Arquivo da tag: violência urbana

Bandido bom é bandido morto?

Por Alessandra Verch.

Lembram do Marcos Rogério dos Santos Guedes, o Porcão, um dos líderes dos “bala na cara”? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do Willian da Silva de Mello, o Nego Blade, investigado por pelo menos 5 homicídios? Sabem onde ele está?
Na vala.

Lembram do casal Kellen Monteiro Dorneles e Luis Antônio Rosa da Fé, o dindinho? Sabem onde eles estão?
Na vala.

Lembram do Anderson Henriques da Silva, preso por assalto e roubo de veículo? Sabem onde ele está?
Na vala.

Júlio César de Moura Santana, assaltante e homicida?
Na vala.

Cláudio Eduardo Bandeira da Silva, traficante, assaltante e homicida?
Na vala.

Fabiano Lemos, traficante e homicida?
Na vala.

Gérson Renato Dias Fagundes, o Gersinho?
Na vala.

Diego Pavelak, o Morto?
Na vala.

Os suspeitos pela morte de mais uma mãe na capital gaúcha?
Na vala, amanhã ou depois.

Não estão vendo?

Eles nasceram na vala.

Quando a gente cansar de matar e morrer poderíamos sentar e discutir políticas públicas. “Mandar pra vala” não está resolvendo.

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“Por que o senhor atirou em mim?”. Por que atiramos em Douglas?

Por Alessandra Verch

“Por que o senhor atirou em mim?” é a pergunta feita por artistas e ativistas em um vídeo lançado no último domingo. A frase está virando um ícone contra a violência policial e foi feita pelo menino Douglas Rodrigues, 17 anos, e dirigida ao policial militar Luciano Pinheiro Bispo, após receber em seu peito um tiro disparado pelo PM, no último dia 27, na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo.

Minutos depois de fazer a pergunta o garoto morreu. O PM, preso em flagrante por homicídio culposo (sem intenção de matar), teve liberdade provisória concedida pela Justiça Militar.

Os rappers Emicida, Rashid, Rael da Rima, Flora Matos, Dexter e KLJ, do Racionais MCs e o funkeiro MC Guimê fazem uma segunda pergunta “Por que vocês atiram em NÓS?”. Na periferia, na juventude, nos negros.

Segundo o mapa da violência 2013, as principais vítimas da violência urbana são os jovens. Enquanto na população não jovem os óbitos por homicídio representam apenas 3%, na população jovem (com faixa etária de 15 a 24 anos) os óbitos beiram os 40%. De 1980 a 2010 foram 1.145.908 vítimas de homicídio. O Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo. “São números tão altos que torna-se difícil, ou quase impossível, elaborar uma imagem mental, uma representação de sua magnitude e significação. Para isso, deveremos recorrer a outros indicadores, tentado dar uma ideia, uma aproximação do que esses números representam”, afirma o relatório.

Pois para se elaborar essa “imagem mental” o mapa analisou as estatística de homicídio no Brasil comparativamente, contrastando com os dados dos 12 maiores conflitos mundiais, que ocorreram entre 2004 e 2007, que consta no Relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada.

Somados esses 12 conflitos vitimaram 169.574 pessoas nos quatro anos computados, entre eles estão o conflito no Iraque, no Afeganistão e na Palestina. “No Brasil, país sem disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos, conflitos de fronteira ou atos terroristas foram contabilizados, nos últimos quatro anos disponíveis (2008 a 2011) um total de 206.005 vítimas de homicídios, número bem superior aos 12 maiores conflitos armados acontecidos no mundo entre 2004 e 2007”, denuncia o mapa da violência.

Por quê? “Por que o Sr. atirou em mim?”

Uma das possíveis respostas é a tolerância institucional. Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, referindo-se aos homicídios de jovens e adolescentes já declarou que “o Brasil convive, tragicamente, com uma espécie de epidemia de indiferença, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social. Isso ocorre devido a certa naturalização da violência e a um grau assustador de complacência do estado em relação a essa tragédia. É como se estivéssemos dizendo, como sociedade e governo, que o destino desses jovens já estava traçado”. E esse destino é o caixão.

Engrossando todas essas estatística estará o menino Douglas, de 17 anos, que morreu sem uma resposta. Por quê? “Por que o senhor matou o menino Douglas?” Por que NÓS matamos o menino Douglas?

Para ler na íntegra o mapa clique aqui.

