos recordes de 100m e 200m se mantém até hoje.

16) As duas discutem. Rory faz a insuportável (“não vou falar com você, sua boba”) e Lorelai manda a garota cair na real. Elas brigam. Rory fica magoadinha. No dia seguinte, Rory vai até o Hotel e ainda está fazendo a chata. Ok, é uma adolescente. Haja paciência (e patê)!

Não vai me tratar como em Mamãezinha Querida a vida toda, vai?”

Lorelai está citando um filme super não-família que é nada mais nada menos a cinebiografia da atriz Joan Crawford. Joan, interpretada por Faye Dunaway, é retratada como uma mãe solteira que maltrata seus filhos adotivos quando a coisa vai mal no amor e nos negócios. O filme é baseado no livro escrito por Christina, uma das filhas adotivas. Deprê.

17) Não teve choro, nem vela. “Rory vai pra Chilton”, “Rory vai pra Chilton”. As duas estão paralisadas em frente à porta da mansão de Richard e Emily para iniciar a saga dos famosos jantares de sexta-feira que é a moeda de troca exigida por Emily para bancar o colégio da neta. Rory diz:

Vamos entrar ou vamos ficar aqui paradas como The Little Match Girl?”

The Little Match Girl (A pequena vendedora de fósforos) é um conto de Hans Christian Andersen. No conto, uma menina pobre vive na rua vendendo fósforos. A noite cai e ela tenta se aquecer acendendo os fósforos. Ela não consegue. Ela morre congelada. Deprê2. O conto ganhou uma animação curta-metragem produzida pela Disney (aqui). 

18) O primeiro jantar é um fiasco. As duas se reconciliam e vão afogar as mágoas em xícaras de café no Luke. Lorelai começa um interrogatório tosco sobre Dean.

Ele é um sonho?”

Ahrg, isso é tão Nick at Nite”

Nick at Nite era o bloco de programação noturna do canal Nickelodeon direcionado ao público teenager.

E the end episódio piloto ao som de “My little corner of the World”, da banda Yo La Tengo.

Na trilha ainda tem:

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ELEIÇÕES NOS EUA: TRUMP derrota HILLARY. O que esperar das eleições brasileiras?

Por Alessandra Verch.

Surpreendendo e contrariando o que as últimas pesquisas indicavam, Donald Trump venceu Hillary Clinton nas eleições presidenciais norte-americanas por uma margem apertada. Surpreendendo alguns, mas não Michael Moore. O cineasta anteviu o desfecho dessa rinha de galo ainda em Julho deste ano quando em um editorial publicado originalmente no HuffPost US e traduzido e publicado no HuffPost Brasil afirmou que Donald Trump ganharia as eleições a serem realizadas quatro meses depois. Para sua “mediunidade” se amparou em 5 motivos relevantes. São eles:

1 – O cinturão Industrial dos Grandes Lagos que compreende os estados do Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. A região quebrou devido a políticas comerciais desastradas dos democratas e desde de 2010, embora fosse reduto democrata, vinha elegendo governadores republicanos. Trump foi na jugular e ameaçou as empresas automobilísticas com interesses de sair da região rumo ao México em buscas de “vantagens” produtivas com a singela taxa de 35% sobre carros comercializados nos EUA oriundos do México. Os trabalhadores vibraram.  “De Green Bay a Pittsburgh, isso, meus amigos, é o meio da Inglaterra: quebrado, deprimido, lutando. As chaminés são a carcaça do que costumávamos chamar de classe média. Trabalhadores nervosos e amargurados, que ouviram mentiras de Ronald Reagan e foram abandonados pelos democratas”, escreveu Moore.

PIMBA!

Trump não só venceu em Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, como levou quase todos os estados da porção central dos EUA. Texas (nenhuma surpresa), Kansas, Nebraska, Missouri, Oklahoma, Loisiana, Mississipi, Alabama, Kentucky, entre outros, deram a vitória a Trump. O republicano ainda venceu em todos, sim, T-O-D-O-S os estados do sul da costa leste, isso inclui a Flórida, meus queridos. Lembram daquele chão de terra dos EUA que mais parece uma extensão da América Latina? Sim, pasmem. Trump perdeu apenas em quatro estados na região central: Minnesota, Illinois, Colorado e Novo México; nos estados do norte da costa leste: Maine, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut, Nova Jersey, Rhode Island, Delaware, Maryland, Nova York,Vermont e Virgínia; e na Costa oeste.

