Eu não me chamo Antônio, mas gosto dele

Por Dannie Karam

Quando eu era pequena tinha uma lousa. Adorava aquele verde escuro lisinho, pronto para receber o que eu bem entendia. E eu sei que boa parte das crianças gostava de desenhar e fazer quadros dignos de exposição, mas minha brincadeira favorita era um pouco diferente. Eu levava a bendita da lousa lá pra lavanderia, apoiava em cima do tanque, e pegava minha caixa de giz. O cheiro da caixinha de giz e daquele apagador ao lado é provavelmente um dos melhores cheiros que minha memória já gravou.

eu me chamo antonio1

Me posicionando em frente ao quadro e fingindo que tinha uma classe de alunos me esperando, eu não brincava apenas de professora. Meu hobby era ser uma caçadora de palavras. Eis então que selecionava termos como “sorveteria” e descobria quantas palavras havia ali dentro. Eu tinha um nome específico para essa “figura da minha linguagem” que não me recordo agora. Mas ficava circulando o “sorvete” com uma cor. O “ria” com outra. O “ia” com outra. Quando prestava mais atenção, achava o “ter”, “te”, e por aí vai.

Achei que essa brincadeira besta e infantil nunca me levaria à nada. Mas quando comecei a seguir a página EU ME CHAMO ANTÔNIO no facebook, não consegui fugir dessas lembranças. A página do autor Pedro Gabriel traz arte em guardanapos. Mas não só desenhos muito interessantes. Ele também brinca com termos e palavras. É claro que ele o faz de uma maneira muito mais primorosa do que eu fazia lá na minha lousa, criando trocadilhos e sentenças simplesmente emocionantes. Mesmo assim, foi por isso que meu interesse por seu trabalho começou.

Quando comecei a seguir páginas de algumas editoras do meu agrado, vi que a Intrínseca passou a anunciar EU ME CHAMO ANTÔNIO em livro. Desde então, minha ida sagrada à livraria de todos os sábados tinha destino certo. Fiquei com medo de gastar o dinheirinho em uma obra que talvez eu já tivesse visto toda online, mas ainda assim eu queria incentivar o brilhantismo do autor.Não foi exatamente uma surpresa ter me surpreendido com o conteúdo do livro. Vi um ou outro guardanapo online, mas a coletânea está repleta de guardanapos inéditos. Queria levantar pra vocês quais são os meus favoritos, pois aquilo é poesia pura. Mas poesia não se indica, se sente. Então para hoje, eu gostaria de sentar nessa mesa de bar, e passar uma cantada bem barata no meu guardanapo para vocês: eu não me chamo Antônio, mas gosto dele.tumblr_moc0dsJ5Qm1rid4sdo1_1280

Reforço que é uma leitura daquelas pra ver uma página por dia, de preferência, de tão delícia que é. Mas não estou dessa vez falando de romance ou páginas extensas cheias de coisas pra ler ok? Estou falando de arte. De apreciar. De caçar palavras. E de valorizar um pouco da arte brasileira – africana. Digo africana porque o autor é sul africano e começou a fazer os guardanapos justamente porque tinha dificuldades com algumas palavras em português. Qualquer informação adicional é pura maldade. Então corram lá. Comprem EU ME CHAMO ANTÔNIO – e sigam também sua página. Belíssimo trabalho de arte e poesia ao alcance de todos.

PS: É. Eu ia fazer um texto cheio de trocadilhos com o próprio nome do livro, mas acho que muita gente já fez isso, então foi por uma das experiências da memória mesmo, tá? =)

 

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