Será mesmo a partir da violência que geraremos o novo?

Por Alessandra Verch.

Obra de Banksy com a colaboração dos grafiteiros brasileiros Os Gêmeos, em sua passagem por New York
Obra de Banksy com a colaboração dos grafiteiros brasileiros Os Gêmeos, em sua passagem por New York

Recentemente, em um texto publicado no sítio Outras Palavras, o editor Antonio Martins escreveu sobre a onda de violência que vivemos e para isso analisou tanto a violência praticada pelos Black Blocs, como a mais recente contra o coronel Reynaldo Simões Rossi, da Polícia Militar de São Paulo, quanto as praticadas pela polícia, que vão desde a omissão total nos casos onde há depredação do patrimônio até assassinatos e agressões gratuitas. No entanto, Martins procura ir além do grito surdo, cheio de ódio e legitimidade “A POLÍCIA TEM QUE ACABAR”.

Segundo ele “as duas atitudes policiais retroalimentam-se uma à outra, em espiral. A brutalidade da tropa exalta os ânimos dos manifestantes e leva pequenos grupos a reagir de modo violento. As depredações promovidas por estes, nos momentos em que a polícia se omite, amedrontam a população e sugerem que a saída, diante dos protestos, é mais repressão”. Com isso, afirma que “está se consumando, rapidamente, o cenário desastroso previsto por Luís Nassif. Ele pode dar-se tanto como tragédia (na forma de um novo morticínio ‘corretivo’ contra a periferia, semelhante ao de 2006) quanto como drama arrastado (um longo sangramento dos movimentos sociais de todos os tipos, até que percam legitimidade junto à maioria)”.

Evidentemente, ainda é difícil afirmar o que pode ocorrer nesse cenário de incertezas e banalização da violência. Mas, é necessário problematizar essa falta de reflexão da nova militância social que está nas ruas, que se regozija no romantismo cego e narcísico do “estou fazendo história”. A história se faz independentemente de nossa vontade consciente.

A violência (econômica, de classe, de raça, de gênero) é um patrimônio da humanidade, na medida em que é violência política. Porém, quando, meramente, reagimos contra ela nós a perpetuamos. Para que ela finde não basta reagirmos, é preciso compreendê-la para superá-la, para que ela deixe de ser um marcador de ação.
Isso não pressupõe, em hipótese alguma, a defesa de um pacifismo cego que namora com a apatia social.

Não é pregar, insanamente, o fim de um movimento humano inegável, o dialético. Todavia, é não perder de vista que a dialética não é um movimento simplista e antagônico entre negativo/positivo, errado/certo, ruim/bom, PM/militante. A dialética é um movimento humano conflitivo (e necessário) que obrigatoriamente produz algo novo, ou melhor, temporariamente novo, pois a espera de um novo conflito. Tese, antítese e síntese. É com esses três elementos que temos movimento dialético, e a verdade está nesse movimento contínuo e não em uma ideia temporal, ou em um elemento específico. A antítese, por óbvio, é a oposição da tese, é ela que instaura o conflito. Lamentavelmente, por oposição e conflito muitos entendem, de imediato, violência, imposição, ou mais especificamente, luta armada. Enganam-se.

A dialética não se define pelo seu conteúdo e sim pelo seu movimento, pelo conflito entre proposições. Ela não está, necessariamente, atrelada a violência. Afirmar que a violência é necessária para alguma mudança é um engodo brutal. Em certa medida a violência pode até mesmo frear o movimento humano dialético, pois adia o contraponto necessário para o conflito político, para o conflito real. Não produzimos a antítese e ficamos trancados numa tese antiga e marcada pela violência.

Com isso, a dúvida de que podemos estar a produzir um conflito apenas performático precisa sempre ser posta. Combater a violência com violência não é trocar seis por meia dúzia? É preciso nos questionar. É preciso refletir.

Para usar a metáfora da excelente análise de Antonio Martins, apanha/bate, apanha/grita é tão dialético quanto uma mosca presa em um vidro.