2 – Trump encarna o ideal romântico do homem-branco-trabalhador-que-venceu-na-vida contra as “modernidades” que colocam em risco o “sereno” domínio masculino sobre a família nuclear, “a base de uma nação que prospera”. Ah, o passado. Nada mais acalenta a alma do homem branco desempregado e falido que vê sua virilidade ruir ao se perceber lavando a louça enquanto sua mulher trabalha para sustentar a casa do que a idealização de um passado que não viveu. “Antigamente é que era bom” e a síndrome de Meia-noite em Paris em busca de um fantasma inatingível.

3 – Hillary Clinton. Ela mesma. A candidata que melhor representa o mainstream do sistema político estadunidense. Embora mulher, era ela que representava o status quo da classe política. “O quê? Não, você está delirando, seria uma ruptura, pela primeira vez uma mulher seria A presidentA dos EUA”. Desculpe-me, trago verdades. O fato de Hillary ser mulher é apenas um detalhe. A candidata da família Clinton incorpora a figura típica do político tradicional cujos elementos principais são ambição em dose tripla e sem gelo, todo o oportunismo que existe no mundo e um tonel de vaselina. Lamentavelmente (?), ao que tudo indica, esses elementos não são tendência. “Ela representa a política de antigamente: faz de tudo para ser eleita. É por isso que ela é contra o casamento gay num momento e no outro está celebrando o matrimônio de dois homens”, afirmou Moore.

Aí vocês perguntam: “Como assim? O fato dela representar a política de antigamente a prejudicou, mas o Trump representar o ideal de antigamente o beneficiou?” Exatamente. Trump é um outsider. Um sujeito ogro e nada erudito que nunca se candidatou a nada e conseguiu incorporar aquele já machucado e desacreditado“americam dream”. É fácil entender. Basta perceber que uma coisa é o eleitorado e outra coisa (cada vez mais descolada deste, inclusive) é o sistema político. Hillary era o sistema político. Trump era o eleitorado. Ambos antiquados. Ambos distintos.

Pois é…

Já disse que Hillary perdeu na Flórida?

4 – O eleitor deprimido de Bernie Sanders. Traduzindo para o “brasileiro”, o eleitor deprimido do PT, ou seja, aquele que evidentemente vai votar no candidato do partido mesmo que ele já tenha 120 anos e uma dicção de não causar inveja, mas não peça para ele ir de graça para alguma esquina para tremular euforicamente bandeiras do partido enquanto distribui flyers e conversa entusiasmadamente com prováveis eleitores. Ele não vai. Aliás, ele não tem mais vontade nem de convencer a mãe. Sorry.

5 – O efeito Jesse Ventura, aqui conhecido como “só de raiva, vou votar nele”. “Lembra nos anos 1990, quando a população de Minnesota elegeu um lutador de luta livre para governador? Elas não o fizeram porque são burras ou porque Jesse Ventura é um estadista ou intelectual político. Elas o fizeram porque podiam. Minnesota é um dos Estados mais inteligentes do país. Também está cheio de gente com um senso de humor distorcido — e votar em Ventura foi sua versão de uma pegadinha no sistema político”, lembrou Moore.

Sim, senhoras e senhores. Trump não se elegeu presidente da mais poderosa nação do mundo porque o eleitorado norte-americano é imbecil e nas horas vagas pasta feito gado. Assim como João Dória não se elegeu prefeito de São Paulo pelos mesmos motivos. Ambos representam o self-made man, são outsiders que não pertencem ao campo político. Segundo o cientista político André Marenco, “o homem político […] vem perdendo espaço para outsiders que ingressam na política mais tarde, após uma vida profissional já estabelecida, conquistando sua cadeira parlamentar sem a necessidade de percorrer todas as escalas da carreira e de um longo estágio no interior de organizações partidárias” (ler na íntegra aqui). Marenco se deteve nas eleições legislativas para sua análise, mas agora, ao que tudo indica, os outsiders estão mais ambiciosos e almejam as principais cadeiras do Executivo.

