Em qual vitrine você se encontra?

Por Dannie Karam.

Em qual vitrine você se encontra? É! Você mesmo. Quando você está ali, passeando por suas redes sociais, você compartilha o quê? Quando anda por aí, você defende o quê? São as mesmas coisas que você também defende depois de umas ou outras na mesa de bar? Não está entendendo nada do que eu estou falando? Então deixa eu te explicar.

Tenho visto, e muito por aí, as pessoas compartilhando (de diversas formas) mais mensagens de raiva do que de amor. Raiva não em um sentido tão literal, mas no sentido “do contra”, de achar defeito, de considerar com veemência ruim. É uma espécie de manifesto ao que não se gosta, para que todo mundo saiba que “aqui nessa casa” não mora um funkeiro. Ou aqui dentro “NÃO bate um coração sertanejo”, por exemplo. Uma espécie de necessidade de dizer que tal livro é uma porcaria, e que “Deus me livre daquele filme”. Muitas vezes, inclusive, por influência dos outros e sem o menor contato com o tal criticado universo.

Não contentes em apenas apurar o próprio gosto, conhecer as novidades, filtrar o que nos agrada e deixar o mundo em paz, precisamos nos colocar nas vitrines da vida para garantir a todo mundo não só o nosso posicionamento para absolutamente tudo (desde música até política), como especialmente, onde está nossa oposição. Parece que nunca precisamos tanto de rótulos e definições. Não podemos ignorar aquela imagem compartilhada na internet, ou aquele gosto musical do vizinho. Não! Precisamos manifestar nossa oposição (até aí sem problema), de forma grosseira, com veemência e com categorizações, definindo e tipificando pessoas de forma a reduzi-las, não pelos seus gostos, opiniões ou crenças, mas pelo que elas compartilham nas redes sociais ou nos grupos de amigos. Como se fosse possível tal redução.

O pior é que muitas vezes, aquele cidadão que “desceu a lenha” no quadradinho de oito, depois de umas duas ou três cervejas na festinha, está lá fazendo exatamente a mesma coisa. Quando está com o coração partido, chora com aquele filme banal. E quando algum político faz algo de bom, diz que até pensou em votar nele… Nem sequer somos fiéis a quem mostramos ser, se é que somos o que mostramos…

Temos a necessidade não só de querer uma coisa, mas também de catequizar o restante das pessoas ao nosso redor a querer o mesmo, ou a não querer. E ainda o fazemos acreditando que excluído é o indivíduo que não se permite catequizar, acreditando que é ele quem não possui argumentos para defender suas ideias. Mas você já parou para pensar que pode ser exatamente o contrário? E se, em plena era da carência, tudo que estamos fazendo é implorar das formas mais ditatoriais possíveis, para que alguém mais seja como nós, de modo a não nos sentirmos sozinhos nesse mundo cruel?

Precisamos controlar a necessidade de pertencer a um grupo, de ter um espaço, de ter atenção. É importante permitir que este tipo de conquista venha de modo natural, para que possamos ser verdadeiramente nós mesmos, e para que estejamos cercados de quem realmente se parece conosco. Pois, o mundo tem diversidade suficiente para que todos encontrem o seu lugar. E, me parece, muito melhor construir essa identidade do que criticar, de forma descabida, as diferenças. Até porque, um tipo de comportamento repreensivo e censurador como este, acaba interferindo em muitos aspectos de nossa vida.

Acredito que sermos assim, rígidos conosco e com os outros, só gere mais preconceito, mais revolta… Atrito desnecessário gerado em torno de opiniões e verdades tão pessoais que nem poderiam ser questionadas. Ou seja: terminamos por questionar a individualidade do outro quando isso não nos diz e jamais nos dirá a respeito. E quando isso nem mesmo vai interferir em nossa própria rotina. Causamos, assim, mais cobrança, mais caos e mais ainda a necessidade de expor o que não somos acima do que verdadeiramente queremos.

Não vejo contradição entre ser engajado nas mais diversas causas do mundo e adorar uma novelinha. Não seremos mais fúteis ou menos interessantes, se um dia assistirmos àquele filme do “vampirinho” ou o tal reality show. Também não vamos perder em nada se ouvirmos uma “musiquinha” diferente hoje. O que importa mesmo é conseguir extrair de tudo algum tipo de conteúdo. Algum tipo de coisa boa, nem que seja simplesmente esvaziar totalmente a mente. Nós não precisamos ser invejáveis. E podemos, sim, aumentar a tolerância com os outros, mas principalmente conosco.

Confiando em nossa própria habilidade de absorver conteúdos e exercendo a nossa parcela de convivência pacífica, provavelmente conseguiremos muito mais inserção e ouvidos do que impondo às pessoas que elas sejam iguais a nós. Com um pouco mais de maleabilidade podemos também nos adaptar ao outro. A discordância deve, sim, ser manifestada, mas ela não precisa vir junto com o desrespeito e com a grosseria, ela pode ser utilizada de forma madura, com diplomacia, serenidade e elegância, sem frenesi ou exaltação.

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