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9 opiniões sobre “Será mesmo a partir da violência que geraremos o novo?”

  1. Parabéns, provou ser possível a máxima de Benjamin Franklin, “uma enciclopédia não pode ser resultado da explosão de uma gráfica”, contudo pode criar um texto como o acima. No segundo parágrafo, uma pérola (para não dizer outro nome) passível de uma analogia: o paciente não apresenta mudança em seu quadro clínico com determinado remédio administrado em determinada dose, um “curandeiro” sugere que se corte o remédio para que a doença se cure por si mesma. O cúmulo do absurdo.
    Falta definir a que se propõe o texto, tratar de um assunto ou mostrar que conhece a estrutura da dialética, o que seria uma metalinguagem. Como também sua posição, ora narrador ou se está a favor de algum dos lados, pois apresenta premissas favoráveis a ambos.
    Pretendia inicialmente escrever em verso ou prosa? Dizer que “A violência… é patrimônio da humanidade” muito bem se encaixaria em uma poesia, jamais em um texto, pois isso é inconcebível, jamais houve violência que seja boa em si e no máximo ela pode ser uma atividade rentável a certas pessoas, mas nunca patrimônio.
    Precisaria de um texto completo para contestar tudo o que aqui se escreveu, contudo fica sua finalidade, desmoralizar as instituições “carcomidas” pelo PT que depois envia seus filiados da mídia para dizer ao povo que o mundo é melhor sem elas.Como diria o filosofo Olavo de Carvalho, esse texto padece de “ignoratio elenchi”, figura de sofística em que o sujeito aparenta ou finge argumentar contra algo quando na verdade argumenta (e mal) contra outra coisa totalmente diversa.

    1. Minhas referências foram, basicamente, Hegel e Arendt.
      O uso da expressão “patrimônio da humanidade” foi irônico. Essa expressão sempre é acionada para falarmos de nossas “proezas”, de nossas produções positivas, produções arquitetônicas grandiosas, etc. Nesse caso a subverti. Por que?
      A finalidade desse uso é transformar a produção de um indivíduo genial em uma produção humana, é nos louvarmos, nos admirarmos coletivamente com a proeza de indivíduos isolados, que nada tem a ver conosco.
      No entanto, se tem algo que inerente à humanidade, ou seja, verdadeiramente humano e não individual e isolado é A violência.
      Ela, sim, deve ser entendida como uma instituição humana, esse sim é nosso verdadeiro patrimônio. Pois isso sim é uma produção humana coletiva (que está impregnado em todos) e não individual.
      E, creio eu, devemos encará-la como tal e nos envergonhar dela e não empurrar para debaixo do tapete como se fosse um mero acidente de percurso, uma “ação necessária”, ou então uma ação monstruosa, de alguns loucos, que volta e meia aparecem na história. Ela é banal, a banalidade do mal, já dizia Arendt.
      Me desculpe se te incomodei com o uso dessa expressão. Me desculpe, também, se meu texto te incomodou. Me desculpe, se não conseguiu definir se ele é prosa ou verso.
      O incômodo é positivo, mas a vontade de humilhar, de ganhar, de odiar, não, seja através das ações ou das palavras.