Isso deve acender a luz vermelha para a ala progressista brasileira muito satisfeita em adjetivar o eleitorado. Grite, chame de burro, chore, esperneie. Mas, depois do chilique, levante-se e olhe para os lados, Maomé. A montanha está no mesmo lugar e é você que deve ir até ela. O Haiti É aqui e os EUA também.

As eleições nos EUA evidenciam um fenômeno que parece ser global. O esgotamento do discurso de esquerda e o distanciamento dos partidos progressistas do eleitorado. O eleitor e a eleitora estão saturados de discursos ideológicos que não oferecem (ou parecem não oferecer) soluções práticas para os problemas de âmbito local. Pouco importa para o desempregado de Ohio ou para a Dona Maria do Realengo se o político é neoliberal ou social-democrata. O que eles querem saber é quem pavimentará as suas ruas e quem impedirá que empresas sumam de suas cidades levando consigo os empregos. Diante disso a esquerda (aqui e lá), além de ter falhado com o/a eleitor/a ao não resolver em definitivo problemas recorrentes, se viu envolvida em uma série de problemas de corrupção – com cobertura seletiva, claro, mas nada surpreendente para quem não atende pelo nome de Pollyanna e entende minimamente como os conglomerados de mídia se posicionam em disputas políticas  –  e com isso optou por um discurso pedagógico e defensivo. Defendendo e defendendo seu legado e lembrando a população que sempre existiu corrupção. (UAU, que alívio). A ala conservadora se lambuzou.

Os grupos políticos progressistas entraram em cena prometendo moralizar o sistema e solucionar os problemas da população. Falharam vergonhosamente ao menos na primeira promessa. Como um pêndulo, o eleitorado volta-se, novamente, para a direita. Não porque já esqueceram os prejuízos que ela causou, mas, principalmente, porque não conseguem mais diferenciar os grupos políticos. Na bem da verdade, o eleitorado encheu o saco, aqui e lá. Não à toa os principais vencedores dos pleitos eleitorais foi um tal de “Zé Ninguém”. Abstenções, nulos e brancos foram os verdadeiros winners. Mas claro, como diz a máxima “nenhum espaço de poder fica no vácuo”. Menor engajamento político? Maiores são as chances dos outsiders e seus discursos hodiernos (e muitas vezes patéticos). O sistema político democrático é um bandidinho de meia-tigela que foi pego em flagrante batendo carteira no centro da cidade: todos querem dar um peteleco nele.

Agora, as chances para a esquerda parecem ser apenas duas. Ou ela para de chorar feat brigar e aglutina em torno de um nome que consiga capitalizar o ódio do eleitorado com o sistema político brasileiro ou ela corre para forjar um partido 0km e lança candidatura de alguma figura de fora do sistema. Um ator global progressista bem sucedido quem sabe aka Capitão Nascimento. Porque agora é a vez dos outsiders. O político tradicional com seus códigos, técnicas, jeitos e trejeitos virou démodè. O candidato que mais murro der no sistema político e na figura do político tradicional vencerá. No Brasil, abre-se uma avenida para Ciro Gomes e seu jeitão de coronel sem papas na língua, mas pra isso ele ainda terá de perder qualquer resquício de vergonha que tiver e descer abaixo do nível do mar, porque abre-se uma Transamazônica para figuras como Bolsonaro. É ele quem vai disputar com unhas e babas o título de rei dos insatisfeitos-com-tudo-que-está-aí nas próximas eleições brasileiras. Embora não seja um outsider, Bolsonaro não encarna a figura típica do político tradicional. Bolsonaro é o nosso Donald Trump. É ele que tem mais chances de capitalizar o eleitorado que quer dar uma voadora no sistema político. Ciro Gomes precisará lembrar constantemente ao eleitorado que na realidade Bolsonaro é raposa, ou lobo em pele de cordeiro: um sujeito que vive de política e não é a personificação da moralidade como costuma se vender (suas ligações com Eduardo Cunha não são de hoje).