A representação nossa de cada dia

Por Bruna Stephanou

Essa polêmica, recente, do uso de animais em testes é mais do que chata, não?

É claro que você é contra. Do contrário, é uma pessoa sem coração.

Ora, maltratar um beagle. Gente, um fofinho de um beagle! Não! Não dá pra aceitar. Só eu gostaria de estar em São Roque e ter adotado um, assim, de graça? Porque vamos combinar, o bicho é caro.

Tá, não vou fugir do assunto, vamos desmembrar a questão.

Somos preconceituosos e isso se desdobra em uma compaixão sectarista, veja você, até quando estamos falando de animais. Animal fofinho deve ser defendido. Os nojentos? Bem, pra esses não estamos nem aí, não causam tanta dó no coração, não é verdade?

Ainda tem o fato de apoiarmos problematicamente o que defendemos. Ou defendermos problematicamente o que apoiamos, sei lá. Quer ver?

Eu sou contra as pesquisas com animais, mas sou coerente com essa decisão na minha vida? Você pesquisa as marcas que usa? Todas as marcas que usa? Não, né?

Pois é, essa falta de interesse é intrínseca à personalidade do “tanto faz” e isso acarreta sermos coniventes com tal absurdo. Ou seja, somos apenas discursivamente contra, ou melhor, somos “politicamente corretos”. Na pior acepção do “politicamente”, a que denota a esse comportamento pura representação.

Eu sei que tu não levas listinha da PEA (Projeto Esperança Animal – divulga marcas que usam animais em testes) pro supermercado, então paremos de julgar. (Se você faz isso, meus sinceros parabéns, mas mantenho o “pare de julgar”. Estimule a mudança, é mais produtivo).

Aliás, deu de briga. Compre consciente, do contrário pare de encher a timeline com fotos de animais machucados e frases de impacto. Agradecida.

Imprudência no trânsito: morte ou lesão medular? o que você escolhe?

Por Alessandra Verch.

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Nunca é demais salientar os riscos da imprudência no trânsito, principalmente em vésperas de feriados. Dirigir sob efeito de álcool e outras drogas, com sono ou de forma agressiva é o principal causador de vítimas no trânsito. Segundo pesquisa realizada no Hospital Sarah Brasília intitulada “Qualidade de vida em pessoas com lesão medular”[i] de Bampi, Guilhem e Lima, os acidentes de trânsito estão em primeiro lugar na etiologia das lesões medulares. Foram entrevistadas 111 pessoas com esse tipo de lesão no momento de sua admissão hospitalar, destas 49,6% com lesões decorrentes de acidente de trânsito. A pesquisa ainda apontou para a discrepância entre os sexos, para cada mulher lesionada havia 5,5 homens.

A prevalência de homens jovens (com menos de 25 anos) em acidentes de trânsito é um indício da elevada imprudência destes, mas esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Segundo o “Mapa da Violência 2011: Acidentes de Trânsito” o “relatório recente da Organização Mundial da Saúde destaca que, anualmente, morrem quase 400.000 jovens de menos de 25 anos de idade vítimas de acidentes de trânsito, e vários milhões sofrem ferimentos graves ou tornam-se incapacitados. (…) A maior parte delas está nos países de renda baixa ou média (…) podemos verificar que o Brasil está diante de um problema internacional. Mas, pelo volume que destacamos no Mapa – as taxas situam o Brasil entre os 10 países com maiores índices de mortalidade no trânsito –, a intensidade do problema aqui é grave e preocupante”.

Homens representam cerca de 90% dos acidentes envolvendo bicicletas, motos e caminhão e ¾ das vítimas de acidentes automobilísticos, de acordo com o Mapa[ii]. Dados do governo informam que a cada 57 segundos ocorre um acidente de trânsito no Brasil, destes 75% ocorrem por causas humanas e apenas 6% são causados devido à deficiência nas vias. Os acidentes de trânsito são o segundo maior problema de saúde pública do Brasil, ficando atrás apenas da desnutrição. Matam cerca de 45 mil pessoas por ano (3ª causa mortis no Brasil) e ferem mais de 370 mil anualmente, deixando sequelas irreversíveis para 60% dos acidentados sobreviventes.

