Imprudência no trânsito: morte ou lesão medular? o que você escolhe?

Por Alessandra Verch.

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Nunca é demais salientar os riscos da imprudência no trânsito, principalmente em vésperas de feriados. Dirigir sob efeito de álcool e outras drogas, com sono ou de forma agressiva é o principal causador de vítimas no trânsito. Segundo pesquisa realizada no Hospital Sarah Brasília intitulada “Qualidade de vida em pessoas com lesão medular”[i] de Bampi, Guilhem e Lima, os acidentes de trânsito estão em primeiro lugar na etiologia das lesões medulares. Foram entrevistadas 111 pessoas com esse tipo de lesão no momento de sua admissão hospitalar, destas 49,6% com lesões decorrentes de acidente de trânsito. A pesquisa ainda apontou para a discrepância entre os sexos, para cada mulher lesionada havia 5,5 homens.

A prevalência de homens jovens (com menos de 25 anos) em acidentes de trânsito é um indício da elevada imprudência destes, mas esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Segundo o “Mapa da Violência 2011: Acidentes de Trânsito” o “relatório recente da Organização Mundial da Saúde destaca que, anualmente, morrem quase 400.000 jovens de menos de 25 anos de idade vítimas de acidentes de trânsito, e vários milhões sofrem ferimentos graves ou tornam-se incapacitados. (…) A maior parte delas está nos países de renda baixa ou média (…) podemos verificar que o Brasil está diante de um problema internacional. Mas, pelo volume que destacamos no Mapa – as taxas situam o Brasil entre os 10 países com maiores índices de mortalidade no trânsito –, a intensidade do problema aqui é grave e preocupante”.

Homens representam cerca de 90% dos acidentes envolvendo bicicletas, motos e caminhão e ¾ das vítimas de acidentes automobilísticos, de acordo com o Mapa[ii]. Dados do governo informam que a cada 57 segundos ocorre um acidente de trânsito no Brasil, destes 75% ocorrem por causas humanas e apenas 6% são causados devido à deficiência nas vias. Os acidentes de trânsito são o segundo maior problema de saúde pública do Brasil, ficando atrás apenas da desnutrição. Matam cerca de 45 mil pessoas por ano (3ª causa mortis no Brasil) e ferem mais de 370 mil anualmente, deixando sequelas irreversíveis para 60% dos acidentados sobreviventes.

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A lesão medular está entre as sequelas permanentes de maior intensidade e é caracterizada por “alterações das funções motora, sensitiva e autônoma, implicando perda parcial ou total dos movimentos voluntários ou da sensibilidade em membros superiores e/ou inferiores e alterações no funcionamento do sistema urinário, intestinal, respiratório, circulatório, sexual e reprodutor” como alertam os pesquisadores Bampi, Guilhem e Lima. Estes evidenciaram a piora significativa da qualidade de vida dos lesionados, indicando que a gravidade e a irreversibilidade da lesão medular obrigam a um processo de reabilitação longo e doloroso.

Em outro estudo intitulado “Dor no paciente com lesão medular: uma revisão”[iii] de Marcia de Miguel e Durval Kraychete, que analisou diversos trabalhos sobre o tema, a qualidade de vida teve significativa piora devido à incidência de dores crônicas após a lesão. Os pesquisadores afirmam que “a dor crônica após a lesão medular é uma condição de alta prevalência e de difícil tratamento” e afetam cerca de 64% a 84% das pessoas.

A lesão impõe dificuldades substanciais às pessoas e, não raro, a dependência total do lesionado a familiares ou terceiros. A elevação de suas taxas devido, principalmente, aos acidentes de trânsito torna urgente medidas políticas efetivas que atuem sobre esse tipo de violência. Diversos estudos argumentam que os acidentes de trânsito são de alta previsibilidade, o que facilita atuação política.

Campanhas governamentais, de ONG’s, fundações e outras instituições que optam por chocar o público mostram-se frutíferas em países europeus e na Austrália, mas não são utilizadas no Brasil devido a abordagem polêmica que divide opiniões de pesquisadores e formuladores de políticas públicas. Roberta Torres de Lima[iv], especialista em gestão, educação e segurança no trânsito, classificou em 8 os estilos das campanhas educativas (chocante, choque implícito, poética/positiva, cômica, racional, mobilizadora e infantil) e mostrou que as campanhas consideradas chocantes que “tem como objetivo abalar, impactar e chocar o público” não são comuns no Brasil, mas alguns especialistas defendem a ideia de que são essas as campanhas que dariam resultados melhores aqui. Os investimentos em educação para trânsito no país são notáveis e envolvem desde intervenções artísticas em semáforos à peças audiovisuais para TV e outras mídias, mas são medidas ainda pouco efetivas e pecam pela falta de organização, definição de foco, estilo e público, segundo aponta a especialista.

Exemplos de campanhas internacionais chocantes são: a série de vídeos “Nemyslis-zaplatis” (não acha que você paga!), da República Tcheca (disponível aqui), a campanha australiana “Street Power” (disponível aqui), a campanha irlandesa “The faster Speed” (disponível aqui) e a campanha britânica cujo slogan é “dirija com cuidado, você é forte, mas não é invencível” (disponível aqui).

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Vale ainda ressaltar que os acidentes de trânsito são aqueles que ocorrem em vias públicas terrestres envolvendo pedestres, ciclistas, motos, carros, caminhões e/ou ônibus, e tendem a elevar-se em feriados. Enquanto você leu esse texto é possível que quatro pessoas tenham se acidentado gravemente no trânsito.

Em 2012 o mundo não acabou, mas a sua vida ainda pode acabar. Dirija com respeito pela sua vida e pela vida dos outros.


[i] BAMPI, Luciana Neves da Silva; GUILHEM, Dirce  e  LIMA, David Duarte. Qualidade de vida em pessoas com lesão medular traumática: um estudo com o WHOQOL-bref. Rev. bras. epidemiol. [online]. 2008, vol.11, n.1 [citado  2012-12-26], pp. 67-77 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2008000100006&lng=pt&nrm=iso&gt;.

[ii] Disponível em http://mapadaviolencia.org.br/pdf2011/acidentes_transito.pdf

[iii] MIGUEL, Marcia de  and  KRAYCHETE, Durval Campos. Dor no paciente com lesão medular: uma revisão. Rev. Bras. Anestesiol. [online]. 2009, vol.59, n.3 [cited  2012-12-26], pp. 350-357 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-70942009000300011&lng=en&nrm=iso&gt;

[iv] Estudo disponível em http://www.posgraduar.com.br/Monografias/P%F3s-Gradua%E7%E3o/Gest%E3o,%20Educa%E7%E3o%20e%20Seguran%E7a%20do%20Tr%E2nsito/CLASSIFICA%C7%C3O%20DE%20CAMPANHAS%20EDUCATIVAS%20DE%20TR%C2NSITO-%20Roberta%20Torres%20Lima.pdf

 

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