“E o pior vestido da noite vai para…”

Alessandra Verch

Entra Oscar, sai Oscar, e um hábito não se abandona: a zoação gratuita a todas, ou quase todas, as mulheres presentes no evento. Na edição de 2013 não foi diferente. O vestido da fulana, o cabelo da ciclana, a antipatia da beltrana, enfim, a gongagem é deliberada e, quase, exclusiva, às mulheres.

Práticas como essas evidenciam uma faceta triste e ainda persistente no espectador. Insistimos em ser preconceituosos. Preconceito, no caso citado, destinado às mulheres e praticado por todos. Talvez esse dado ainda seja invisível e muitas pessoas ainda acreditem que é coincidência, mas a alta incidência de críticas (principalmente de ordem fútil, como cabelo, maquiagem e vestido) às mulheres, associada a baixa incidência de críticas aos homens, que se agrava de forma contrastante com o excesso de elogios aos mesmos, me impede de acreditar que sejam apenas coincidências, ou mesmo que as observações sejam necessárias.

Antes mesmo de começar o evento, as câmeras já estavam a postos para alimentar essa vontade acrítica e perniciosa. Elege-se o melhor vestido e, consequentemente, o pior vestido da noite. Nesse momento, muito provavelmente o nervosismo das competentes atrizes dá-se devido às dúvidas se serão aprovadas ou não no quesito figurino. Uma sabatina cruel que anualmente ridiculariza uma série de mulheres talentosíssimas.

No tapete vermelho pouco importam os aspectos realmente relevantes. Imperam o senso comum e a futilidade, demandada pelo público e pela mídia. Todos os artistas dançam conforme a música, poucos se revoltam (como Joaquim Phoenix e Ethan Hawke), ou ao menos controlam suas discórdias. “É uma sabatina necessária”, talvez pensem, ou simplesmente a legitimam e a festejam.

Há quem acredite que o evento em si seja uma ode a futilidade e ao irrelevante, uma cerimônia apenas a serviço do mercado (ou mesmo da política) e não do cinema enquanto sétima arte. Nele a população e a mídia corroborariam a sua função instituída, destinando críticas, igualmente, fúteis e irrelevantes. Mas não é caso, ou pelo menos não seja uma justificativa plausível para esse traço comportamental. De Cannes ao Sundance vê-se as mesmas práticas, variando apenas a intensidade, que se correlaciona com a popularidade de cada evento.

Sim, somos mais críticos (as) em relação às mulheres. Ainda somos preconceituosos (as) em relação a elas, ainda somos preconceituosas em relação a nós. São elas que estão na berlinda nos grandes eventos. E isso apenas denota um problema grave e de dimensões enormes.

Com essas observações não busco democratizar a falta de respeito, busco democratizar o respeito. O terno do Samuel L. Jackson era apenas um terno, da mesma forma que o vestido da Anne Hathaway era apenas um vestido. A simpatia da Kristen Stewart era semelhante a simpatia de Joaquim Phoenix. Invisibilizamos detalhes negativos de homens e salientamos os detalhes negativos das mulheres. Por que insistimos nisso? Onde está a graça desse comportamento tão óbvio?

Ainda bem que já há algum tempo abandonei esses hábitos herdados que reproduzia inconscientemente, ou talvez conscientemente mesmo. Não lembro mais o que me motivava.

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Uma opinião sobre ““E o pior vestido da noite vai para…””

  1. Eu acho, sim, que o Oscar está muito mais a serviço do mercado do que da arte. E concordo com o seu diagnóstico: somos muito mais críticos às mulheres, principalmente em eventos como esse.

    E acho, também, que um dos principais pontos do Oscar é justamente essa exposição das celebridades na grande noite de gala da indústria; sim, há isso também em outras premiações, mas nenhum caso é tão agudo quanto esse.

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