“As aventuras de Pi” e o encontro fraterno entre ciência, arte, fé e razão

AS AVENTURAS DE PI

Por Alessandra Verch

As dicotomias são antigas e o que possuem de antagônicas possuem de simbólicas. Razão x emoção, Empirismo x Fé, Objetividade X Subjetividade, Ciência X Arte. De um lado, categorias utilizadas para se apropriar (ingenuamente) do real, usurpando-o como porta-vozes legítimas da realidade (tal como acredita-se que ela é), de outro, categorias relegadas a meras construções humanas, devaneios, objetos de apreciações e adorações, por vezes vãs. Em comum o fato de serem todas narrativas, sem exceção. Um modo de contar um fato, com linguagens, signos e códigos próprios coexistindo todos como artefatos indispensáveis dentro de uma peça que pode ser perfeitamente intitulada “a humanidade e suas narrativas” ou “a riqueza da humanidade”. Esse é, talvez, o verdadeiro enredo de As aventuras de Pi, filme lançado em 2012 e dirigido por Ang Lee. O filme não é linear, pois anda a todo instante no tempo e no espaço, técnica propícia quando o interesse é captar diferentes perspectivas. Pi é um adulto que conta sua história para um escritor interessado nas suas aventuras.

Talvez diante de uma apreciação rápida fique evidente a ode à religiosidade, corroborada pelo protagonista Pi e sua relação apaixonante por distintas crenças: cristianismo, islamismo, hinduísmo e um pouco de judaísmo. O menino Pi, interpretado por Ayush Tandom, é muito religioso, curioso, dado às leituras e vegetariano (como consequência de seus valores), seu pai é um cético proprietário de um zoológico na Índia e sua mãe possui uma relação ambígua com a fé. Nasceu Piscine Monitor, nome dado por seu tio, um nadador apaixonado por piscinas e encantado pela piscina pública parisiense Piscine Monitor, segundo ele a mais cristalina de todas. Era o nome ideal para o segundo filho do casal Patel.

Seu pai, um racionalista, encarna o primeiro antagonismo do filme. A razão e a cientificidade do pai versus a fé e a religiosidade do garoto. Essa é a tônica do filme, não propriamente as dicotomias, mas as relações existentes entre as distintas interpretações e visões de mundo, entre as distintas narrativas. Estas se estruturam em redes através das relações entre os personagens do filme que convivem de forma ora harmônica, ora conflituosa. Em uma cena emblemática narrada por Pi adulto, o menino Pi tenta alimentar o tigre do zoológico, acreditando que o animal possui alma e que, portanto, pode se comunicar com ele. O pai o interrompe abruptamente, impedindo-o de (talvez) perder a vida. Segue um diálogo ríspido que diz muito sobre o filme: “Acha que esse tigre é um amigo? Ele é um animal, não um boneco!”. Pi retruca, chorando: “Animais têm alma, eu vi nos olhos dele”, “Animais não pensam como nós… Quando olha nos olhos dele você vê suas emoções refletindo de volta, nada mais!”, afirma o pai. O pai evidencia, encarnando tipicamente o empirista, a sua teoria. Amarra uma cabra à grade e o tigre a devora em segundos. Aquilo atormenta as crenças do menino.

Por acaso, Pi conhece seu primeiro amor. O relato do adulto Pi baseia-se nas coincidências que levaram ao encontro e à paixão imediata, mas a interpretação do fato pelo jovem Pi, interpretado por Suraj Sharma, é outra. Um amor fulminante interrompido pela crise da família e pela decisão do pai de viajar para o Canadá com toda a família e com seus animais, pois estes poderiam ser vendidos na América. Embarcam todos em um navio, inclusive os animais. Devido a uma forte tormenta o navio naufraga, restando em um bote apena Pi, uma zebra, uma hiena, um orangotango e o tigre. Pi perde a família inteira e agora precisa lutar por sua sobrevivência. A hiena mata a zebra e o orangotango, o tigre devora a hiena. Restam Pi e o tigre. As cenas são belíssimas. A fotografia e a finalização remetem aos quadros oníricos e surreais de Dalí. O temor, o vazio, a imensidão, a luta e a solidão estão presentes. O garoto precisa se alimentar e precisa alimentar o tigre, caso contrário, virará o alimento do animal.

Aqui, de forma interessante, permanecem as disputas entre as narrativas, mesmo presente apenas um personagem humano do filme. Pi já as incorporou, provavelmente todas já coexistiam silenciosas no menino, esperando apenas o momento correto para materializarem-se. A cientificidade o ajuda nas estratégias de sobrevivência e na elaboração (com auxílio do kit de sobrevivência) de um “extra-bote”, que o mantém flutuante fora do bote, onde se encontra o tigre. A fé e a religiosidade estão nos diálogos do personagem com a fúria da natureza e com o próprio tigre, estão também em sua incansável vontade de domá-lo, de comunicar-se com ele e de sobreviver.

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Pi sobrevive, mas diante da descrença dos técnicos encarregados em investigar o acidente, é obrigado a inventar outra história. Uma história mais “verossímil”, uma história mais “realista”. As aventuras de Pi podem ser as aventuras da humanidade, onde fé, ciência, arte e religião convivem juntas como formas interpretativas não antagônicas, como modos distintos de apreender o mundo, de conhecê-lo. Escolhemos entre as diversas narrativas a que mais nos agrada, a que mais nos comove.

O mar em Pi é a imensidão do mundo, seu aspecto reflexivo é um signo. Assim como os olhos do tigre, o mar (ou o mundo) é um reflexo das projeções que lançamos sobre ele. Na realidade são apenas cristalinos, como a Piscine Monitor, são vazios de significados. A capacidade de preenchê-los com a riqueza da cientificidade ou a beleza e a poesia da fé é, tão somente, humana. O significado é dado por nós. Não há formas mais corretas ou menos corretas, não há duelos. Os duelos são falsos, ou melhor, são desconstruídos ao longo do filme, pois todos perdem de vista que todas as narrativas são construções humanas, não somente a arte, não somente a religiosidade, mas também a ciência e a objetividade. Não há dado, há o olhar. O olhar que fita e completa de significado o objeto que olha.

Um filme belíssimo permeado de metáforas ricas e muito bem exploradas. Apenas um porém: o filme perde um pouco de sua visceralidade e fôlego (trocadilho à parte) pelo longo duelo travado em alto mar entre Pi e o tigre, que ocupa boa parte do filme e que poderia ser feito de forma mais sintética, não mais vazia. Algumas cenas parecem repetitivas e poderiam ser dispensadas, optando por uma distribuição mais equitativa entre passado e presente. O personagem cativante de Pi adulto, interpretado de forma comovente por Irrfan Khan, tece diálogos interessantes com o escritor (pouco utilizado e interpretado por Rafe Spall), diálogos muito breves, mas cheios de poesia, diálogos que carecem de maior durabilidade.

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A fotografia é maravilhosa, mas perde sua riqueza pelo uso extensivo (e indispensável) dos belos efeitos visuais. Tudo está perfeito: direção, atuações, fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem, montagem, finalização, efeitos visuais. Todos os elementos estão em consonância e contribuindo para contar da melhor maneira possível a adaptação de David Magee do livro de Yann Martel (inspirado no brasileiro “Max e os felinos, de Moacyr Scliar) sob a batuta de Ang Lee. Lee já havia, há tempos, provado sua singularidade e inscreve com As aventuras de Pi mais uma bela obra na cinematografia mundial.

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