Por que comemos o que comemos?

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Por Alessandra Verch

As manchetes acima são bastante características das transformações ocorridas com os padrões alimentares ao longo dos últimos anos, principalmente nos centros urbanos, mas também em zonas rurais. A substituição acelerada de alimentos in natura, com menores quantidades de calorias, gorduras, sódio, corantes, adoçantes, etc., por alimentos processados é um dado consumado.

Refeições mais rápidas não são apenas facilidades da vida quotidiana nas cidades, são, sim, imperativos do momento em que a velocidade é um valor fundamental. Porém, juntamente com o benefício da praticidade, elas trazem problemas cada vez mais comuns, como a carência nutricional e a obesidade, acompanhada de doenças cardíacas e neurológicas graves. E não faltam pessoas que apontem os “verdadeiros vilões” da saúde.

Produtos industrializados de fácil manejo e preparo são frequentemente escolhidos como algozes. Para o antropólogo, Igor De Garine “É certo que o advento da civilização industrial urbana tem modificado consideravelmente a relação do homem com sua alimentação. Esta relação é agora independente do tempo e do espaço. Desde que se disponha dos meios necessários, é hoje possível em certas sociedades consumir qualquer coisa, em qualquer momento, lugar ou quantidade”. É certo que alguns produtos são, de fato, vilões da saúde, mas por que os colocamos em nossas dispensas ou geladeiras? Como é possível ocorrer uma alteração alimentar tão profunda sem benefícios algum para a saúde humana?

No entanto, a questão é complexa e não possui um único culpado. A globalização de um certo padrão alimentar[i], por exemplo, também é responsável pela disseminação da obesidade (em alguns países fala-se em epidemia da obesidade). Novos produtos foram sendo produzidos e disponibilizados para suprir as novas demandas do padrão de vida moderno. Porém esses produtos, devido a necessidade de uma validade mais estendida, perdiam a riqueza nutricional de alimentos in natura essenciais para a saúde, como vegetais e frutas. Sendo constituídos essencialmente de carboidratos, gorduras e açucares, o consumo frequente de alimentos processados é apontado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como responsável por diversas doenças crônicas.

É inquestionável que vários fatores incidem sobre a escolha alimentar das pessoas: psicológicos, sociais, econômicos, geográficos, culturais, etc. E são, justamente, os fatores externos a nós que mais fortemente limitam (ou condicionam) o que comeremos.

Outro fator relacionado a mudança de hábitos alimentares e os consequentes prejuízos à saúde: a indústria alimentícia cresceu de forma acelerada a partir da década de 1950 e conquistou espaços em áreas estratégicas dos governos, contribuindo fortemente para a precária regulação dos produtos alimentícios industrializados disponibilizados no mercado, em detrimento da saúde coletiva. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Ganha o mercado a partir da diversificação do consumo de produtos com valor agregado, perde a sociedade pela escassez nutricional desse produto, além das características inerentes a produtos alimentícios “de gôndolas”, de fácil armazenamento (alto teor de conservantes, sódio, corantes, etc). Não é coincidência que produtos naturais, “matérias primas”, com baixo valor agregado tenham sido preteridos em sociedades modernas e urbanizadas por produtos alimentares manufaturados. São esses produtos os mais promovidos, mais anunciados, logo, são os mais vendidos e consumidos.

Escolhas políticas como o desestímulo às cadeias curtas de comércio de alimentos, desconectando consumidores de produtores rurais e privilegiando grandes redes de abastecimento, assim como a modernização da agricultura (ou o chamado modelo produtivista), também se tornam corresponsáveis pelo padrão alimentar de áreas urbanas. Optar pelo supermercado em vez da feira, não é meramente uma decisão individual, é uma decisão política. Escolhe-se uma forma primordial para o abastecimento alimentar da cidade e esta forma, infelizmente, não se relaciona, exclusivamente, com a saúde coletiva.

Quando se escolhe um produto em detrimento de outros não são apenas vontades subjetivas e individuais, ou mesmo aspectos culturais, que determinam a escolha. Escolhe-se diante de opções e hábitos, opções limitadas e hábitos construídos há diversos anos com o estímulo do poder público, econômico, midiático, entre outros. É imprescindível atentarmos para os nossos padrões alimentares de forma criteriosa, buscando todas as variáveis que incidem sobre ele, pois a relação entre alimentação e doenças tem se mostrado cada vez mais inequívoca. Isso sem falar na relação alimentação e meio-ambiente. É necessário refletirmos para propormos mudanças em diversas esferas, visando a valorização de um outro consumo alimentar e o resgate de antigos hábitos, não só para o benefício individual, mas, sobretudo, para o benefício coletivo.


[i] Para saber mais sobre a globalização alimentar e a desterritorialização do alimento ver GARCIA, R.W. D. Reflexos da globalização na cultura alimentar: considerações sobre as mudanças na alimentação urbana.

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