Moonrise Kingdom e o perfeccionismo de Wes Anderson

Por Camila Konrath

Moonrise Kingdom
Moonrise Kingdom

Moonrise Kingdom é o sétimo longa-metragem de Wes Anderson. Um filme onde a beleza dialoga com o espectador e a época se torna mais um elemento para que a estética ganhe vida em cores e formas. Parece ser assim que Wes Anderson estuda suas produções. Mais que um filme, uma obra na qual todos os detalhes estão delicadamente pensados e os objetos parecem se harmonizar às pessoas e ao ambiente com perfeição. Leveza e romantismo, cores fortes, humor ingênuo e sentimental dançam juntos na valsa melancólica regida por Anderson. O diretor constrói ali seu mundo particular, onde pode jogar holofotes sobre personagens infanto-juvenis e adultos desajustados, contando seus problemas e conflitos emocionais.

A trama regada a aventura se desenvolve a partir da história de Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward), ambos com doze anos, que se apaixonam e resolvem fugir juntos. Sabendo do acontecido, as famílias iniciam as buscas. A pequena cidade natal dos garotos se envolve na procura, e as pessoas começam a se deparar com seus conflitos mais íntimos. Em Moonrise Kingdom a década de 1960 é ambientada oportunizando um visual construído através da comunicação em cartas, dos sapatos bicolores, das fugas com lugares marcados através de bússolas e das vitrolas portáteis tocando à beira do mar. Wes Anderson parece tomar a direção oposta à praticidade tecnológica da atualidade, buscando em épocas passadas o tempero para sua estética e criando espaço para a essência profunda de seus personagens problemáticos.

Impossível não lembrar de Os Excêntricos Tenenbaums, outro longa-metragem de Wes Anderson, lançado em 2001, em que os figurinos coloridos também constroem a cena numa levada retrô, com clima de notalgia e depressão, ao mesmo tempo que soam incrivelmente leves. Aliás, as personagens centrais d’Os Excêntricos e Mooonrise, Margot Tenenbaum e Suzy, respectivamente, possuem as mesmas características de melancolia combinadas com uma certa antipatia blasé em que, dificilmente, algum acontecimento altera suas fisionomias, ao mesmo tempo profundas e apáticas. Porém, elas possuem sentimentos expostos através dos romances vividos e pela ideia de serem jovens incompreendidas.

Margot Tenenbaum, em Os Excêntricos Tenenbaums
Margot Tenenbaum, em Os Excêntricos Tenenbaums

Outra característica das produções de Anderson é a excentricidade de seus personagens. As crianças revelam fortes traços de maturidade através de conhecimentos e atitudes, dando o ritmo da narrativa, o oposto do que acontece com os adultos. A maior parte do comportamento destes está infantilizado numa espécie de simplicidade combinada a uma dose de ingenuidade, o que os torna desajustados, uma marca dos filmes de Wes Anderson. A mãe de Suzy (Frances Mcdormand), por exemplo, utiliza um megafone para se comunicar com sua família em casa, enquanto vive um caso com o policial (Bruce Willis), deixando brechas da relação às vistas do marido, Sr. Bishop (Bill Murray). Este, por sua vez, um cara sem atitude, causando no espectador uma tristeza cômica, uma combinação do mundo de Anderson com o nosso, nos detalhes mais constrangedores do cotidiano, porém sob uma ótica infantil. Esta, visualmente materializada em binóculos, observadores dos comportamentos humanos, extravasando num pouco de violência dos personagens infantis do camping de Sam e da própria Suzy. Nota-se ainda, a mesma ótica nas resoluções práticas, nas interiorizações complexas, na inocência em que os assuntos são tratados, nos romances totalmente puros e abstidos de ímpetos sexuais.

Wes Anderson constrói em seus filmes um mundo que parece se passar dentro de uma casa de bonecas. O diretor, sem prender-se aos valores, onde os personagens são o que são e não precisam explicar-se, transforma a realidade no que bem entende, como uma brincadeira de criança, onde as coisas vão acontecendo num universo paralelo que dialoga muito mais com a liberdade artística de Anderson do que qualquer pretensão de verossimilhança com alguma verdade. A estética é trabalhada com forte preocupação perfeccionista e detalhista com a simetria. A linguagem parece ser milimetricamente medida para que tudo, rostos e cenário estejam no enquadramento perfeito. Esta preocupação perfeccionista está presente também nos objetos de cena e seus significados, e dos figurinos para criar esta atmosfera reconhecida como sua, que parece ter saído de livros infantis.

mkbeach

A Vida Marinha de Steve Zissou (2003) possui igual dedicação estética e atenção à trilha sonora como os anteriores, porém, o filme não conseguiu se mostrar interessante suficiente para o espectador, que ficou sem entender as pretensões de Wes Anderson com aquela narrativa. Em o Fantástico Sr. Raposo (2009), obra adaptada de um livro infantil, Wes parte para a experiência de animação em stop motion. Uma história direcionada a adultos, muito bem contada e cheia de emoções. Mas, somente Moonrise Kingdom teve tamanha grandeza, após Os Excentricos Tenenbaums, e conseguiu levar o diretor ao rol de artistas que possuem reconhecimento por seu tipo peculiar de arte, como um segredo desvendado. Um filme encorajador, divertido, profundo, comovente, trágico e cômico no espírito pueril que ainda reside no diretor Wes Anderson.

 

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