Uma reflexão sobre feminismo

Por Camila Konrath.

Preocupo-me com as construções do feminismo. Leio alguns discursos e me engasgo com os conteúdos. Tenho vontade de gritar e sacudir as pessoas, atentar para o fato de que o feminismo não é a vontade das mulheres serem iguais aos homens, nem segui-los, nem de dominá-los. A necessidade de mudança é muito mais abrangente nesse sentido e fala mais alto o sentido da mulher como ser pensante e dona de seu próprio destino. Não se trata de uma luta para conquistar o direito de errar ou de não ter caráter no estilo “Eles podem fazer merda, eu também posso”. Não! Este conceito está desprendido dos modelos de referência masculinos porque não necessita de algum modelo específico para que seja implantado o princípio simples da liberdade: o que queremos é tudo que desejarmos para as nossas vidas. E, por favor, não confunda escolhas de liberdade e independência com meras contribuições a dores alheias. Escolher caminhos ainda significa ser responsável por eles e só há uma referência necessária para o convívio: o respeito. Liberdade e irresponsabilidade são coisas bem distintas. Sabe aquela velha frase do Pequeno Príncipe dizendo “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”? Eu uso, gosto e recomendo para todos os seres vivos.

É importante notar que este tipo de assunto relacionado a fatos sociais está em constante modificação. Nossas avós, por mais feministas e independentes que pudessem ser na juventude, ainda assim, não pensavam a respeito da mulher no contexto sociedade e em suas possibilidades como pensadoras, suas demandas, igual pensamos nós. Eram outras revoluções. Temos as nossas próprias. Longe de mim negar  a contribuição das nossas mães, avós, tataravós, e todas as outras mulheres. Foi fundamental para o que somos e conquistamos. Essa retrospectiva histórica da libertação da mulher, da libertação dos moldes religiosos, do que significa uma família é essencial. Ela, inevitavelmente, me lembra as pessoas que insistem em falar que o feminismo é uma causa que não existe ou que é uma luta ganha há muito tempo. Ok, eu fico contente por quem não sofre e, ao mesmo tempo, triste por quem não vê. Imaginem que todas as avós do mundo tivessem pensado dessa maneira depois de terem conquistado o direito ao estudo ou ao voto, por exemplo. Onde estaríamos a essa altura do campeonato? Todas em casa cozinhando, lavando e passando roupas? Seria essa ainda a profissão feminina padrão?

Vamos por partes: não me leve a mal, isso não é uma crítica contra as donas de casa. É realmente muito difícil cuidar do lar! Porém, a questão não é a atividade em si, é o padrão. É a infeliz percepção transformada em discurso piadista e de quase dito popular (para tornar-se menos indigesto) de que todas nós devemos ser criadas para fazer a mesma coisa. Essa é a verdadeira mutilação das nossas habilidades e oportunidades. Não conseguiria aceitar – apaticamente –  ser uma mulher destinada a trabalhar para o resto da vida numa atividade que não fosse de escolha própria. Pior do que um trabalho ruim onde a compensação vem no final do mês, é uma tarefa transformada em sina da qual jamais poderia me livrar por ser reconhecida como tal pessoa que possui uma vagina.

Estou ciente das minhas infinitas possibilidades, ainda que protestando e lutando, ainda que reclamando pra não ter meus sonhos destruídos. Porém, não me satisfaço até que todas as mulheres também possam aumentar o número de portas e janelas nas suas vidas. Fomentemos o protagonismo em todos os âmbitos, em todos os gêneros, em todas as cores, em todas as formas. Contudo, a construção do protagonismo feminino fica bastante comprometida para aquelas pessoas que sempre escutaram que nosso papel é invariavelmente o de coadjuvante. “A mulher é romântica e sensível, o homem, prático e grosseiro”. Quem construiu essa verdade? Vivemos em uma sociedade na qual a mulher solteira é vista como uma derrotada que precisa aprender a fazer tarefas domésticas para arranjar marido, que precisa agradar o homem e não questioná-lo. Que é necessário ainda estar impecável e super depilada para um cara que nunca sofreu o mesmo grau de exigência. Jamais foi cobrado e julgado por fazer as coisas que estivesse com vontade e assim o faz, e assim torna-se admirável de qualquer maneira.