      Essa banalidade do mal…

    2. Se vis pacem, para bellum! Seneca (se quizer a paz, prepara te para guerra).
      Frases de apoio a violência ou a guerra, existem aos milhares e partem sempre da premissa: “os fins justificam os meios!”
      A guerra é sempre um meio para se obter algo, ou seja,
      o “como”, a “forma”, ela em si não é um bem. Além dos homens, os animais também lutam, seja por comida, território ou para acasalamento.
      Existem outros meios para se atinjir algum objetivo, a dissimulação, a sedução, o escambo (troca), entre outros. Independente do grau de detalhamento ou de usar ou não alguma ferramenta, no caso,uma arma, este será sempre um modo de agir.
      No caso da palavra que insiste em usar (patrimônio), a etimologia dela é formada por dois vocábulos greco-latinos: “pater” e “nomos”. A palavra “Pater” significa chefe de família, ou em um sentido mais amplo, os antepassados. Dessa forma pode ser associada, também a bens, posses ou heranças deixados pelos chefes ou antepassados de um grupo social. Essas heranças tanto podem ser de ordem material como imaterial,um bem cultural ou artístico também pode ser um legado de um antepassado. A palavra “Nomos” ogina-se do grego. Refere-se a lei, usos e costumes relacionados à origem, tanto de uma família quanto de uma cidade. O “nomos” relaciona-se, portanto com o grupo social. O patri-monio pode ser compreendido, portanto, como o legado de uma geração ou de um grupo social para outro.
      Pensar da forma que você pensa é que faz com a guerra se perpetue entre nós, se não fosse assim, os soldados não iriam para as batalhas, os homens bomba não se matariam, independente do lado, das convicções, da bandeira, se matam e não lucram nada com isso. O meu único sentimento a respeito disso é tristeza, não raiva!

    3. “Herança”, “ancestralidade”, “como fazem”, “os animais também fazem”, “os fins justificam os meios”, pois é exatamente isso que estou me contrapondo, ao “sempre foi assim”…eu quero o novo, o desconhecido, o que ainda não tem nome nem foi categorizado, exceto pela vaga definição de “paz”. E só. Como é ou foi nós sabemos, como será é o que me encanta.
      Abraços, querido!

    4. A violência é sim um patrimônio da humanidade. Ora, quem pratica a violência que não a humanidade? Não são alienígenas que se infiltram por aqui para provocar a violência. Porém, nem todo patrimônio é agradável aos olhos de seus criadores.

      E realmente, é um grande problema tratar a violência como algo endêmico do outro, ao passo que quando a violência é do nosso quintal, tratamos como um acidente de psicopatas isolados.

      Citar o “filosofo” Olavo de Carvalho me dá urticárias já (tá pra nascer desonesto intelectual maior), porém serve muito bem ao seu comentário, pois a autora em nenhum momento falou de PT, ou algum outro partido político. Mas uma mente binária talvez não possa conceber um texto crítico que não seja comprado pela oposição.

    5. MP compreendeste o meu ponto. Esqueci de comentar sobre a questão do PT e comentaste por mim, obrigada. Como colocaste, não analisei a atuação de nenhum partido, não é sobre isso que o texto fala, o texto é muito mais amplo, é, basicamente, sobre dialética, mudanças e violência, e só. Com o intuito de buscarmos uma reflexão profunda sobre a proporção que as coisas estão tomando. Que ao meu ver, já superaram há muito tempo uma limitada discussão partidária PT x Anti-PT.
      Abraços, querido!

      PS: Entrei no seu site…DEMAIS, fui curtir e descobri que já era fã, mas nunca recebi nenhuma postagem de vocês no meu feed. :/ Tenho a impressão que o facebook está cada vez mais limitando o alcance, para pagarmos por mais. Mas favoritei e vou ficar de olho em vcs. Bjs!

    6. Oi, Acho que irá gostar de alguns artigos de lá. Pois é, o Facebook limita cada vez mais a “pulverização” de postagens. Eu mesmo, só recebi feed na minha fanpage 3 vezes só hahaha

      Imagino que seja por isso mesmo, pra cobrarem da gente =(

      Obrigado, espero que goste do meu site meio Frankenstein (Estamos nos achando ainda haha), assim como gosto do Pitanga Digital. Espero que continue produzindo mais como nas últimas semanas, senti falta.

    7. Li o que escreveu sobre etimologias e ditados populares. Digo que essa verborragia toda só expressa prolixidade, mas nenhum conteúdo. É no máximo uma curiosidade de Twitter. E o “apelo à natureza”, ou à pureza de algo, é um péssima falácia pra se jogar num debate saudável que nem o que foi pretendido pelo texto. Faz isso não, rapaz.

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