Django Livre, Tarantino Livre

Por Camila Konrath

Django Livre é matador. Em todos os sentidos. Impetuoso, pretencioso e sagaz, tal qual o personagem de mesmo nome, fato que nem de longe ofusca seu companheiro, Dr. Schultz, o peculiar dentista e caçador de recompensas, no papel nada coadjuvante de Christoph Waltz. E quando estamos falando sobre um filme de Quentin Tarantino não há como subtrair do pensamento a ideia de que a direção e a produção de suas obras são, sobretudo, seu brinquedo favorito. Ele satiriza à exaustão, constrói os gêneros e faz questão de desconstruí-los ao longo da narrativa, ridicularizando-os e mostrando que seus filmes não se encaixam em um gênero específico e nem precisam, pois o gênero de Tarantino é tão somente… O gênero tarantino. Então, para que cair na vala comum dos filmes classificáveis?

Os gêneros cinematográficos existem para que se possa estabelecer uma relação de semelhança entre diversos filmes, identificá-los em grupos. O gênero tarantino, por colecionar diversos estilos em uma só obra e desconstruí-los com maestria, existe e segue seu próprio modelo, respeitando a presença de violência gratuita e, por consequência, muito sangue jorrando na tela. As trilhas sonoras excêntricas tornaram-se uma de suas marcas registradas, sempre muito bem compostas. Ousando ainda mais desta vez, Tarantino mistura James Brown com 2 Pac num rap que assusta o espectador, o diverte e por fim, transmite a sensação de que funcionou lindamente; as três coisas nesta ordem, durante as cenas vitoriosas do personagem Django. A receita tarantinesca segue com o livre uso de closes nos personagens, onde os olhos parecem fazer tanta comunicação quanto os intermináveis diálogos que o diretor promove em seus roteiros. E para isso, a seleção de atores é fundamental, função da qual Tarantino virou mestre há longa data. Em Django não é diferente: temos o já citado e melhor ator disparado, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson como o impetuoso escravo Stephen, numa realmente excelente atuação, e o ótimo Leonardo DiCaprio, como Calvin Candie, o rico fazendeiro destruidor de vidas de escravos. O humor peculiar e a participação de Tarantino em alguma eventual ponta ainda completam seu gênero como uma espécie de cereja do bolo.

1138856 - Django Unchained

Construído em clima western e chupado do gênero faroeste spaghetti, Django Livre (originalmente, Django Unchained) conta a história de Django (Jamie Foxx), um escravo que conquista a liberdade ao ser vendido para Dr. Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas que trabalha para o governo dos EUA. Schultz compra Django em troca de sua ajuda na busca por novos foragidos, os quais ele não saberia reconhecer o rosto. Assim, Django e Dr. Schultz iniciam uma jornada para acabar com a lista de procurados. Porém, o que Django pretende é libertar sua esposa da escravidão e nesta missão, precisa de Dr. Schultz. Para tal, os dois precisam adentrar Candyland, a fazenda de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), local onde o dono treina escravos para lutas corporais.

Django3

A temática histórica da escravidão desenha uma atmosfera tão semelhante à de Bastardos Inglórios, que seria uma missão quase impossível não estabelecer esta comparação imediata, visto que o diretor trata o tema da escravidão da mesma forma que desenvolveu o nazismo no filme anterior. E mais uma vez, Tarantino se utiliza do benefício de outras línguas (o alemão no caso de Django e Bastardos Inglórios), reconhecendo-se cult e, de certa forma, desculpando-se por suas veias norte-americanas. A ridicularização dos personagens e de seus hábitos, hoje reprováveis, faz rir e, ao mesmo tempo, transforma-se em crítica histórica com o velho lema de “lembrar para não repetir”. Em seus dois últimos filmes, Tarantino usa esses fatos históricos como uma oportunidade para dar o troco, e assim o faz, construindo seu final ideal. Inclusive, em entrevista sobre este último e oitavo longa-metragem, o diretor afirmou que pretende criar uma “trilogia da vingança”, sendo Django Livre o segundo filme dela, precedido por Bastardos Inglórios. Isso significa que teremos ainda um terceiro filme nestes moldes, uma combinação do tosco com o histórico. E o tosco é forte e corajoso.

Com todas estas semelhanças e o tema vingança atual, Tarantino continua brincando e se divertindo, enquanto muitos pensam que todos os seus filmes deveriam parecer-se com Pulp Fiction ou Cães de Aluguel. Um aviso importante aos navegantes que vão assistir Django: trata-se de um filme do Tarantino e o esdrúxulo é completamente intencional. A pretensão do diretor foi justamente ridicularizar os gêneros transformando-os em caricaturas, atentando para o que eles têm de ruim ao mesmo tempo.

Como já era de se esperar, a atuação de Christoph Waltz é impecável (repetindo a de sua estréia em Bastardos Inglórios) e nota-se que não temos outra chance, a não ser nos rendermos a seu brilho. Parece que nem Tarantino conseguiu resistir a isto, pois a história do filme está tão entrelaçada às ações do nominado coadjuvante, que não seria estranho caso o filme tivesse levado o nome de Dr. Schultz em vez de Django Livre

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