Uma catástrofe, duas tragédias

Por Alessandra Verch.

Obra do(s) artista(s) Banksy
Obra do(s) artista(s) Banksy

Mais uma vez o mundo entrou em comoção com o incidente catastrófico envolvendo crianças, o massacre em uma escola fazendo dezenas de vítimas em Newtown, Connecticut. Mais uma chacina causada por uma pessoa com sério distúrbio emocional, psicológico e mais alguns que não tenho condições de identificar.

Mas algo me comove muito mais , ou ao menos me chama bastante a atenção. O uso rotineiro de desgraças e atrocidades pela imprensa brasileira e mundial para fins meramente comerciais. O interesse não é promover um debate acerca do por que tais incidentes ocorrem, tampouco esclarecer a população que se trata de casos isolados e históricos. Trabalha-se para captar o melhor ângulo dos rostos aos prantos, o melhor depoimento aterrorizante sobre o evento, as últimas informações (irrelevantes) das investigações. Centenas de matérias escritas, centenas de matérias televisivas, milhares de fotos. Todas com o mesmo conteúdo. Para que? Qual é o interesse das empresas de comunicação ao evidenciar, nessas dimensões, um desastre isolado e de impossível previsão? O que agregamos de tais coberturas jornalísticas? Nada, jamais agregamos. Apenas saciamos a nossa vontade voyeur por desgraças. Nenhuma discussão relevante é aventada, apenas consumimos desenfreadamente informações e imagens dramáticas, mas descoladas de nossas vidas. Imagens chocantes que não impedirão novos acontecimentos catastróficos, que não alterarão nossos valores e nosso tipo de educação, que serão esquecidas em dois ou três meses. Pura curiosidade, a mais infeliz vontade incontrolável de olhar para uma tragédia e dizer “que horror” e pensar “ainda bem que não é comigo”.

Alimentamos uma indústria consumindo material jornalístico sem valor algum e com isso geramos audiência, logo anunciantes. A cada novo episódio como esse, que dizima famílias inteiras e gera dores eternas, feridas que não cicatrizarão, algumas poucas pessoas geram dinheiro, usurpando até a última gota de sangue do ocorrido, para nos “presentear”  antes do concorrente. É horrendo (é pior, ainda não existe adjetivação).

De um lado, empresas jornalística transcendendo o limite do esdrúxulo, de outro, leitores e telespectadores. Em comum, a falta de ética e sensibilidade para com a dor do outro. Ou estou mentindo? Quantas crianças morrem diariamente em virtude de decisões políticas, estratégicas, racionais, ou seja, que poderiam ser evitadas caso entrassem nas pautas jornalísticas, fomentando o debate e a pressão social?

A constituição federal determina em seu artigo 221 que

Art. 221 – A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

Analisando a cobertura dada ao evento, três episódios chamaram-me a atenção e corroboram minha perspectiva. Ontem durante a abertura do Jornal Hoje, na Rede Globo, quando antes dos comerciais dá-se uma prévia das notícias que o jornal abordará, Evaristo Costa disse “nosso correspondente nos EUA dará as últimas informações da investigação sobre o massacre em Newtown”. Entra o comercial, volta para o jornal, o correspondente fala “os investigadores ainda não sabem o que motivou Adam Lanza a realizar o massacre e suicidar-se”. Durante o Fantástico do último domingo, uma família brasileira, cuja filha estudava na escola e presenciou o massacre, concedeu depoimento à Globo. Quando a menina falou e chorou, era evidente, não existia outra opção possível além daquele tacanho zoom no rosto da menina. E para finalizar, o desserviço prestado pelo programa Domingão do Faustão à população brasileira que desconhece, ou conhece superficialmente, a síndrome de Asperger, um show de horror à parte (para saber mais clique aqui). Não existem finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Não existe notícia alguma, não existem informações. É a tragédia transformada em show business, que se transforma em dinheiro com o aval de um público pouco crítico, ou com falta de opções. Não existe a promoção da cultura, tampouco a regionalização da produção cultural. Apenas um item do artigo 221 é respeitado, é o item IV, omitido acima.

IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Os nossos problemáticos valores éticos e sociais foram respeitados. É a tragédia que se multiplica por duas.

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