Morte Súbita #2 – J.K. Rowling e minhas histórias do interior

Por Dannie Karam.

Quando digo para as pessoas que já devo ter morado em pelo menos umas vinte casas, a cara de surpresa delas é sempre a mesma. Primeiro, todo mundo acha que estou brincando ou que sou mentirosa. Depois, começam a perguntar sobre como a jornada de uma pessoa com menos de trinta anos passou por tantos endereços diferentes. Seja lá como for, é verdade, e separo minha memória através de cada uma delas. Parece que cada lembrança que eu tenho, possui uma residência própria onde se sente mais à vontade para navegar.

E mesmo estando em cenários tão diferentes, desde grandes metrópoles até cidadezinhas bem pequenas, poucos lugares são tão memoráveis quanto as cidades de interior. Quando você mora em pequenos vilarejos, cidadezinhas menores onde a chegada do primeiro cinema é motivo de festa, e onde ainda se passam trens e carroças, parece que você tem em mãos todos os elementos para criar seus próprios contos de fada. Ok! Mesmo que não sejam exatamente de fadas, as cidades pequenas são fascinantes.

Apesar de muita gente sorrir para muita gente, de muita gente se comportar de forma bem discreta, e de nome e sobrenome, escola e empresa significarem um bocado mais do que significam na cidade grande, qualquer um com curiosidade mais aguçada fica se perguntando o que é que realmente se passa em cada uma daquelas casas, tão similares pelo lado de fora, e tão peculiarmente decoradas em seu interior. Seja por objetos belos e diferentes, seja por gritos, choros ou individualidades ofuscadas pela luz do sol e a potência dos mexericos.

Foi impossível ler “Morte Súbita” e não lembrar das fases que tive nessas pequenas cidades. Foi como se cada personagem abordado por J.K.Rowling fosse um conhecido meu. Um ex-vizinho, um amigo de infância… Alguma daquelas tantas pessoas que de algum modo convivemos mas não sabemos verdadeiramente quem são. A história intrigante e diversificada da eterna-autora-de-Harry-Potter faz com que se crie na mente não só toda uma cidade, mas todos os seus moradores, seus medos e receios, seus conflitos… É simplesmente brilhante a construção da autora.

Eventualmente, é de se perder e voltar uma ou outra vez pra ter certeza de quem ela estava falando. Acontece que são muitos nomes e muitas histórias, que com o decorrer do livro vão se afunilando e facilitando a identificação. Mas ainda assim, continua mesmo brilhante. Não sei o que acontece com Rowling que simplesmente nos transporta para outros planos. Seus personagens são descritos de tal modo, e os locais possuem uma precisão de detalhes (nem de mais, nem de menos) que ficam quase táteis à leitura. E quando percebe-se, as mais de 500 páginas não duram uma semana.

Assim como prometi a semana passada, a minha recomendação final à respeito de “Morte Súbita” é: COMPRE-O! Acredito que seus personagens favoritos possam ser diferentes dos meus, mas tenho certeza que Rowling traz alguém com quem você irá se identificar. Histórias cotidianas que poderiam acontecer bem aí na casa do vizinho… Problemáticas atuais da sociedade… E aquela medida certa de mistério e suspense que fazem toda a diferença entre um noticiário de tv e o que realmente estamos lendo.

Com “Morte Súbita”, Rowling prova àqueles que achavam que Harry era um personagem infantil e superficial (ainda que eu tenha a severa opinião que não), que é, e muito, capaz de criar um universo tão intenso e intrigante também para os adultos. Fico só pensando no que foi que ela fez em “O Chamado do Cuco”, que certamente será tema de um de nossos próximos papos. Trocadilhos infelizes nada à parte, realmente Barry pode ter tido sua “Morte Súbita”, mas tudo que acontece após este fato lá em Pagford durará muito tempo na lembrança dos leitores da maravilhosa ROW.

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