Arte e vida na ponte de pedra

Foto: Guto Prestes

Por Camila Konrath

O último sábado (24) foi o dia marcado para redescobrir um cartão postal da cidade: a Ponte de Pedra, também conhecida como Ponte dos Açores. A iniciativa surgiu da ideia de unir pessoas num espaço público onde todos pudessem comparecer e divertir-se, confraternizando e resgatando um lugar que, apesar de ser monumento histórico da cidade, estava em total esquecimento. Inspirado em trecho do livro Encontro Marcado, de Fernando Sabino, “Do Sonho Uma Ponte” foi organizado pelo coletivo RUA – Rastro Urbano de Amor, através de evento no Facebook. Na página, o coletivo solicitava que, além da diversão, velas e luzes fossem levadas para iluminar a ponte, e anteciparam também que músicos e outros artistas já haviam confirmado presença no Largo dos Açorianos, local onde se situa a ponte de pedra.

Às 19h, grupos de pessoas se aproximavam do local, outras enfeitavam as árvores e o lago com velas e muito colorido. Pessoas, bicicletas, cangas e câmeras fotográficas construíam o visual do ambiente de confraternização e descontração de mais um lindo fim de tarde. Um espaço de projeção ao ar livre chamava atenção de alguns, enquanto, mais adiante, um grupo musical cativava outra parte do largo com doses de jazz ao cair da noite.

Segundo Heloisa Medeiros, curadora do evento e co-fundadora do RUA, a ação foi rápida e partiu da vontade e parceria de quem estivesse disposto a contribuir pra transformar o local em um espaço cultural naquele dia: “Conseguimos ambientar sem dinheiro… 150 reais de uma vaquinha entre nós, ajuda dos amigos músicos, amigo do teatro, amigo malabares”. Heloisa fez questão de frisar que se tratam de manifestações da sociedade civil  interessadas na “democratização da arte através de manifestações em espaços públicos”. Luhcas Alves, também co-fundador do RUA, contou sobre outras intervenções do coletivo. “A gente escreveu na parede aqui do Cine Capitólio… ‘Tenho razão para sentir saudades de ti’. Porque é um lugar que deveria estar aberto, não está aberto por questões políticas…A gente quer chamar atenção para lugares que deveriam estar funcionando da maneira que foram idealizados”.

Foto: Guto Prestes

A população presente elogiou a iniciativa e sinalizou apoio a eventos futuros com estes moldes. O publicitário Rafael Silveira da Silva comemorou e acrescentou: “Fico feliz de ver que pessoas estão entendendo que o shopping não é o lugar pra ser ocupado e sim, a rua, a praça, o espaço público de fato”. Integrante do grupo Bando Antiguera, o músico José Baronio acredita que o evento é importante para a preservação do espaço histórico: “Quando vejo alguma manifestação que tem por objetivo preservar, seja patrimônio histórico, arquitetônico, cultural, que seja… Acho importante as pessoas se manifestarem a favor dessa preservação”.

Foto: Guto Prestes

Porto Alegre ao ar livre

A ocupação de espaços públicos é uma prática cada vez mais constante. Uma vez que a natureza, o sol ou uma noite estrelada fazem o cenário de um palco onde a arte encontra seu público de forma gratuita, horizontal e sem acesso restrito.

Desde o ano passado, as intervenções artísticas em espaços públicos vêm ganhando mais adeptos na cidade de Porto Alegre, seja para mostrá-la ou apreciá-la. Usando páginas de eventos na internet, dezenas de manifestações já foram organizadas, transformando ideias em ações culturais. Eis a lista de algumas:

Serenata Iluminada no Parque da Redenção

Largo Vivo no Largo Glênio Peres

Movimento em Defesa Pública da Alegria, Largo Glênio Peres

Viaduto da Borges – Tutti Giorni

Roda de Samba do Instituto Brasilidades – Largo Zumbi dos Palmares

A HOMOFOBIA E OS “ESCLARECIDOS”

Por Juliana Verch.

Tenho presenciado diversas discussões sobre o assunto e percebi que ainda existem preconceitos escondidos na mente de muitos que se autodenominam “cabeça aberta”. Durante um recente debate entre amigos, ouvi que o ”homossexualismo” não era um comportamento normal, e, graças à exploração midiática sobre o assunto, vem sendo cada vez mais difundido entre os jovens, acompanhado, é claro, de modas coloridas, emotivas, carregadas de sentimentos juvenis.

