TOMBOY: uma reflexão sobre comportamento, sexualidade e caráter

Por Natasha Pergher

Tomboy, filme escrito e dirigido pela francesa Céline Sciamma, é amargo em suas verdades, mas doce em suas lições. Deixando o trocadilho com sabores de lado, o filme trata da história de uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que tem comportamentos e maneiras de se vestir tipicamente relacionadas ao gênero masculino. A mãe de Laure está em período final de gestação, o pai é bastante atencioso, apesar de trabalhar fora o dia inteiro, e a irmã menor, Jeanne (Malon Levana), é um vórtex de animação e carinho para com Laure. Diga-se de passagem, tanto a atuação de Malon Levana, quanto a própria personagem de Jeanne, são, na minha opinião, o que há de mais lindo no filme.

O enredo inicia quando a família muda-se para um novo condomínio em uma nova cidade. O motivo de tal mudança não é explicitado, mas o diálogo do pai com a jovem nos faz crer que essa não é a primeira transferência pela qual passa a família; e mais, que essas mudanças de ambiente não agradam de todo a protagonista:”prometo que vamos ficar aqui por muito tempo”. Logo nos primeiros dias, Laure decide sair do seu apartamento para conhecer o condomínio e os novos vizinhos. Nesse momento conhece Lisa (Jeanne Disson), uma menina do bloco ao lado, para quem se apresenta como Mickael. Neste momento do filme, o nome da protagonista não havia sido pronunciado nenhuma vez, o que deixa o espectador com a dúvida se, de fato, Laure é do sexo feminino ou do sexo masculino.

Lisa, então, leva Laure (identificado como Mickael) para conhecer o resto da turma. Lisa tem um papel fundamental no enredo: para ela foi feita a mentira que dá origem a toda a trama do filme; ela serve como ponte para a aceitação do novo membro no grupo (isso fica explícito quando Lisa permite que “Mickael” ganhe dela em um jogo de corrida para que os outros o respeitem); e, por fim, surge entre Lisa e Laure um afeto mútuo o qual complexificará o desenrolar dos fato (e, por quê não, a conservação da mentira).

As cenas que se seguem são, em sua maior parte, tentativas de Laure para garantir que os amigos acreditem na sua mentira por meio de práticas e posturas semelhantes às dos meninos: jogar bola, cuspir no chão, tirar a camisa, etc. Tais cenas nos fazem refletir sobre a relação que existe, ou que a sociedade “fez existir”, entre comportamento e sexualidade. O título do filme “TOMBOY” é uma expressão usada para designar aquelas pessoas do sexo feminino que, assim como Laure, tem hábitos que foram socialmente determinados como próprios do gênero masculino. No entanto, ao longo dos anos, criou-se um senso comum em torno da expressão, o qual passou a relacioná-la fortemente com o lesbianismo. Para nem falar do preconceito com o lesbianismo introjetado nesse senso comum, atento para a visão que conecta as TOMBOYs às lesbicas, reduzindo a concepção de sexualidade a um conceito meramente comportamental. Nesse ponto, o filme foi bastante feliz em mostrar o quanto comportamento e sexualidade são coisas distintas.

Outra reflexão muito bacana que inspira o filme é a de que, assim como comportamento não é sexualidade, sexualidade não é caráter. Lisa era uma criança absolutamente carinhosa com a mãe, atenciosa com Jeanne e confidente do pai. Inúmeras momentos do filme são reservados às cenas de conversa entre a mãe e a filha, ou de brincadeiras entre as irmãs (quando Jeanne dança balé enquanto Laure toca piano, quando ambas estão no banho e uma lava os cabelos da outra ao mesmo tempo em que fazem penteados esquisitos, quando Laure pousa para Jeanne desenhá-la, etc.). Claro que falando assim, parece que esta é uma ideia absolutamente sacramentada na nossa sociedade: “óbvio que sexualidade não é caráter”. Muitas pessoas como eu, ou como você, realmente acreditam nisso. No entanto, muita, mas muita gente também acredita que lésbicas, gays, bissexuais, transexuais – ou seja, todos aqueles cuja sexualidade não segue uma heteronormatividade monogâmica – não são pessoas normais e, por isso, não merecem nosso respeito. Ora, será que essa é uma ideia tão cimentada assim se, em pleno século XXI, ainda vemos membros dos movimentos LGBT serem oprimidos física e psicologicamente por aí? Clichê or not clichê, vale ressaltar essa segunda lição do filme: sexualidade não é caráter.

