Afinal, o que é sustentabilidade?

Por Alessandra Verch

1391613_15195027

É bastante frequente a confusão sobre esse conceito. Quando falamos em sustentabilidade ou em desenvolvimento sustentável muitos, imediatamente, associam à ecologia ou ao respeito ao meio ambiente e à preservação da natureza. Nesse entendimento está, por exemplo, a preservação de espécies animais raras, bem como ecossistemas. O conceito empregado dessa forma se esgotaria, portanto, nas demandas de ambientalistas e ecologistas. Acontece que essa preocupação (ou premissa) não dá conta do amplo e complexo conceito da sustentabilidade.

O conceito de sustentabilidade, bastante popular hoje em dia, tem como processo embrionário o desenvolvido, em meados dos anos 1950, de outro conceito, o de “responsabilidade social empresarial”. O termo originalmente cunhado como “social accountability” entrou em discussão nas universidades norte-americanas e promovia a ideia de que empresas deveriam atuar positivamente na sociedade, trabalhando pela promoção da justiça social e melhorando as condições globais e locais de trabalho. As discussões acadêmicas avançaram e tomaram conta do ambiente político e social, pautando as novas percepções sociais sobre as responsabilidades de uma empresa. Salientava-se que esta não poderia mais eximir-se das consequências de suas atividades. Diversas normas, certificações, normatizações e mesmo, leis, guardam uma mesma origem, o desenvolvimento da responsabilidade social da empresa.

Combate ao trabalho forçado, carga horária compatível com qualidade de vida, combate ao trabalho infantil, local de trabalho seguro e saudável, combate às várias discriminações, entre outras medidas, pautam, atualmente, a Certificação de Responsabilidade Social (SA 8000). É evidente que, por exemplo, o uso de mão de obra infantil constitui crime no Brasil, e mesmo empresas que não possuem essa certificação são obrigadas a respeitar esse requisito, mas quando se adquire uma certificação como essa, a empresa externa para a sociedade uma série de responsabilidades sociais que estão além da simples enunciação de “nós estamos dentro da lei”. O discurso passa a ser “nós repudiamos essa prática”. Altera-se o sentido de respeito à lei para a promoção indireta da mesma junto à sociedade, uma lei nascida das novas exigências e direitos da sociedade. E agora um breve parêntese é preciso ser feito. A busca por certificações como essas não é uma simples estratégia de marketing visando auferir mais lucros. Mudar valores que norteiam a organização é extremamente custoso e trabalhoso e o argumento da lucratividade torna-se insuficiente para promover essa mudança, é preciso que o empresariado a deseje, acima de tudo, por querer produzir de forma humanizada e em consonância com o momento histórico em que vive. É claro que muitas empresas almejam tais certificações para tornarem-se mais competitivas, pois desta forma tornam-se mais respeitadas pela população. Porém, quando se fala em competitividade ou em lucratividade uma luz pisca e, muitas vezes, somos estimulados a repudiar práticas, que em outras circunstâncias elogiaríamos, analisando de forma maniqueísta e dicotômica empresariado e população, ou mercado e sociedade, como se este não pertencesse àquele, e pior, como se toda a classe empresarial fosse representada por grandes empresários, riquíssimos e pouco éticos. E fecho o parêntese.

990286_45374245

Logo após o surgimento da noção de responsabilidade social nos anos 1960, a bióloga Rachel Carson publica o livro Primavera Silenciosa e contribui fortemente para a perspectiva de que tudo está inter-relacionado: sociedade, economia e meio ambiente. A autora foca-se, sobretudo, nas responsabilidades da sociedade (com o mercado inserido nessa categoria) com os prejuízos causados à natureza, logo ao ser Humano. Não se trata mais de uma abordagem dicotômica que coloca natureza em oposição ao ser Humano, estamos intimamente ligados e dependemos do meio ambiente em que estamos inseridos, defendeu a autora. Para Carson “A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida, sem se destruir a si mesma e sem perder o direito de ser chamada de ‘civilização’”. O livro é considerado um marco, contribuindo também para a abordagem contemporânea da sustentabilidade. Primavera Silenciosa, contribuiu para o amadurecimento do próprio conceito através uma abordagem que não via Estado, sociedade e mercado como esferas impermeáveis entre si, mas sim, enxergava nestas, trocas constantes e contornos muito borrados.