No entanto, a homossexualidade, embora não assim denominado, faz parte da cultura ocidental há mais de dois mil anos como demonstram muitos estudos. Na Antiguidade, a prática da pederastia era comum entre os homens, isto é, um homem que mantinha relações com um jovem não era mal visto, mas era considerado um guia na inclusão desse jovem no mundo do amor, da filosofia e das artes, agindo como um complementador na sua educação.  Em meio a uma atmosfera totalmente antropocêntrica, o homem e seu corpo eram considerados motivos de culto – o que seria revisto no renascimento-, enquanto o sexo praticado com mulheres era visto com uma única função: a procriação. Historiadores afirmam que grandes nomes da História Ocidental apresentavam este comportamento, tais como Sócrates, na Grécia Antiga, e Júlio Cesar, em Roma.  Na Grécia, o comportamento homossexual não só fazia parte do cotidiano dos gregos como era incentivado.  Investigações históricas recentes evidenciam que, em Esparta, o relacionamento entre homens no exército era valorizado, já que o estreitamento dos laços entre dois guerreiros poderia fazer com que estes ficassem mais dispostos a lutar pela cidade-Estado e os impeliam a continuar em batalha pelo seus companheiros. Além disso, os próprios termos “lésbico” e “lesbianismo” têm origem na ilha grega de Lesbos, no mar Egeu, onde vivia a poetisa Safo, cujos poemas revelam uma grande paixão ao amor feminino, o que leva muitos historiadores a crer que a autora tenha partilhado desse sentimento.

Então, se o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo não é, nem nunca foi, uma novidade em nossa sociedade, ou como muitos afirmam, absurdamente, o resultado da influência midiática, quando esse sentimento deixou de ser nobre e passou a ser condenado? A possível resposta está no século V d.C., quando o imperador Justiniano promulgou o primeiro texto proibidor da homossexualidade. No texto, ficou estabelecido o vínculo de todas as relações homossexuais ao adultério, o qual era punido com pena de morte. Justiniano, contudo, foi um imperador adepto ao cristianismo, doutrina que condenava, e ainda condena, o sexo que não fosse com intuito de procriação. Esse pensamento, possivelmente, foi o que distorceu a visão de um comportamento que outrora era natural, já que, na Antiguidade, o sexo era valorizado como simples troca de experiências culturais entre gerações diferentes, ocorrendo com o consentimento de ambas as partes que participavam, e também das famílias. Entretanto, os relacionamentos homossexuais, como os heterossexuais, na visão do cristianismo, passaram a ser considerados pecados, e um pecado, na visão do homem medieval, era, por vezes, pior que a própria morte. É interessante atentar ao fato de que, séculos mais tarde, a cultura antropocêntrica foi revivida por renascentistas de todas as formas possíveis. Leonardo da Vinci, segundo alguns historiadores, não foi apenas um dos seguidores da estética clássica, mas do próprio comportamento, chegando a manter, também, relacionamentos homossexuais.

Passaram-se anos, e só a partir da segunda metade do século XX conseguimos desfazer-nos da idéia de sexo por reprodução, ruptura fortemente influenciada pelo movimento feminista, culminando com a invenção das pílulas anticoncepcionais.

A homofobia, contudo, ainda é muito presente. Muitos acreditam que o preconceito contra homossexuais não é preconceito quando não exteriorizado com violência, ou seja, homofóbicos são só aqueles que agridem gays nas ruas, como temos visto em notícias nos últimos meses. Porém de acordo com o dicionário, homofóbico são todos aqueles que apresentam repulsa ou preconceito contra homossexuais. Há quem diga que não sente repulsa por um gay, mas quando vê um casal homossexual trocando carinhos sente-se ofendido, enquanto que um casal heterossexual passaria despercebido.

A discriminação, infelizmente, existe em nossa sociedade e está escondida de diversas formas. Desde o ódio explícito até os “pseudo-esclarecidos” sobre o assunto que não se sentem constrangidos em afirmar que jamais agrediriam um gay, mas não acham o comportamento normal e não medem críticas à mídia, acusando-a de incentivar tal comportamento. É necessário perceber, porém, que a homossexualidade esteve presente ao longo de toda a história desde pelo menos a Antiguidade Clássica.

O que os meios de comunicação fazem, quando vinculam em rede nacional casais gays, é apenas retratar uma realidade presente em nossa sociedade há séculos. Acreditar que a televisão cria, estimula ou determina sexualidades por retratar de maneira estereotipada, e por vezes preconceituosa também, a homossexualidade é absurdo. Opiniões como esta, compreendem pessoas diferentes como objetos a mercê de “influências externas malévolas”. Essa compreensão retrata um ser humano não crítico e não ator de suas vontades, descaracterizando a sexualidade, já consolidada como direito humano, como dimensão da cidadania.  É bem possível que seja cada vez mais comum ver casais do mesmo sexo nas ruas, mas não por uma campanha midiática que determina um modismo, e sim porque a repressão à sexualidade é cada vez menor, o que é o mínimo que se espera de um Estado laico na contemporaneidade. Entender a homossexualidade como modismo, ou associá-la a qualquer prática fútil e transitória, é ser homofóbico (!), independente de violência física. É lastimável ainda verificar esse tipo de entendimento (preconceito) entre amigos. É ainda mais lastimável a não percepção de seus preconceitos escamoteados por argumentos rasos.

Em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade tem sido um componente da vida humana, nesse sentido, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há dúvida de que a homossexualidade é e sempre foi menos comum do que a heterossexualidade. No entanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da espécie humana.” escreveu William Naphy, diretor do colégio de Teologia, História e Filosofia da Universidade de Aberdeen, Reino Unido.

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