FORÇA, SANTA MARIA!

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Escrevemos esse texto na ocasião trágica do massacre em Newtown, Connecticut, mas perece-nos muito pertinente nesse momento. Muito embora as tragédias sejam distintas, uma imprevisível e outra, fruto de uma sucessão de falhas, as coberturas jornalisticas de ambas são bastante parecidas. O sensacionalismo impera na TV, com algumas exceções, embora o rádio esteja prestando um excelente serviço aos cidadãos na tragédia de Santa Maria. 

Importante ainda salientar que a Pitanga Digital lamenta imensamente o ocorrido em Santa Maria e está extremamente chocada. Nos solidarizamos com os familiares das vítimas e desejamos muita força nesse momento difícil. O momento agora é de chorarmos nossas perdas e ajudarmos da maneira que pudermos.

A tragédia, por ser de alta previsibilidade e fruto de erros humanos merece, sim, ser debatida e apropriada pela opinião pública. Algo precisa mudar, mas é importante deixarmos reflexões e análises para o momento mais oportuno. Por ora, ao menos na televisão, prevalece o sensacionalismo, onde deveria apenas haver a prestação de serviço. Parabéns a todas as pessoas que se prontificaram a ajudar das formas possíveis. Mas é importante atentarmos ao que está acontecendo com a cobertura jornalística da tragédia: será que o que estamos consumindo tem alguma utilidade pública ou não passa de sensacionalismo e cobertura rasa? Precisamos abrir os olhos para não alimentarmos esse vício. 

Segue o texto:

Mais uma vez o mundo entrou em comoção com o incidente catastrófico envolvendo crianças, o massacre em uma escola fazendo dezenas de vítimas em Newtown, Connecticut. Mais uma chacina causada por pessoa de sério distúrbio emocional, psicológico e mais alguns que não tenho condições de mensurar.

Mas algo me comove muito mais , ou ao menos me chama bastante a atenção. O uso rotineiro de desgraças e atrocidades pela imprensa brasileira e mundial para fins meramente comerciais. O interesse não é promover um debate acerca do por que tais incidentes ocorrem, tampouco esclarecer a população que se trata de casos isolados e históricos. Trabalha-se para captar o melhor ângulo dos rostos aos prantos, o melhor depoimento aterrorizante sobre o evento, as últimas informações (irrelevantes) das investigações. Centenas de matérias escritas, centenas de matérias televisas, milhares de fotos. Todas com o mesmo conteúdo. Para que? Qual é o interesse das empresas de comunicação ao evidenciar, nessas dimensões, um desastre isolado e de impossível previsão? O que agregamos de tais coberturas jornalísticas? Nada, jamais agregamos. Apenas saciamos a nossa vontade voyeur por desgraças. Nenhuma discussão relevante é aventada, apenas consumimos desenfreadamente informações e imagens dramáticas, mas descoladas de nossas vidas. Imagens chocantes que não impedirão novos acontecimentos catastróficos, que não alterarão nossos valores e nosso tipo de educação, que serão esquecidas em dois ou três meses. Pura curiosidade, a mais infeliz vontade incontrolável de olhar para uma tragédia e dizer “que horror” e pensar “ainda bem que não é comigo”.

Alimentamos uma indústria consumindo material jornalístico sem valor algum e com isso geramos audiência, logo anunciantes. A cada novo episódio como esse, que dizima famílias inteiras e gera dores eternas, feridas que não cicatrizarão, algumas poucas pessoas geram dinheiro, usurpando até a última gota de sangue do ocorrido, para nos “presentear”  antes do concorrente. É horrendo (é pior, ainda não existe adjetivação).

De um lado, empresas jornalística transcendendo o limite do esdrúxulo, de outro, leitores e telespectadores. Em comum, a falta de ética e sensibilidade para com a dor do outro. Ou estou mentindo? Quantas crianças morrem diariamente em virtude de decisões políticas, estratégicas, racionais, ou seja, que poderiam ser evitadas caso entrassem nas pautas jornalísticas, fomentando o debate e a pressão social?

A constituição federal determina em seu artigo 221 que

Art. 221 – A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

Analisando a cobertura dada ao evento, três episódios chamaram-me a atenção e corroboram o afirmado acima. Ontem durante a abertura do Jornal Hoje, na Rede Globo, quando antes dos comerciais dá-se uma prévia das notícias que o jornal abordará, Evaristo Costa disse “nosso correspondente nos EUA dará as últimas informações da investigação sobre o massacre em Newtown”. Entra o comercial, volta para o jornal, o correspondente fala “os investigadores ainda não sabem o que motivou Adam Lanza a realizar o massacre e suicidar-se”. Durante o Fantástico do último domingo, uma família brasileira, cuja filha estudava na escola e presenciou o massacre, concedeu depoimento à Globo. Quando a menina falou e chorou, era evidente, não existia outra opção possível além daquele tacanho zoom no rosto da menina. E para finalizar, o desserviço prestado pelo programa Domingão do Faustão à população brasileira que desconhece, ou conhece superficialmente, a síndrome de Asperger, um show de horror à parte (para saber mais clique aqui). Não existem finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Não existe notícia alguma, não existem informações. É a tragédia transformada em show business, que se transforma em dinheiro com o aval de um público pouco crítico, ou com falta de opções. Não existe a promoção da cultura, tampouco a regionalização da produção cultural. Apenas um item do artigo 221 é respeitado, é o item IV, omitido acima.

IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Os nossos problemáticos valores éticos e sociais foram respeitados. É a tragédia que se multiplica por duas.

Obra do(s) artista(s) Banksy
Obra do(s) artista(s) Banksy
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Uma opinião sobre “FORÇA, SANTA MARIA!”

  1. Acompanhei a cobertura do Globo News em Pauta de hoje e achei, por enquanto, a mais completa e mais ética. Sem encher as reportagens de familiares chorando e aqueles perguntas cretinas como “o que você está sentido agora”. Eles abordaram as possíveis falhas de todos os envolvidos, desde órgãos públicos até os donos da casa noturna e etc.
    Eu acho que é saudável discutir a regulamentação da mídia, em momentos como esse é preciso ter um limite, como estudante de jornalismo eu não acho que uma certa regulamentação seja censura, como os grandes veículos brandam por aí, falta ética na cobertura jornalística em situações como em Santa Maria, Realengo, Newtown e etc …
    Adorei o texto.

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