Deixando as divagações um pouco de lado, gostaria de comentar o papel da irmã de Laure, Jeanne. Jeanne, irmã menor, aparentemente infantil se mostra a personagem mais madura de todo o filme. Ao descobrir a mentira da irmã, mostra-se confusa por querer contar à mãe, mas prudentemente espera para conversar primeiro com Laure. Após algumas barganhas de Laure (“Se você não contar para a mãe eu te levo todos os dias para brincar junto com a gente”), Jeanne decide não contar e dar suporte para a irmã. Claro que a barganha indica que, sim, Jeanne é uma criança, mas acima de tudo, mostra o grau de pureza da menina ao não enxergar grandes problemas no fato de Laure ser “Mickael” (ou o contrário). Jeanne, quando a verdade vem à tona, se mostra madura o suficiente para estar do lado da irmã, lhe dando atenção e carinho, quando até mesmo a mãe a havia feito passar por uma situação de exposição. Livre de estruturas mais rígidas, Jeanne é o exemplo de como deveríamos lidar com os seres humanos, seus desejos, seus anseios e suas limitações.

TOMBOY me encantou. Não somente pelo roteiro muito bem feito, ou pelas atuações de Zóe Héran e Malon Levana. Não somente pela bela imagem, ou pela trilha sonora. TOMBOY me encantou porque foi capaz de mostrar de uma forma simples os preconceitos velados que insistimos em legitimar. TOMBOY me encantou, sobretudo, porque desde os primeiros dez minutos eu estava impaciente no cinema querendo saber o seu desfecho. E, claro, não me decepcionei.

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6 opiniões sobre “TOMBOY: uma reflexão sobre comportamento, sexualidade e caráter”

  1. O pai é bastante atencioso? Vc deve ter visto outro filme. Então quer dizer que só pq mostra ele tentando, algumas vezes dialogar com a menina ele é “bastante” atencioso? Não há no filme nenhum momento de intimidade entre os dois. O bastante, forçou a barra.

    Logo no início do filme, nos diálogo à mesa entre os familiares a mãe chama Laura de “querida” antes do primeiro contato dela com Lisa. Ou seja, ela já é apresentada, pelo menos para os atentos, que se trata de uma menina.

    Laura, não Lisa, era “absolutamente” carinhosa com a mãe? Absolutamente? Laura era “confidente” do pai?? A conversa do carro é um exemplo disso? Por favor, Pq forçar tanto a barra para querer mostrar que a garota tinha uma vida perfeita, quando não é isso que o filme mostra?

    O preconceito existe, e com ele vem a discriminação. Culpa da sociedade que é ignorante e culpa dos governos que não incentivam a educação das pessoas em relação a questão homossexual. Em vez de criar politicas que busquem dar conhecimento sobre o tema, como respeito, por exemplo, querem leis para que a sociedade seja obrigada a engolir a homossexualidade goela abaixo. Como uma sociedade que na sua maioria é ignorante vai acatar isso? Só gera mais preconceito e discriminação.

    Laura ser Michael ou o contrário? Isso foi ignorante, tá vendo!

    Boas colocações, mas força muito a barra para querer mostrar o que não há no filme.

    1. Primeiro de tudo: esse filme não trata de homossexualidade. Em nenhum momento tratou de homossexualidade, então a sua colocação sobre a ignorância da sociedade quanto ao assunto me parece bem estranha nesse contexto. Para mim, ficou claro que era um menino trans se descobrindo menino. Pode ter sido só uma tentativa de ser alguém diferente por um tempo ou sei lá? Pode. Mas não foi a minha leitura do filme. Na minha opinião, trata de gênero e transgênero, sem sequer passar em nenhum momento por homossexualidade.

      Quanto a “Laura ser Michael ou o contrário” e você ter dito que isso é ignorante: não entendi. O que tem de ignorante nisso???? O que tem de ignorante em supor que a vida mentirosa seria a de Laure e não Mickael?? O filme é uma obra de arte e, como tal, está sujeito a mais variadas interpretações, mas acho que você mesmo não está entendendo qual é a história, o contexto e suas implicações.

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