Arquivo da tag: Selton Mello

O contorcionismo de José Padilha para “Estancar a sangria”

Por Alita.

Recentemente, José Padilha vem protagonizando a mais nova polêmica da cena pública brasileira. Provavelmente semana que vem será outra e com outros protagonistas, mas vamos aos fatos.

Sua mais recente produção, a série O mecanismo, vem recebendo uma chuva de críticas por parte de segmentos mais à esquerda no espectro político ideológico brasileiro devido à, digamos assim, liberdade artística “estranha” com que tratou os fatos históricos recentes. Dentre as várias críticas, destaca-se a colocação da notória expressão “precisamos estancar a sangria” (proferido por Romero Jucá) na boca do personagem João Higino, que na trama encarna o ex-presidente Lula. Para se defender, José Padilha alegou que trata-se de uma expressão idiomática e, por isso, não viu problema algum atribuí-la à Lula. Ao invés de manter a fidedignidade histórica, optou pela “liberdade artística”.

Pois bem, expressões idiomáticas são expressões que só podem ser entendidas contextualmente (literalmente não fazem sentido) e já foram consagradas pelo uso popular, de modo que sua origem, quem as inventou, são desconhecidas. Exemplo: chover no molhado, pendurar as chuteiras, chutar o pau da barraca, feito cego em tiroteio, etc. Ou seja, são expressões sem dono, de uso corriqueiro. Muitas gírias, inclusive, enquadram-se nesse conceito.

No entanto, quando evoca-se uma expressão e, imediatamente, a coletividade a associa a alguma pessoa, a uma figura política específica, não se está mais falando de expressão idiomática e sim de uma “citação”. “Estancar a sangria” é uma expressão que virou célebre na cultura brasileira por ter sido proferida por uma pessoa específica e em uma contexto igualmente específico (praticamente o oposto do que ocorre com uma expressão idiomática). Se outrora era uma simples expressão idiomática, deixou de ser, porque foi “privatizada”. Isso porque, no momento, está mais atrelada a uma pessoa determinada, se presta mais para fazer referência a Romero Jucá, do que ao sentido coletivo anteriormente dado a ela.

Importante lembrar que o principal requisito atribuído a uma expressão idiomática é o uso coletivo disseminado. No entanto, foi a própria coletividade que estranhou o seu uso. Foi o público que identificou uma fala verídica e não compreendeu o motivo dela ter sido colocada na boca de personagem diverso (e nesse quesito a crítica veio tanto da esquerda, quanto da direita). Portanto é constrangedor o autor utilizar o argumento da “expressão idiomática” para mitigar o estranhamento da coletividade, uma vez que ele próprio não é pessoa autorizada para definir se é ou não uma expressão idiomática. Quem o é, é justamento a coletividade.

Quando Padilha alega que trata-se de uma simples expressão idiomática, minimizando o problema e, inclusive, chamando a polêmica de “boboca”, está ou agindo de má-fé ou por desconhecimento. Não acredito que ele seja burro, então a primeira opção me parece a mais sensata, infelizmente.

Sim, todo artista goza do privilégio da liberdade artística e pode recriar ou recontar a história como lhe aprouver. Se Padilha quiser fazer um filme sobre o nazismo colocando Hitler em uma câmara de gás e os judeus de posse do molho de chaves do campo de concentração ele pode, é livre para encarar a empreitada. A grande questão que ficará é por quê? No caso concreto, me pergunto por que inverter e manipular fatos tão recentes da história do Brasil e que ainda estão em processos de metabolização e entendimento social. Para gerar um ruído? Desestruturar a narrativa do golpe com a qual, ao que tudo indica, Padilha não concorda e cuja principal evidência é, não coincidentemente, justamente o áudio em que Jucá profere a máxima “estancar a sangria” para então vaticinar “com o STF, com tudo”?

Talvez, de fato, algum dia “estancar a sangria” vire novamente uma simples expressão idiomática, carregada de apenas um sentido aceito por todos e de uso trivial. Não duvido. Acredito mesmo que se dissociará de Jucá e do processo político que enfrentamos. Todavia não creio que volte a ter a acepção coletiva antiga (interromper processos danosos). Aliás, aposto que virará sinônimo de pilantragem, próximo ao sentido hoje dado ao “jeitinho”, ou seja, golpe. Mas, se é para apostar, torcerei mais para que “Padilhando” daqui a algum tempo seja equivalente a “dando migué” ou “passando recibo”.

Animação nacional aguardada estreia esse final de semana

Por Alessandra Verch.

O cinema brasileiro parece estar, mais uma vez, em ascensão. Diversas estreias estão previstas paras as telonas. Depois do premiado O Som ao Redor, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, de Vai que dá certo, comédia dirigida por Mauricio Farias, e de A busca, um drama protagonizado por Wagner Moura, estreia neste final de semana mais um longa-metragem nacional, desta vez uma animação.

Uma história de Amor e Fúria, do diretor Luiz Bolognesi, que assina, também, o roteiro do filme, é a produção nacional que entra em cartaz já bastante aguardada.

No enredo futurístico da animação, a história do Brasil é contada desde antes da “descoberta” até a guerra da água de 2096. O narrador é um homem imortal (Selton Mello), com quase 600 anos de idade, “viver sem conhecer o passado é andar no escuro”, informa o personagem principal. Sua trajetória está atrelada a busca de sua amada Janaína (Camila Pitanga). O guerreiro imortal passa por diversos eventos históricos para reencontrar sua paixão, enfrenta as batalhas entre tupinambás e tupiniquins, antes dos portugueses chegarem ao país, está presente na Balaiada e, também, no movimento de guerrilha contra a ditadura militar, até o desfecho final, que é a luta pela água em 2096.

Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi_1

Além de Selton Mello e Camila Pitanga dublando e dando vida aos protagonistas, merece ser destacada a participação de Rodrigo Santoro, dublando o chefe indígena e um universitário envolvido com a guerrilha na época da ditadura.

Luiz Bolognesi conta que se inspirou em sua paixão por quadrinhos e, também, pela história do Brasil, optou pelo gênero de animação para fugir de prováveis limites que a dramaturgia e o real oferecem à imaginação. “Comecei a pesquisa em 2002, o primeiro tratamento do roteiro ficou pronto em 2004. Depois vieram vários tratamentos, o último aconteceu em 2010. O filme ficou seis anos em produção, uma característica absolutamente diferente dos filmes live action“, já declarou o diretor.

4-ampliada

Bolognesi já tem em seu currículo de roteirista filmes como O bicho de sete cabeças (2001), Chega de saudade (2007), Terra vermelha (2009), entre outros.

10-ampliada

Para a produção do filme uma técnica clássica de animação foi utilizada, os personagens foram desenhados e animados após a observação minuciosas das emoções e ações que os atores ofereciam com suas interpretações no estúdio.

O filme é parece ser muito interessante e merece ser prestigiado.

Veja abaixo o trailer.