Ambas as esferas, através dessas trocas, contribuem para a formação de um discurso que determina o que pode, o que não pode e o que deve ser feito no âmbito empresarial, social, político, etc. Quais práticas são legítimas, quais práticas não condizem mais com a sociedade em que ocorrem e devem ser deslegitimadas, quais são os novos direitos a serem garantidos, quais são as novas proibições, etc.. Pode-se afirmar que tudo isso pertence a um quadro amplo de desenvolvimento da humanidade, onde responsabilidades anteriores mudam, novas responsabilidades surgem ou são anuladas. Quando falo em trocas, não falo em dádiva, em retribuições ou em trocas amenas e “românticas”, o termo pode, perfeitamente, englobar protestos e ativismos vários, o que não pode escapar é a permeabilidade entre distintas esferas.

Já em 1987 a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), lançou o relatório “Nosso Futuro Comum” e definiu desenvolvimento sustentável como aquele “capaz de permitir a satisfação das necessidades da geração presente sem comprometer a satisfação das necessidades e a sobrevivência das gerações futuras”. Presidida por Gro Brundtland, primeira-ministra da Noruega, a comissão é historicamente conhecida como Comissão Brundtland e tinha como responsabilidade estudar as relações entre desenvolvimento econômico e conservação do meio ambiente. As conclusões da comissão ecoaram pelo mundo e mudaram de vez a percepção antiquada de que a natureza era inesgotável.

Vimos, portanto, nos anos 1950 a preocupação social imperar. Era o auge da revolução fordista e os problemas que esse tipo de organização administrativa causava à sociedade eram visíveis, inserindo o debate acerca das relações trabalhistas nas agendas políticas e sociais. Nas décadas subsequentes, novas responsabilidades, era o meio ambiente que pedia socorro.

É por isso que o conceito Sustentabilidade abriga em seu conteúdo pelo menos 3 outros conceitos (ou dimensões): a social, a ambiental e a econômica (alguns teóricos atribuem até oito dimensões), o que contraria a percepção de que para sermos sustentáveis basta sermos ecologicamente corretos.

Essa abordagem é conhecida como Triple Botton Line e começou a ser construída lá atrás, através da noção de responsabilidade social. Para sermos sustentáveis precisamos ser, portanto, socialmente responsáveis, ambientalmente corretos e economicamente eficientes.

No aspecto econômico, a urgência pela eficiência visando o uso racional dos recursos disponíveis e organizações pautadas na inovação para produzir mais gerando menos impacto ambiental e consumindo menos recursos naturais é a principal premissa para uma economia sustentável.

Temos, no aspecto social, o respeito à diferença, sem que essas se transformem em desigualdades e a prevalência da ética, da justiça e da solidariedade. Equidade de gênero, empoderamento e equidade social, respeito e valorização das identidades culturais do território, enfim, um ambiente socialmente justo é onde todos possuem acesso à educação, saúde, mercado de trabalho, cultura e lazer sem distinções ou preconceitos, valorando particularidades e traços culturais que enriquecem a sociedade. Portanto, medidas que visem eliminar a pobreza, o analfabetismo, a discriminação, etc, são medidas que se inserem na agenda da sustentabilidade, entra tantas outras medidas.

Por fim, no aspecto ambiental temos a necessidade da preservação dos ecossistemas, a manutenção do clima, o fortalecimento da biodiversidade e, principalmente, a necessária percepção de que somos parte da natureza, e não superiores a ela.

Para promovermos a sustentabilidade é necessário observarmos pelo menos essas três dimensões de seu conteúdo. Todas essas exigências são de responsabilidade de todos, devemos incorporá-las e exigir sua implementação em distintos ambiente, seja junto à casas legislativas, contribuindo para a formulação de leis e as diversas fiscalizações, seja junto a empresa em que trabalhamos, observando se práticas se coadunam com as responsabilidades modernas, como por exemplo, respeito no ambiente de trabalho, menor consumo de energia, garantia dos direitos trabalhistas, estímulo à contratação de pessoas com deficiências físicas, equidade de salário entre homens e mulheres que ocupam cargos equivalentes, reaproveitamento e reciclagem de materiais inutilizados, etc.

461464_26250223

Podemos ser ecologicamente corretos, sem sermos sustentáveis. Pois a sustentabilidade implica em compreendermos o fato de que nossas atitudes impactam, positiva ou negativamente o mundo (e não só a flora e a fauna). Reiterando, práticas sustentáveis pautam-se por ações economicamente eficientes, socialmente responsáveis e ambientalmente corretas, ou seja, boas para economia, boas para a sociedade e boas para o meio ambiente, sem assimetrias ou negligência entre estas.

Anúncios

3 opiniões sobre “Afinal, o que é sustentabilidade?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s