“Por que o senhor atirou em mim?”. Por que atiramos em Douglas?

Por Alessandra Verch

“Por que o senhor atirou em mim?” é a pergunta feita por artistas e ativistas em um vídeo lançado no último domingo. A frase está virando um ícone contra a violência policial e foi feita pelo menino Douglas Rodrigues, 17 anos, e dirigida ao policial militar Luciano Pinheiro Bispo, após receber em seu peito um tiro disparado pelo PM, no último dia 27, na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo.

Minutos depois de fazer a pergunta o garoto morreu. O PM, preso em flagrante por homicídio culposo (sem intenção de matar), teve liberdade provisória concedida pela Justiça Militar.

Os rappers Emicida, Rashid, Rael da Rima, Flora Matos, Dexter e KLJ, do Racionais MCs e o funkeiro MC Guimê fazem uma segunda pergunta “Por que vocês atiram em NÓS?”. Na periferia, na juventude, nos negros.

Segundo o mapa da violência 2013, as principais vítimas da violência urbana são os jovens. Enquanto na população não jovem os óbitos por homicídio representam apenas 3%, na população jovem (com faixa etária de 15 a 24 anos) os óbitos beiram os 40%. De 1980 a 2010 foram 1.145.908 vítimas de homicídio. O Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo. “São números tão altos que torna-se difícil, ou quase impossível, elaborar uma imagem mental, uma representação de sua magnitude e significação. Para isso, deveremos recorrer a outros indicadores, tentado dar uma ideia, uma aproximação do que esses números representam”, afirma o relatório.

Pois para se elaborar essa “imagem mental” o mapa analisou as estatística de homicídio no Brasil comparativamente, contrastando com os dados dos 12 maiores conflitos mundiais, que ocorreram entre 2004 e 2007, que consta no Relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada.

Somados esses 12 conflitos vitimaram 169.574 pessoas nos quatro anos computados, entre eles estão o conflito no Iraque, no Afeganistão e na Palestina. “No Brasil, país sem disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos, conflitos de fronteira ou atos terroristas foram contabilizados, nos últimos quatro anos disponíveis (2008 a 2011) um total de 206.005 vítimas de homicídios, número bem superior aos 12 maiores conflitos armados acontecidos no mundo entre 2004 e 2007”, denuncia o mapa da violência.

Por quê? “Por que o Sr. atirou em mim?”

Uma das possíveis respostas é a tolerância institucional. Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, referindo-se aos homicídios de jovens e adolescentes já declarou que “o Brasil convive, tragicamente, com uma espécie de epidemia de indiferença, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social. Isso ocorre devido a certa naturalização da violência e a um grau assustador de complacência do estado em relação a essa tragédia. É como se estivéssemos dizendo, como sociedade e governo, que o destino desses jovens já estava traçado”. E esse destino é o caixão.

Engrossando todas essas estatística estará o menino Douglas, de 17 anos, que morreu sem uma resposta. Por quê? “Por que o senhor matou o menino Douglas?” Por que NÓS matamos o menino Douglas?

Para ler na íntegra o mapa clique aqui.

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