Arquivo da tag: violência

Bandido bom é bandido morto?

Por Alessandra Verch.

Lembram do Marcos Rogério dos Santos Guedes, o Porcão, um dos líderes dos “bala na cara”? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do Willian da Silva de Mello, o Nego Blade, investigado por pelo menos 5 homicídios? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do casal Kellen Monteiro Dorneles e Luis Antônio Rosa da Fé, o dindinho? Sabem onde eles estão?
Na vala.

Lembram do Anderson Henriques da Silva, preso por assalto e roubo de veículo? Sabem onde ele está?
Na vala.

Júlio César de Moura Santana, assaltante e homicida?
Na vala.

Cláudio Eduardo Bandeira da Silva, traficante, assaltante e homicida?
Na vala.

Fabiano Lemos, traficante e homicida?
Na vala.

Gérson Renato Dias Fagundes, o Gersinho?
Na vala.

Diego Pavelak, o Morto?
Na vala.

Os suspeitos pela morte de mais uma mãe na capital gaúcha?
Na vala, amanhã ou depois.

Não estão vendo?

Eles nasceram na vala.

Quando a gente cansar de matar e morrer poderíamos sentar e discutir políticas públicas. “Mandar pra vala” não está resolvendo.

A representação nossa de cada dia

Por Bruna Stephanou

Essa polêmica, recente, do uso de animais em testes é mais do que chata, não?

É claro que você é contra. Do contrário, é uma pessoa sem coração.

Ora, maltratar um beagle. Gente, um fofinho de um beagle! Não! Não dá pra aceitar. Só eu gostaria de estar em São Roque e ter adotado um, assim, de graça? Porque vamos combinar, o bicho é caro.

Tá, não vou fugir do assunto, vamos desmembrar a questão.

Somos preconceituosos e isso se desdobra em uma compaixão sectarista, veja você, até quando estamos falando de animais. Animal fofinho deve ser defendido. Os nojentos? Bem, pra esses não estamos nem aí, não causam tanta dó no coração, não é verdade?

Ainda tem o fato de apoiarmos problematicamente o que defendemos. Ou defendermos problematicamente o que apoiamos, sei lá. Quer ver?

Eu sou contra as pesquisas com animais, mas sou coerente com essa decisão na minha vida? Você pesquisa as marcas que usa? Todas as marcas que usa? Não, né?

Pois é, essa falta de interesse é intrínseca à personalidade do “tanto faz” e isso acarreta sermos coniventes com tal absurdo. Ou seja, somos apenas discursivamente contra, ou melhor, somos “politicamente corretos”. Na pior acepção do “politicamente”, a que denota a esse comportamento pura representação.

Eu sei que tu não levas listinha da PEA (Projeto Esperança Animal – divulga marcas que usam animais em testes) pro supermercado, então paremos de julgar. (Se você faz isso, meus sinceros parabéns, mas mantenho o “pare de julgar”. Estimule a mudança, é mais produtivo).

Aliás, deu de briga. Compre consciente, do contrário pare de encher a timeline com fotos de animais machucados e frases de impacto. Agradecida.

Será mesmo a partir da violência que geraremos o novo?

Por Alessandra Verch.

Obra de Banksy com a colaboração dos grafiteiros brasileiros Os Gêmeos, em sua passagem por New York
Obra de Banksy com a colaboração dos grafiteiros brasileiros Os Gêmeos, em sua passagem por New York

Recentemente, em um texto publicado no sítio Outras Palavras, o editor Antonio Martins escreveu sobre a onda de violência que vivemos e para isso analisou tanto a violência praticada pelos Black Blocs, como a mais recente contra o coronel Reynaldo Simões Rossi, da Polícia Militar de São Paulo, quanto as praticadas pela polícia, que vão desde a omissão total nos casos onde há depredação do patrimônio até assassinatos e agressões gratuitas. No entanto, Martins procura ir além do grito surdo, cheio de ódio e legitimidade “A POLÍCIA TEM QUE ACABAR”.

Segundo ele “as duas atitudes policiais retroalimentam-se uma à outra, em espiral. A brutalidade da tropa exalta os ânimos dos manifestantes e leva pequenos grupos a reagir de modo violento. As depredações promovidas por estes, nos momentos em que a polícia se omite, amedrontam a população e sugerem que a saída, diante dos protestos, é mais repressão”. Com isso, afirma que “está se consumando, rapidamente, o cenário desastroso previsto por Luís Nassif. Ele pode dar-se tanto como tragédia (na forma de um novo morticínio ‘corretivo’ contra a periferia, semelhante ao de 2006) quanto como drama arrastado (um longo sangramento dos movimentos sociais de todos os tipos, até que percam legitimidade junto à maioria)”.

Evidentemente, ainda é difícil afirmar o que pode ocorrer nesse cenário de incertezas e banalização da violência. Mas, é necessário problematizar essa falta de reflexão da nova militância social que está nas ruas, que se regozija no romantismo cego e narcísico do “estou fazendo história”. A história se faz independentemente de nossa vontade consciente.

A violência (econômica, de classe, de raça, de gênero) é um patrimônio da humanidade, na medida em que é violência política. Porém, quando, meramente, reagimos contra ela nós a perpetuamos. Para que ela finde não basta reagirmos, é preciso compreendê-la para superá-la, para que ela deixe de ser um marcador de ação.
Isso não pressupõe, em hipótese alguma, a defesa de um pacifismo cego que namora com a apatia social.