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A lesão medular está entre as sequelas permanentes de maior intensidade e é caracterizada por “alterações das funções motora, sensitiva e autônoma, implicando perda parcial ou total dos movimentos voluntários ou da sensibilidade em membros superiores e/ou inferiores e alterações no funcionamento do sistema urinário, intestinal, respiratório, circulatório, sexual e reprodutor” como alertam os pesquisadores Bampi, Guilhem e Lima. Estes evidenciaram a piora significativa da qualidade de vida dos lesionados, indicando que a gravidade e a irreversibilidade da lesão medular obrigam a um processo de reabilitação longo e doloroso.

Em outro estudo intitulado “Dor no paciente com lesão medular: uma revisão”[iii] de Marcia de Miguel e Durval Kraychete, que analisou diversos trabalhos sobre o tema, a qualidade de vida teve significativa piora devido à incidência de dores crônicas após a lesão. Os pesquisadores afirmam que “a dor crônica após a lesão medular é uma condição de alta prevalência e de difícil tratamento” e afetam cerca de 64% a 84% das pessoas.

A lesão impõe dificuldades substanciais às pessoas e, não raro, a dependência total do lesionado a familiares ou terceiros. A elevação de suas taxas devido, principalmente, aos acidentes de trânsito torna urgente medidas políticas efetivas que atuem sobre esse tipo de violência. Diversos estudos argumentam que os acidentes de trânsito são de alta previsibilidade, o que facilita atuação política.

Campanhas governamentais, de ONG’s, fundações e outras instituições que optam por chocar o público mostram-se frutíferas em países europeus e na Austrália, mas não são utilizadas no Brasil devido a abordagem polêmica que divide opiniões de pesquisadores e formuladores de políticas públicas. Roberta Torres de Lima[iv], especialista em gestão, educação e segurança no trânsito, classificou em 8 os estilos das campanhas educativas (chocante, choque implícito, poética/positiva, cômica, racional, mobilizadora e infantil) e mostrou que as campanhas consideradas chocantes que “tem como objetivo abalar, impactar e chocar o público” não são comuns no Brasil, mas alguns especialistas defendem a ideia de que são essas as campanhas que dariam resultados melhores aqui. Os investimentos em educação para trânsito no país são notáveis e envolvem desde intervenções artísticas em semáforos à peças audiovisuais para TV e outras mídias, mas são medidas ainda pouco efetivas e pecam pela falta de organização, definição de foco, estilo e público, segundo aponta a especialista.

Exemplos de campanhas internacionais chocantes são: a série de vídeos “Nemyslis-zaplatis” (não acha que você paga!), da República Tcheca (disponível aqui), a campanha australiana “Street Power” (disponível aqui), a campanha irlandesa “The faster Speed” (disponível aqui) e a campanha britânica cujo slogan é “dirija com cuidado, você é forte, mas não é invencível” (disponível aqui).

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Vale ainda ressaltar que os acidentes de trânsito são aqueles que ocorrem em vias públicas terrestres envolvendo pedestres, ciclistas, motos, carros, caminhões e/ou ônibus, e tendem a elevar-se em feriados. Enquanto você leu esse texto é possível que quatro pessoas tenham se acidentado gravemente no trânsito.

Em 2012 o mundo não acabou, mas a sua vida ainda pode acabar. Dirija com respeito pela sua vida e pela vida dos outros.


[i] BAMPI, Luciana Neves da Silva; GUILHEM, Dirce  e  LIMA, David Duarte. Qualidade de vida em pessoas com lesão medular traumática: um estudo com o WHOQOL-bref. Rev. bras. epidemiol. [online]. 2008, vol.11, n.1 [citado  2012-12-26], pp. 67-77 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2008000100006&lng=pt&nrm=iso&gt;.

[ii] Disponível em http://mapadaviolencia.org.br/pdf2011/acidentes_transito.pdf

[iii] MIGUEL, Marcia de  and  KRAYCHETE, Durval Campos. Dor no paciente com lesão medular: uma revisão. Rev. Bras. Anestesiol. [online]. 2009, vol.59, n.3 [cited  2012-12-26], pp. 350-357 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-70942009000300011&lng=en&nrm=iso&gt;

[iv] Estudo disponível em http://www.posgraduar.com.br/Monografias/P%F3s-Gradua%E7%E3o/Gest%E3o,%20Educa%E7%E3o%20e%20Seguran%E7a%20do%20Tr%E2nsito/CLASSIFICA%C7%C3O%20DE%20CAMPANHAS%20EDUCATIVAS%20DE%20TR%C2NSITO-%20Roberta%20Torres%20Lima.pdf