ARGO E A EVOLUÇÃO DE BEN AFFLECK

Argo, terceiro longa-metragem dirigido por Ben Affleck, evidencia a faceta promissora do ator.

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Por Alessandra Verch.

Projeção de ilustrações, quadrinhos, imagens antigas e diversas fotos acompanhadas de uma voz feminina narrando acontecimentos da história do Irã desde 1950. É assim que começa Argo, com uma introdução bem didática, importante para situar o espectador.

A voz conta, de forma sintética, a ascensão (promovida através de um golpe arquitetado pelos EUA e pela Grã-Bretanha) e a queda do Xá Pahlavi, centrando-se no papel e na influência do governo norte-americano no processo político iraniano. Nos informa a voz que o Xá Pahlavi, alinhado aos ideais norte-americanos, tentou promover a modernização, assim como a ocidentalização do Irã. Encontrando resistência xiita tratou de esmagá-las através da violência, da tortura e da morte. O povo morria de fome e o Xá e sua família ostentavam luxo e indiferença. A rejeição ao Xá cresceu de forma proporcional às violências e arbitrariedades promovidas por seu regime e sua polícia, os Savak. Em 1979, o povo iraniano o depôs, instaurando a Revolução Iraniana. O Xá Pahlavi fugiu, exilando-se no EUA. O povo, porém, exigia seu retorno para que ele fosse julgado e executado conforme às leis do país pelos crimes cometidos ao longo de seu regime. A recusa dos EUA selou, para o povo iraniano, o desrespeito do governo norte-americano para com a população e fez eclodir entre ela, o ódio ao governo. Aiatolá Khomeini, um clérigo exilado, ascende ao poder em um clima de revolta e instabilidade.

O filme, baseado em fatos reais, começa com o episódio da invasão da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em 4 de novembro de 1979. Com uma linguagem corretíssima, Affleck opta por intercalar planos de dentro da manifestação, simulando uma câmera subjetiva revoltada, semelhante à população; e com uma fotografia que mescla diferentes texturas, com closes de rostos norte-americanos sitiados nos prédios e aflitos, elevando a tensão dramática do momento. Sucedem-se cenas de funcionários destruindo os arquivos existentes na embaixada, a segurança se preparando para uma possível invasão e a população revoltada invadindo o pátio. A câmera está solta e acompanha rapidamente os movimentos. A tensão é total.

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A população invade a embaixada e faz 53 pessoas de reféns, seis norte-americanos conseguem fugir por um prédio com acesso a rua, abrigando-se na casa do embaixador canadense.

Tony Mendez (Ben Affleck) é um agente especial da CIA que está nos EUA e se encarregará de resgatar os seis norte-americanos. Até aqui tudo vai bem, o ritmo do filme é coerente. Affleck explora bem os movimentos de câmeras nas cenas tensas, valorizando os rostos de pessoas que ainda não sabem se sairão com vida do Irã, assim como as cenas nos EUA, com uma movimentação de câmera mais suave, mas mantendo a dramaticidade, com planos mais longos, mas com Affleck, Bryan Cranstom, que interpreta o agente Jack O’Donnel, e todo o elenco de apoio em movimentação constante compondo a mise-en-scène.

Entre diversas estratégias de resgates lançadas à mesa, “a menos pior” é a de Tony Mendez. Este sugere que se realize um filme de mentira, uma produção canadense com uma história passada no Oriente Médio. Mendez (Affleck) viajaria para o Irã com a desculpa de estar procurando locações, juntamente com sua “equipe”, os refugiados convertidos através de passaportes e identidades falsas.

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Dessa forma encerra-se o primeiro ato, muito bem contextualizado através da introdução eficiente, da direção de arte bem explorada, com a utilização de diversos objetos e equipamentos de época e com as cenografias da embaixada. Da casa do embaixador canadense aos escritórios da CIA, entre outras locações, bem estudadas e reproduzidas em todos os detalhes (ao final dos créditos vemos fotos reais ao lado de fotos do filme). Figurinos, cabelos e maquiagens impecáveis completam a caracterização perfeita da virada da década 70.

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Affleck manipula corretamente a dramaticidade necessária para o primeiro ato do filme, tanto em sua concepção cênica, através da direção dos atores, quanto em sua linguagem, através dos planos e movimentações de câmera. A montagem cumpre o papel de não chamar atenção. Tamanha sua eficiência, imperam os planos curtos com corte seco, sem transição. Somos transportados para outra atmosfera, observamos os acontecimentos pela fechadura, torcendo pelo desfecho positivo.

O segundo ato é a farsa, ou melhor, seu planejamento. É 19 de janeiro de 1980 e Mendez viaja a Hollywood com o intuito de buscar apoio de profissionais renomados para que a farsa seja verossímil. Entram em cena John Goodman, interpretando o premiado maquiador John Chambers, e Alan Arkin, interpretando o produtor Lester Siegel.

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Estes com suas atuações brilhantes dão o tom correto da comédia: o tom realista. Como bem lembra Affleck, em recente entrevista, eles não precisam olhar para a câmera e piscar, eles interpretam de forma comicamente realista um roteiro bem escrito. “Eles entendem que a comédia nasce da verdade e do realismo. Então, você os vê dizendo coisas extravagantes e fazendo coisas extravagantes, mas são convincentes (…) então isso não corrompe sua percepção sobre o filme”, afirma Affleck, sobre a atuação de Goodman e Arkin.

A linguagem agora é outra, muda de forma brusca, mas o diretor consegue manter a seriedade do filme, nos lembrando a todo instante que não estamos diante de uma comédia. Affleck opta por intercalar as cenas da produção do filme falso, com poucas movimentações de câmera e planos mais dilatados, com nas cenas dos seis norte-americanos escondidos na casa do embaixador canadense, em Teerã. Aqui utiliza, basicamente, a câmera na mão a la Cassavetes. A trilha aparece pontuando perfeitamente a transição entre cada cena e seus respectivos tons dramáticos.