Felizmente, estamos nos descobrindo, nos unindo e cada vez mais a questionar nossas velhas opiniões. Paramos para refletir sobre o quanto já fomos encorajadas a falar mal umas das outras, nos destratarmos, sermos inimigas. Pensemos sobre o por que de usarmos adjetivos negativos para classificar quem usa roupas diferentes das nossas ou mais decotadas. Ou em quantas vezes uma mulher sensual se tornou uma ameaça para outra. Pensemos de que forma um homem poderia ser, vestir ou agir para ser julgado como somos. Ele seria chamado também de vagabundo? Puto? Piranho? A distância entre os tratamentos é tão grande que estes adjetivos nem existem para homens, sequer carregam uma conotação negativa. Já nasceram desconstruídos pela falta de legitimação e não servem como ofensa. Desconstrução. Nos chamam de vadias? Ótimo, somos todas vadias!

marcha das vadias manifestante-em-curitiba-prO que me preocupa além da realidade que já enfrentamos no dia a dia (a de quem enxerga a opressão em sua forma mais sutil) são algumas pessoas fazendo denúncias, tratando os casos de machismo como pessoais e particulares (vide xingamentos na internet sobre blogs , etc). O que acontece é uma constante exposição de indivíduos, quase uma realidade paralela onde o machismo parece ser um caso à parte, um caso particular. Há que se ter muito cuidado sobre isto porque a dimensão do comportamento machista é maior do que casos isolados. E nem sempre a dissipação do conceito é consciente,  me arriscaria a dizer que na maior parte delas, não é. É totalmente compreensível que se leve para o lado pessoal quando o cansaço nos convida à raiva, mas é importante para o desenvolvimento do debate e das mudanças que se entenda também que o machismo é algo incrustado há muito tempo. Seríamos justos se o transformássemos em culpa deste ou daquele? Gritar e fazer protesto, acho digno. E por que não tentarmos a compreensão na diplomacia também? Ainda há gente bastante disposta a escutar. Tenho certeza que uma conversa poderia ter evitado muitas guerras.

Algumas pessoas criam rótulos para taxar os homens machistas, devolvendo ofensas e criando discussões rasas e prepotentes (minha percepção sobre a forma como lidam com o assunto). O resultado é uma luta deslegitimada porque rouba dela, sem dó nem piedade, todo o sentido de liberdade e respeito que há muito é construído com dedicação. Não vejo como me diferenciaria de um comportamento do qual critico, se me comportasse igual, criando mais rótulos e obstáculos, crucificando as pessoas que ainda não abandonaram a velha venda das convenções sociais.blogueiras feministasQuanto ao padrão de beleza e estereótipos a serem seguidos, posso dar-lhes a certeza de só existir um: ser você mesmo. Pode ser o que bem entender e expressar-se através da roupa, do cabelo, dos gestos, e por que não, escolher cuidar da casa se assim preferir? Se permitir ser a puta, a santa, a sexy, a bonita, a louca, a tímida, a dona de casa, a independente ou todas essas coisas ao mesmo tempo porque assim deseja e não precisa preocupar-se com julgamentos dos observadores mais amargos. Realizar nossos desejos diz respeito a nós mesmas e mais ninguém. Eis o protagonismo. Porque o mundo que queremos é o mundo em que o respeito à diversidade signifique, sobretudo, não sairmos por aí achando que temos a receita de como as outras pessoas devem ou não ser/fazer/pensar (por favor!). Tenho certeza que esta demanda não é somente das feministas, mas de todos que já sentiram o peso do senso comum maldoso sobre suas cabeças.

Você acha que o tema é batido? 