Não é pregar, insanamente, o fim de um movimento humano inegável, o dialético. Todavia, é não perder de vista que a dialética não é um movimento simplista e antagônico entre negativo/positivo, errado/certo, ruim/bom, PM/militante. A dialética é um movimento humano conflitivo (e necessário) que obrigatoriamente produz algo novo, ou melhor, temporariamente novo, pois a espera de um novo conflito. Tese, antítese e síntese. É com esses três elementos que temos movimento dialético, e a verdade está nesse movimento contínuo e não em uma ideia temporal, ou em um elemento específico. A antítese, por óbvio, é a oposição da tese, é ela que instaura o conflito. Lamentavelmente, por oposição e conflito muitos entendem, de imediato, violência, imposição, ou mais especificamente, luta armada. Enganam-se.

A dialética não se define pelo seu conteúdo e sim pelo seu movimento, pelo conflito entre proposições. Ela não está, necessariamente, atrelada a violência. Afirmar que a violência é necessária para alguma mudança é um engodo brutal. Em certa medida a violência pode até mesmo frear o movimento humano dialético, pois adia o contraponto necessário para o conflito político, para o conflito real. Não produzimos a antítese e ficamos trancados numa tese antiga e marcada pela violência.

Com isso, a dúvida de que podemos estar a produzir um conflito apenas performático precisa sempre ser posta. Combater a violência com violência não é trocar seis por meia dúzia? É preciso nos questionar. É preciso refletir.

Para usar a metáfora da excelente análise de Antonio Martins, apanha/bate, apanha/grita é tão dialético quanto uma mosca presa em um vidro.

Uma catástrofe, duas tragédias

Por Alessandra Verch.

Obra do(s) artista(s) Banksy
Obra do(s) artista(s) Banksy

Mais uma vez o mundo entrou em comoção com o incidente catastrófico envolvendo crianças, o massacre em uma escola fazendo dezenas de vítimas em Newtown, Connecticut. Mais uma chacina causada por uma pessoa com sério distúrbio emocional, psicológico e mais alguns que não tenho condições de identificar.

Mas algo me comove muito mais , ou ao menos me chama bastante a atenção. O uso rotineiro de desgraças e atrocidades pela imprensa brasileira e mundial para fins meramente comerciais. O interesse não é promover um debate acerca do por que tais incidentes ocorrem, tampouco esclarecer a população que se trata de casos isolados e históricos. Trabalha-se para captar o melhor ângulo dos rostos aos prantos, o melhor depoimento aterrorizante sobre o evento, as últimas informações (irrelevantes) das investigações. Centenas de matérias escritas, centenas de matérias televisivas, milhares de fotos. Todas com o mesmo conteúdo. Para que? Qual é o interesse das empresas de comunicação ao evidenciar, nessas dimensões, um desastre isolado e de impossível previsão? O que agregamos de tais coberturas jornalísticas? Nada, jamais agregamos. Apenas saciamos a nossa vontade voyeur por desgraças. Nenhuma discussão relevante é aventada, apenas consumimos desenfreadamente informações e imagens dramáticas, mas descoladas de nossas vidas. Imagens chocantes que não impedirão novos acontecimentos catastróficos, que não alterarão nossos valores e nosso tipo de educação, que serão esquecidas em dois ou três meses. Pura curiosidade, a mais infeliz vontade incontrolável de olhar para uma tragédia e dizer “que horror” e pensar “ainda bem que não é comigo”.

Alimentamos uma indústria consumindo material jornalístico sem valor algum e com isso geramos audiência, logo anunciantes. A cada novo episódio como esse, que dizima famílias inteiras e gera dores eternas, feridas que não cicatrizarão, algumas poucas pessoas geram dinheiro, usurpando até a última gota de sangue do ocorrido, para nos “presentear”  antes do concorrente. É horrendo (é pior, ainda não existe adjetivação).

De um lado, empresas jornalística transcendendo o limite do esdrúxulo, de outro, leitores e telespectadores. Em comum, a falta de ética e sensibilidade para com a dor do outro. Ou estou mentindo? Quantas crianças morrem diariamente em virtude de decisões políticas, estratégicas, racionais, ou seja, que poderiam ser evitadas caso entrassem nas pautas jornalísticas, fomentando o debate e a pressão social?

A constituição federal determina em seu artigo 221 que

Art. 221 – A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

Analisando a cobertura dada ao evento, três episódios chamaram-me a atenção e corroboram minha perspectiva. Ontem durante a abertura do Jornal Hoje, na Rede Globo, quando antes dos comerciais dá-se uma prévia das notícias que o jornal abordará, Evaristo Costa disse “nosso correspondente nos EUA dará as últimas informações da investigação sobre o massacre em Newtown”. Entra o comercial, volta para o jornal, o correspondente fala “os investigadores ainda não sabem o que motivou Adam Lanza a realizar o massacre e suicidar-se”. Durante o Fantástico do último domingo, uma família brasileira, cuja filha estudava na escola e presenciou o massacre, concedeu depoimento à Globo. Quando a menina falou e chorou, era evidente, não existia outra opção possível além daquele tacanho zoom no rosto da menina. E para finalizar, o desserviço prestado pelo programa Domingão do Faustão à população brasileira que desconhece, ou conhece superficialmente, a síndrome de Asperger, um show de horror à parte (para saber mais clique aqui). Não existem finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Não existe notícia alguma, não existem informações. É a tragédia transformada em show business, que se transforma em dinheiro com o aval de um público pouco crítico, ou com falta de opções. Não existe a promoção da cultura, tampouco a regionalização da produção cultural. Apenas um item do artigo 221 é respeitado, é o item IV, omitido acima.

IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Os nossos problemáticos valores éticos e sociais foram respeitados. É a tragédia que se multiplica por duas.