Lembram-se das eleições de 2010 quando Dilma e Serra pareciam fazer cabo de força com a figura oculta de uma senhorinha missionária católica e quase a partiram no meio em pleno debate? Aquilo soará como uma ópera wagneriana perto do que virá. Erudição pura. Segurem-se em suas poltronas, o que está por vir é Casos de Família (com Christina Rocha!).

CRUZES

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Bandido bom é bandido morto?

Por Alessandra Verch.

Lembram do Marcos Rogério dos Santos Guedes, o Porcão, um dos líderes dos “bala na cara”? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do Willian da Silva de Mello, o Nego Blade, investigado por pelo menos 5 homicídios? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do casal Kellen Monteiro Dorneles e Luis Antônio Rosa da Fé, o dindinho? Sabem onde eles estão?
Na vala.

Lembram do Anderson Henriques da Silva, preso por assalto e roubo de veículo? Sabem onde ele está?
Na vala.

Júlio César de Moura Santana, assaltante e homicida?
Na vala.

Cláudio Eduardo Bandeira da Silva, traficante, assaltante e homicida?
Na vala.

Fabiano Lemos, traficante e homicida?
Na vala.

Gérson Renato Dias Fagundes, o Gersinho?
Na vala.

Diego Pavelak, o Morto?
Na vala.

Os suspeitos pela morte de mais uma mãe na capital gaúcha?
Na vala, amanhã ou depois.

Não estão vendo?

Eles nasceram na vala.

Quando a gente cansar de matar e morrer poderíamos sentar e discutir políticas públicas. “Mandar pra vala” não está resolvendo.

Teste cego de Direitos Humanos

Se eu fosse do Marketing da Direitos Humanos Inc., eu providenciava, imediatamente, um Comercial com um teste cego do produto. Ele seria apresentado por alguma celebridade global popular, tipo Thiago Lacerda (era adolescente nos anos 90 e ainda tenho aquela revista Querida em que ele aparece na banheira).

Enfim…

No copo 1 teria um suco de Direitos Humanos com:

TRABALHO
EDUCAÇÃO
SAÚDE
LAZER
ESPORTE
MORADIA
PREVIDÊNCIA SOCIAL
IGUALDADE SOCIAL
JUSTIÇA
AMPLA DEFESA
PAZ
PROGRESSO
AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS
SUSTENTABILIDADE
LIBERDADE
PROCON
E
INTERNET GRÁTIS

No copo 2 teria um mistura de “bandido bom é bandido morto” com:

LINCHAMENTOS PÚBLICOS
EXECUÇÃO DE GAYS
MULHER VADIA MERECE SER ESTUPRADA
COMUNISTAS METRALHADOS
FEMINISTAS QUEIMADAS
MARXISTAS ASSASSINADOS
ARMA
ARMA
ARMA
MAIS ARMA
UMAS BALAS PERDIDAS
e uma gravação do Alexandre Frota falando TOP TOP TOP TOP

A pessoa teria que – vendada, óbvio – experimentar os dois sucos. Aí o Thiago Lacerda perguntaria:

– E então qual você mais gostou????

Se a pessoa dissesse:
– O COPO 1 CLAROOOO

Sirenes tocariam, balões cairiam do teto, musiquinha, purpurinas e mais purpurinas, vibração, euforia…

Thiago Lacerda, então, diria:
– Parabéns, você acaba de ganhar uma viagem com tudo pago e com todos os ingredientes do suco de Direitos Humanos para a Noruega (ou Dinamarca, Finlândia, Suécia…enfim, qualquer país com IDH alto). Tá feliz??

– SIIIIMMMM. NOSSA. QUE EMOÇÃO

Maaaas se a pessoa dissesse:
– UHUUUU É COPO 2!! Bandido bom é bandido moooorrr

Cai direto na Síria.