O BB que está em nós

blackblockPor Alessandra Verch.

Os Black Blocs (BB’s) são a pauta da vez e suas práticas estão na berlinda devido ao linchamento sofrido pelo coronel Reynaldo Simões Rossi, da Polícia Militar, ocorrida na noite de sexta-feira, após mais um protesto em São Paulo. Enquanto a maioria da população rechaçou veementemente a atitude dos BB’s, outros satirizaram a “solidariedade seletiva” que a presidenta Dilma prestou ao policial, ridicularizando o fato dela não externar solidariedade às agressões sofridas pelos manifestantes e impetradas pelos policiais militares e exigindo a imediata desmilitarização da PM. Mas, quem está certo nessa discussão toda? A ação é justificada?

O fato da tática de luta (?) BB vingar nos grandes centros urbanos e não nas cidades mais pobres é bem preocupante e sintomático, pois acompanha o próprio movimento da violência, ela é mais acentuada nas cidades mais desiguais e não nas mais pobres e deficientes em serviços públicos e recursos. Ou seja, a violência não necessariamente carrega um sentimento de justiça, ela é mais uma consequência de um certo sentimento de impotência, do fato de que alguém tem e esse alguém não sou eu. Não vejo coletivismo, não vejo anseio por justiça, não vejo qualquer tipo de luta, vejo, sim, raiva, ódio e grunhidos isolados e desconexos.

Mas, quão diferentes somos, afinal, dos BB’s?

black-bloc-rio-de-janeiro-20130812-26-size-598Usamos de violência para dizer que aquilo que alguém (ou alguma instituição) fez é inadmissível e o inadmissível merece (é compreensível/é justificado/entende-se, há diferença profunda nos termos?) ser repreendido com violência. O problema não é só a reação em si e o fato dela ser reflexo/reprodução/destruição e nunca proposição, nunca o novo, o problema me parece ser a violência em si. A violência que nos constrói e nos define, que está de forma, infelizmente, legítima nas instituições democráticas, mas que está em intensidade apenas diferente em um “seu merda, cala a boca”, ou nos bullying escolares, ou nas respostas jocosas, ou nas respostas estúpidas direcionadas a quem discorda de nós no Facebook, ou , de forma mais que evidente, em uma “vai tomar no…” ou , ou, ou. É tudo violência.

O fato é que (me parece) estamos pouco preocupados em dialogar, nosso interesse maior parecer ser humilhar mesmo, ganhar do outro, provar que estamos certo, provar nosso ponto de vista, extravasar nossa raiva. Mas de onde ela vem? É, mesmo, um sentimento profundo de injustiça, de insatisfação com a injustiça social que nos faz sentir vontade (e no direito) de mandar alguém “tomar no…”, no Facebook? Acho difícil.

Qualquer motivo é motivo para ser violento. O argumento parece superior ao meu? “É um academicista imbecil abusando de um discurso de poder”. O argumento parece inferior? “lamento, mas você ou é um ignorante ou não deve ter tanto conhecimento sobre o assunto, informe-se”. A pessoa é de orientação à esquerda? “vândalo, ignorante, revolucionário de butique, você é ridículo”. A pessoa é de orientação à direita? “Coxinha, playboy, larga fora seu bosta, imbecil, reaça de merda”. A pessoa critica uma abordagem feminista? “machista, tosco, tá culpabilizando a vítima, as mulheres são sempre vítimas, seu ridículo”. A pessoa é contra o aborto? “Sociedade hipócrita, machista, ridícula, to louca para fazer um abortinho só para largar para esse bando de tosco”. A pessoa defende uma religião? “Bando de ignorantes com merda na cabeça, vocês não usam o cérebro, morram”. A pessoa não acredita em Deus? “hipócrita cretino, depois vai pedir milagre, vá de retro. demônio, você é corja”.

Enfim… Ao fim e ao cabo só a banalização da violência que evidencia a nossa infantilidade, nossa insensatez e nossa covardia, e estas cada vez mais democratizadas, cada vez mais ocupando espaços.

É o monopólio do uso da violência sendo democratizado. Somos nós, infelizmente, cada vez mais militarizados.

Dá uma olhada na animação que produzimos sobre as violências rotineiras que rolam pelas redes sociais.

Anúncios

Uma opinião sobre “O BB que está em nós”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s