Pastoral Americana: Philip Roth adaptado para as telas

Por Alita.

Descobri Philip Roth apenas em 2014, quando li Complexo de Portnoy para um clube do livro. O clube não vingou (como todos clubes de livro), mas Roth ficou. Era a segunda vez que descobria um autor cuja linguagem, escolha das palavras, forma da escrita e conteúdo geravam uma identificação imediata, desde as primeiras páginas (o primeiro foi aos 15, com Sabino, “O Encontro Marcado”. Que livro, senhoras e senhores). Voltando.

Roth falava comigo. A forma como os dilemas morais e os conflitos pessoais e psicológicos são postos parecem dizer algo sobre nós. Mesmo que eu não saiba exatamente o quê. A coisa bate em mim e de alguma forma fica aqui, grudada em algum lugar. Fui atrás do cara. Li “O Patrimônio” e me extasiei. Ele coloca a cena. Eu, inevitavelmente, penso sobre como me comportaria. Eu continuo lendo e, então, os personagens parecem até andar através de linhas já imaginada por mim, mas aí vem Roth (pessoalmente ou vestindo seu alter-ego Zuckerman) e me pega pela mão e diz “Veja, essa é a vastidão infinita da humanidade”. Colocando dessa forma até parece uma coisa meio Mufasa. “Tudo isso que o sol toca é o nosso reino”. Mas, de fato, é mais ou menos isso. Roth parece compor seus personagens com partículas mínimas da humanidade, de modo que cada personagem ao mesmo tempo que é parte de um todo, é também a totalidade. Os elementos constitutivos de cada um são profundamente humanos. O que muda, talvez, seja a disposições deles dentro de cada pessoa. Olhamos para eles e vemos o nosso reino. Mesmo que em um cantinho qualquer, ou escondido atrás de uma pedra, nos encontramos ali em algum lugar.

Então, cheguei em Pastoral Americana e a certeza foi selada: Roth é meu escritor favorito. Como alguém consegue colocar em corpos bem específicos conflitos sociais e históricos de uma época não vivida por nós de modo que não propriamente conseguimos viver essa época, mas conseguimos senti-la como se ela vivesse em nós sem nem nós mesmos sabermos? Pastoral Americana parece ser sobre um conflito de um pai moralmente irretocável e de uma filha criminosa completamente desviante da moralidade paterna, mas não é. É sobre como uma moralidade geograficamente localizada é apertada demais para vestir toda a história. E como a dialética acaba rasgando ternos outrora adoráveis. Fica a melancolia e a saudade das festas. Percebe? É o tempo. Um dado histórico, mas profundamente humano e inevitavelmente individual.

Entrei no Netflix e ele estava lá nas sugestões a espera de um clique. Vi correndo. Dizem que livros ruins dão bons filmes e que adaptação de bons livros tendem a virar tragédias. Talvez não seja difícil entender o porquê. Livros ruins, ou melhor, livros comerciais tendem a centrar suas tramas no verbo. O conflito é APENAS entre corpos determinados e as tramas são visíveis a olho nu, facilmente decifráveis. Não há uma entrada sem pedir licença em NOSSOS cômodos privados. São tramas que nos deixam de lado como observadores privilegiados em outros cômodos que não nossos. Não são ruins, na realidade. Mas Literatura, com L maiúsculo, parece ter se caracterizado por ser outra coisa. 

Roth trabalha em outro nível. O nível micro, das densas camadas psicológicas dos personagens. O mundo que implode em milésimos de centímetros sem tirar um abajur do lugar. A ação por vezes é apenas o olhar. Um olhar que se transforma em território infinito que latitude alguma alcança. Pastoral Americana não é um livro bom, é um libelo. Em poucas páginas, não estamos mais no conforto da cama, estamos nos corpos dos personagens. Seus desassossegos são meus também. Até prolongo um pouco cada momento e o reenceno mentalmente incluindo minhas próprias tragédias, traçando diálogos mentais como se algumas linhas estivessem a minha disposição e eu, sem nem perceber, vou completando com tudo que deveria ter dito, mas não disse, naquela quinta-feira chuvosa.

Ousar adaptar Roth pareceria uma sandice, fracasso inevitável. Mas o filme, pra mim, está longe de ser ruim. Bem verdade que ele não realiza o mergulho profundo em nossas almas, proposto pelo livro. Talvez porque no cinema todas as linhas precisam de alguma forma serem preenchidas. Não estão mais lá a nossa inteira disposição. Embora alguns espaços desocupados sejam sempre valiosos no cinema, eles não dão conta da vastidão de nosso reino. Acho que o filme Pastoral Americana consegue ir até o limite. Bergman, claro, foi muito além com Sétimo Selo, O ovo da Serpente ou Sonata de Outono. Muito além mesmo. Mas ele não partiu de uma referência já dada. Não estava aprisionado a nada. Interiores, de Woody Allen, idem. Aliás, cai como uma luva ali o tal mundo que implode sem tirar um abajur do lugar.

Pastoral Americana é um belo filme. É o primeiro filme dirigido por Ewan McGregor (haja coragem), que também o protagoniza, interpretando o pai da jovem “revolucionária” Merry Levov (Dakota Fanning), Seymour Levov. Quem não leu o livro ou está intoxicado por ideologias talvez veja apenas a exaltação ou a crítica da sua própria ideologia. Seymor não é a exaltação de uma “ética protestante e o espírito do capitalismo”, assim como sua filha assassina não é a crítica aos movimentos revolucionários de esquerda. Seymor É a ética protestante, assim como sua filha É a ética da contestação. E a contestação é assim, meio errada, suja, assassina, vacilante, gaga…Até irromper e virar a regra…E ser contestada por seus filhos. Assim foi a revolução russa, como também foi a revolução burguesa na França. Construção e destruição em uma dança dialética, sem juízo de valores estúpidos.

Um filme corajoso considerando que o projeto consistia em reduzir dilemas morais brutais imersos em uma rede de afetividades e frustrações (que na realidade são dilemas sócio-históricos) em um punhado de imagens com possibilidades limitadas. Gostei do resultado. Acho que era o possível.

Na trilha sonora há uma deliciosa releitura de “Moon River” (de Bonequinha Luxo) interpretada por Priscilla Ahn. A música lotada de vazios encerra o filme. McGregor parece ter consciência de que o espaço do filme não era o suficiente.

Fazendo uma analogia com a letra de “Moon River”, a tarefa de McGregor não era apenas atravessar o rio em busca da lua, mas mergulhar no rio e tocá-la, lá no fundo. McGregor, óbvio, não consegue tocar uma imagem, mas também não se contenta em ficar apenas à deriva a perseguindo.

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