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Já no primeiro encontro entre Mendez e Chambers, o diálogo dos personagens nos informa que não se trata, unicamente, da produção de um filme falso. Será, também, uma alfinetada sutil em Hollywood, daquelas que a própria indústria aprecia. Chambers diz “pode falar”, Mendez começa a explicar “é um filme no exterior”, ao que Chambers pergunta, “de onde?”, Mendez responde “do pior lugar que possa imaginar”, Chambers retruca “Universal City”. Não há risos, não há gagues, há um texto limpo e muito bem escrito por Chris Terrio e Joshuah Bearman.

É nesse ato que surge, silenciosamente, e talvez de forma imperceptível para a própria Hollywood, a crítica mais mordaz à Indústria: o descolamento de sua produção com a realidade, com as tensões econômicas, políticas e sociais que ocorrem cotidianamente. Não só em uma época específica, mas como traço identitário da indústria. Enquanto os Estados Unidos viviam a caça às bruxas, por exemplo, durante o macartismo, com violações incessantes de direitos civis e de direitos humanos, a indústria cantava e sapateava na chuva, indiferente a seus próprios realizadores, sofridos com a repressão. Esse é o traço subescrito no segundo ato. Está nas entrelinhas, mas está lá. Mendez pede a Chambers “preciso que me ajude a fazer um filme falso”, Chambers responde “você está no lugar certo”. “Então quer ir para Hollywood e bancar o chefão sem ter realmente feito nada”, pergunta Chambers, “sim” diz Mendez, “se encaixará direitinho”, conclui Chambers. Tudo em Hollywood é falso.

Lester Siegel (Arkin) complementa a produção falsa do “Studio 6 Films”. Os três partem para escolha do roteiro a ser “filmado”. Argo é o roteiro escolhido. Uma aventura de ficção científica de segunda (ou terceira) linha, com cenas espaciais e mulheres trazendo oferendas a deuses, “um lixo total”, diz Siegel. Mendez (que agora é o produtor Kevin Harkins) e Siegel se dirigem ao escritório que detém os direitos do roteiro e o compram, uma cena excepcional, cheia de indiretas. Um escritório falso é montado, cartões de visita, pôsteres e notícias são criadas, os três ainda produzem uma leitura do roteiro para imprensa, já com atores e figurinos. Tony Mendez, com o roteiro e storyboard em mãos, parte, então, para  Teerã em “busca da locação”.

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Encerra-se o segundo ato, onde predomina o tom cômico, e uma linguagem menos dinâmica que o ato anterior. Porém, igualmente correta, em afinidade com a tensão pretendida.

Começa o terceiro ato. Aqui o filme enfraquece, os diálogos perdem a sutileza. A montagem e a linguagem narrativa abusam de artifícios batidos para prolongar a tensão dramática. Como é o caso da cena em que Mendez e os seis norte-americanos abrigados pelo embaixador estão no aeroporto. Após passar por diversas verificações angustiantes, no que fica evidente ser a última delas, um militar iraniano desloca-se para sua sala a fim de ligar para o escritório da produção e checar as informações. Nesse mesmo instante Chambers e Siegel estão tentando atravessar um set de filmagem para chegar ao escritório, só o conseguem ao último toque do telefone. O embarque no avião reutiliza essa técnica, assim como diversas outras cenas. É o cansativo e popular “não vai conseguir, não vai conseguir, não vai conseguir, conseguiiiu” que funciona muito bem, mas que carece de labor. Uma técnica batida, jogo baixo utilizado em quase todo o ato final, vide a cena da visita ao mercado de Teerã, o cancelamento do plano na metade do ato final, a corrida para a validação das passagens de volta diante da não desistência de Mendez e todas as cenas do aeroporto. Tudo se reduz a técnicas e escolhas muito obvias. Salvam-se as interpretações, logo, a direção cênica também.

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Vale, ainda, creditar as atuações coadjuvantes emblemáticas de Clea DuVall, como a funcionária da embaixada norte-americana Cora Lijek, Victor Garber como o embaixador canadense Ken Taylor e Scoot McNairy, como Joe Stafford, o único dos seis que fala a língua local e tem um espaço importante no último ato.

Esse é o terceiro longa-metragem de Ben Affleck e fica evidente seu amadurecimento. Suas escolhas são corretas, sua condução é eficiente e sua atuação é baseada no estudo do Tony Mendez real, que impõe ao seu personagem um ar tímido interessante, assim como pouco performático para agentes da CIA em filmes de Hollywood, distanciando-se de clichês habituais. Argo é um filme correto.

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Affleck deixa evidentes suas referências, Cassavetes, Lumet, etc. Mas ainda parece lhe faltar estrada e a segurança para escolhas menos óbvias. Faltou a sujeira, faltou sua singularidade. Tudo estava corretinho, certinho, porém a identidade e a marca do grande diretor ainda estavam ausentes. Ben Affleck provou ser um bom diretor. Fica, então,  a promessa da ascensão de mais um grande diretor na cinematografia norte-americana. O que me parece não tardar, pois Affleck já deixou claro que não vai dirigir filmes bobos. Os roteiros que escolhe (ou mesmo os que escreve como “Gênio Indomável” e “Uma verdade inconveniente”) são de tramas interessantes e não convencionais. Ainda não foi dessa vez, mas aguardemos as próximas cenas.

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8 opiniões sobre “ARGO E A EVOLUÇÃO DE BEN AFFLECK”

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