Sabe, o feminismo não é um tema batido para quem precisa conviver com pessoas dizendo como se comportar, vestir, fazer, ser, quase todo dia porque é mulher. Não é suficiente a conversa repetitiva das feministas quando uma mulher não pode estacionar um carro sem ser observada por outros homens que vão aprovar ou não a tal baliza. Não é suficiente o discurso quando amigos ou família resolvem julgar a mulher porque ficam sabendo que ela bebe cerveja e, às vezes, fuma e mulher bebendo e fumando “é feio”. Ainda não chegou de falar sobre isso quando taxamos o que é brincadeira de menino e o que é brincadeira de menina. Não é suficiente quando a mulher tem 23 anos e o tio pergunta se ela é lésbica porque não apresentou um namorado oficial à família. Não é suficiente quando pessoas ainda dizem que mulher gosta de apanhar quando veem uma notícia na TV sobre um cara que agrediu a esposa, e não foi a primeira vez (aquela velha conversa da culpa ser sempre dela). Não basta o discurso quando a menina toma a iniciativa na festa e é chamada de vagabunda por ter feito o que tinha vontade. Não estamos esgotados do assunto quando ainda é estranho uma mulher gostar mais de sexo que o homem ou falar abertamente sobre masturbação. Ou enquanto ser solteira significar uma derrota. Ainda não terminamos o debate quando a roupa é entendida como “convite ao estupro”. Ainda não pode acabar a luta e o discurso quando mulheres são estupradas diariamente e, além de tudo, “a culpa é delas” por se vestirem de forma sexy. Ou enquanto mulheres ainda vão automaticamente para cozinha depois do almoço e os homens ficam jogados no sofá da sala. Enquanto culhões forem sinônimo de coragem e ovários significarem NADA e quando dentro das convenções sociais e do senso comum a mulher ainda for depreciada e inferiorizada, falar de feminismo ainda será importante.

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5 opiniões sobre “Uma reflexão sobre feminismo”

  1. Já fui e continuo sendo alvo de todas estas simploriedades machistas… Acho q chamo de simploriedade como forma de perdão! Resumindo, 52 anos sendo alvo de críticas. Não me deixo abalar por ninguém… afinal eu faço minha liberdade, e o q é mais importante: sou megafeliz!!! Parabéns para todas nós q escolhemos e fazemos o q gostamos!

  2. Texto muito bom! Dói muito ouvir que todas as causas femininas já foram ganhas, que o feminismo quer masculinizar as mulheres ou que a sociedade só funciona porque tem papéis de gênero bem definidos. E ouvir essse conjuto de barbaridades no ambiente acadêmicotador! sempre me faz achar tudo mais nocivo e assut EeeE ou

  3. O problema é que o machismo é como um quarentão dinossauramente imaturo e o feminismo é como uma adolescente inteligente, cheia de objetivos, mas muito porra louca… Ainda vai demorar muito pra essa convivência ter algo perto da palavra: “harmonismo”

  4. Ótimo texto,Sou totalmente a favor do feminismo, já passou do tempo das Mulheres se imporem como seres totalmente responsáveis por seus destinos e quebrar com os paradigmas da sociedade em que vivemos. A luta não será fácil, pois a origem do machismo que vivemos foi resultado de Milhares de anos da imposição do macho sobre a fêmea devido a importância das atividades que cada se encarregava, mas há muito que tais padrões pré-históricos não se encaixam mais na nossa Sociedade pois, diferente das outras espécies, nós somos “Racionais” e com isso a nossa evolução deve caminhar para a Igualdade e Respeito entre os Sexos, uma vez que as Mulheres são tão capazes quanto os Homens. Acontece que o mundo evoluiu muito Materialmente falando, mas a Mentalidade da maioria continua “da Idade da Pedra”. Cabe a vocês se Unirem e mudarem a visão de mundo que hoje nos é imposta. Muito já foi conquistado, mas ainda há muita luta pela frente. Os Homens podem ser responsáveis por muito nesta sociedade machista, mas o comportamento feminino que compactua com esta sociedade também é igualmente responsável.Quanto a questão do pensar, falar e vestir o que quiser, a frase ” As Mulheres se vestem para outras Mulheres” é só um exemplo de como vocês são as que mais se julgam. Vocês junto com a mídia são as principais responsáveis pela prisão de estereótipos que vivem, e não será fácil esclarecer a mente de tantas que não vêem nada de errado nisso tudo. É preciso também nesta luta discernir o Movimento Feminista do culto ao ódio contra os Homens, que é a ideia que muitas “rebeldes sem causa” adotam para levantar a bandeira do Feminismo( já presenciei diversas vezes), muitas vezes causando uma má impressão do Movimento, que perde o seu verdadeiro significado em meio a ignorância de algumas. Fico muito triste em saber que poucas são aquelas que realmente conseguem ver que está tudo errado, e refletir com Lucidez sobre a sociedade em que vivemos como a Camila, autora do texto. Desejo forças na luta pela Igualdade e Liberdade da Mulher! A Harmonia é a chave para o futuro.

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