O brasileiro é desonesto?

Por Dannie Karam.

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O brasileiro é desonesto até que se prove o contrário. Não sou eu quem está falando, não. São nossas empresas. Nossas centrais de atendimento, nossos prestadores de serviço, nossos patrões… Exemplo que ressalta minha revolta: tenho uma linha telefônica de uma destas empresas “tipo de telefone, sabe?”. Eu tinha o pacote todo, mas como o serviço era horrível, fiquei apenas com o telefone, cancelando a internet e a televisão. Isso faz dois anos. E esse mês fui cobrada de um valor completamente indevido referente a ambos os serviços. Por mais que eu fale que eu não o tenha mais e que os equipamentos foram retirados da minha casa há dois anos, eles não acreditam. Mesmo vendo o histórico dos meus pagamentos, muito menores desde então, nos últimos vinte e quatro meses, eles não acreditam. Não deu baixa no sistema? Problema meu. Mesmo que o erro tenha sido deles. E agora, além de perder a manhã resolvendo, também preciso ficar à tarde disponível para que eles entrem na minha residência e vasculhem meus aparelhos eletrônicos a fim de encontrar provas de que estou errada.

Esse exemplo é só o mínimo. Quantas vezes precisei entrar em contato com companhias aéreas para comprovar que paguei o valor promocional e não o cheio. Ou, quantas vezes precisei deixar um produto para análise, sem substituição de outro, para que chegassem à conclusão que não fui eu quem quebrou, mas sim ele que não funciona. E até foto de trânsito que já tive que tirar, inclusive da parte do acidente, para provar que eu não atrasei por motivo fútil no trabalho.

Nossa política é de desconfiar sempre, porque com o jeitinho brasileiro todo mundo tem medo de ser passado pra trás. Nas empresas, se não fizerem essa fiscalização, o prejuízo deve ser enorme. Nos recursos humanos, se não pedir o atestado, é capaz de faltar gente todo dia. E se até no Congresso, com todas as CPI’s e investigações, a gente ainda leva um prejuízo danado dos políticos corruptos, imagina só o que aconteceria se acreditássemos na palavra do outro?

Até aí, parece justo. Mas quando a gente olha com mais profundamente a questão, o que dá vontade de perguntar é simples: “cadê” o respeito à minha palavra? Onde está o meu crédito, o meu direito a ser ouvido e respeitado? Quem defende a minha casa de prestadores de serviço que vão entrar aqui apenas para conferir o que eu já disse? Quanto mais dessa invasão de privacidade eu precisarei suportar para que não venham novas cobranças indevidas, como se isso fosse um benefício e não uma obrigação deles? Quanto mais prejuízo vou levar entre debater com uma destas companhias e perder uma hora do meu trabalho, ou trabalhar e alimentar estas atitudes e cobranças indevidas comigo?

O que parece acontecer é que essas situações fazem parte de uma cadeia com muito mais consequências do que podemos imaginar, que englobam “falsificar a carteirinha” porque o cinema está caro, ou “arranjar esse atestado” pra chegar mais tarde… O “toma uns cinquenta reais para o café, seu guarda” ou aquele típico “vai que ninguém tá vendo”… O nosso pular a catraca “só por hoje”, comemorar quando vem o troco a mais porque “não vai fazer falta pra ele mas a mim, sim” e até aquele silêncio quando a pessoa da frente derruba o dinheiro e você espera para tomá-lo para si.

Esse nosso comportamento, vicioso e corrupto, a cada dia mata um pouco mais de nossa própria palavra. Cobra um pouco mais de nossa própria paciência e de nosso próprio tempo. E permite cada vez mais depredações à nossa educação, saúde, transporte, moradia, cultura… Porque vem também dos governantes, é algo nosso. Não há como ter um país melhor sem melhorarmos, sem nos modificarmos (não, não somos os piores, os mais errados, os mais corruptos, etc., mas aqui o assunto é apenas nós).

Cobramos atitudes honestas dos outros e esquecemos de nós, do exemplo que damos no dia-a-dia, quando ninguém está olhando. Além de corrermos o risco de tomarmos as mesmas atitudes erradas se formos nós no comando. Nos tratam com desonestidade e nós achamos normal, talvez porque pensamos lá no nosso íntimo que esse tipo de situação é um problema localizado. Mas, o que me parece é que permeia toda a população, e somos nós os algozes e, também, as vítimas. Nós deveríamos nos questionar sobre isso! Nós consideramos comum ter que passar por toda a dor de cabeça para mostrarmos, no final, que estávamos certos desde o começo. Alimentamos uma cadeia venenosa para nossa sociedade sem perceber que, no fim do dia, temos o que provocamos, ou melhor, construímos.

Até quando?

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