O fim em Amor, de Haneke

Um filme sobre a decadência e a inevitabilidade do fim.

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Por Alessandra Verch.

Amor, filme dirigido por Michael Haneke, explora de forma realista a decadência do indivíduo. Sem trilhas sonoras pontuando momentos trágicos, sem tragédias, apenas a linearidade da vida que caminha a passos largos para um despenhadeiro inevitável. Nada é trágico, o trágico está no olhar do espectador ao chocar-se com a visão seca e realista do diretor. Não há espaços para dramatizações excêntricas.

Já em uma das primeiras cenas, percebemos uma escolha ousada do diretor: um concerto de música sob a ótica dos artistas. Vemos apenas a plateia durantes alguns minutos. É o espectador em confronto com o espectador. É um anúncio, não  se está falando apenas de cinema, fala-se do real. O interesse é o indivíduo e não o espetáculo, o interesse é a história e não os estilismos frívolos e estéreis.

Em Amor, Emmanuelle Riva (Hiroschima, meu amor) vive a professora de música aposentada, Anne, que sofre um AVC e, com isso, vê sua vida desvanecendo. Jean-Louis Trintignant (Um Homem, Uma Mulher) é Georges, marido e companheiro de Anne, que encara a doença da esposa como uma etapa obrigatória a ser cumprida antes da parada final.

Riva e Trintignant estão excepcionais no filme. Suas atuações meticulosas encantam através da rica mise-en-scéne entre eles. Georges e Anne estão intimamente ligados e esta ligação é representada pela escolha acertada de apenas uma locação: o apartamento do casal.

Tudo se passa lá, ou melhor, quase tudo. Apenas a primeira cena destoa, mas de forma significativa. Quando Anne e Georges saem do concerto e entram em seu apartamento não saem mais de lá.

O apartamento é um ambiente elegante e soturno ao mesmo tempo. A elegância está na direção de arte. Quadros, livros, móveis representam o bom gosto e o requinte do casal, mas acima de tudo, representam o passado, ou seja, a vida. A fotografia escura e pouco contrastada dá o tom do iminente fim. Não há escapatória, a morte é um traço natural da própria vida. Vida e morte estão sempre presentes no filme, seja através das escolhas estéticas, seja através das atuações. A música clássica contrasta com os momentos de silêncio, em que apenas escutamos o rastejar sôfrego de Georges pela casa. Anne, Georges e o apartamento são os personagens principais.

Anne, ao primeiro sinal que lhe surge de que seu fim está próximo, alerta seu companheiro. São poucas palavras, mas muitos olhares e insinuações. O recado dado por Anne e ignorado por Georges, é claro, é de que ela não quer uma vida sem dignidade, uma vida sem vida. Georges a ignora, ainda não quer aceitar a situação.

A saúde de Anne apenas piora, ela perde toda sua dignidade. Anne não caminha mais, não se alimenta sozinha, não fala, apenas sofre e grita, frequentemente, “dói”, uma das poucas palavra que ainda pronuncia. E à medida que Anne perde sua dignidade, Georges perde sua vitalidade.

A filha de Anne e Georges, interpretada por Isabelle Huppert, não quer aceitar a situação, tanto da mãe, quanto do calvário do pai. Georges a interroga, “o que você sugere?”. A pergunta já contém uma afirmação, “é assim que as coisas são, não há outra possibilidade”.

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O apartamento cada vez mais cavernoso vai ganhando evidência. Uma janela no ambiente social fica quase sempre aberta, mas por ela apenas se vê uma parede, a luz natural não penetra mais. A pomba que insiste em invadir o apartamento é afastada. Na última vez que entra, antes de ser liberada, é afagada por Georges. Aquela cena comovente soa como a despedida de tudo que é vital. A vontade de pegar a pomba e a afagar antes de soltá-la é linda e triste, é uma das cenas mais angustiantes. É o adeus mais comovente.

O final é apenas sutil. Foi desenhado ao longo do filme e quando ocorre, não surpreende, muito embora burle diversos valores morais. A sensação que temos é a sensação de Georges ao aceitar seu calvário “não há outra possibilidade”. Um filme lindo e triste como a vida e a morte.

Um aviso importante: O cinema de Haneke é um cinema não propriamente difícil, mas “cru” (no bom sentido), sem artificialismos comoventes, sem firulas, sem frescuras. O que comove nele é o texto, a direção, a coerência estética e a identificação. O que pode, por vezes, angustiar algumas pessoas e constranger outras. É quase impossível vermos Haneke sem pensarmos “tão angustiante quanto a vida pode ser”. Fica a sugestão de apreciação de um cinema que cresce, principalmente, ao sair da sala, com aquelas cenas insistentes incomodando e ganhando significado a cada momento que vivemos.

Entetanto, sim, Haneke pode ser muito difícil para aquele espectador que vive ou viveu recentemente momentos semelhantes. Para esses, talvez, Amor não seja aconselhado, exceto pela experiência cinematográfica, que apesar de dolorosa nos retira da solidão dos pensamentos recônditos.

Michael Haneke, já conhecido por seu cinema “cru”, diretor de a A fita Branca e Violência Gratuita, explora com maestria os longos planos com poucos movimentos de câmera e muitos silêncio. Esse é o tom do filme, e me parece não haver tom mais acertado para se abordar um tema tão delicado, desenvolvido com igual maestria no roteiro, também seu. Amor foi indicado em cinco categorias ao Oscar, melhor filme, melhor direção, melhor atriz, melhor roteiro original e melhor filme estrangeiro (leia mais aqui).

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4 opiniões sobre “O fim em Amor, de Haneke”

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