Carlos Marighella – Quem samba fica, quem não samba vai embora

Documentário sobre a vida política de Marighella é relançado em data especial

Por Camila Konrath

poster do documentário de Carlos Pronzato
poster do documentário de Carlos Pronzato

Dia 5 de dezembro é data de aniversário de Carlos Marighella, ele completaria 101 anos de vida. Político, poeta, sobretudo, um guerrilheiro, Marighella se transformou em um símbolo de luta e resistência contra o regime da ditadura militar até sua morte, em 1969. Aproveitando a data para homenagem, o documentário dirigido pelo cineasta independente Carlos Pronzato foi relançado ontem (5) em várias partes do Brasil. O lançamento oficial aconteceu no ano passado, marcando os cem anos de vida de Marighella. A historia é contada a partir do início do período de luta armada de resistência à ditadura, em 1964, até a morte de Marighella. Dada a relevância do papel de Marighella, a organização Cambada Levanta Favelatratou de organizar a exibição do filme de forma gratuita em Porto Alegre, no térreo da Usina do Gasômetro.

Membro do grupo Levanta Favela, Rodrigo Brizolla falou sobre a importância da transmissão deste documentário para que se mantenha viva a memória de um dos maiores símbolos de luta contra a ditadura do Brasil: “Estamos em momento importante para o resgate histórico da figura de Carlos Marighella. (…) Recentemente, Carlos Marighella foi reconhecido como herói brasileiro, foi anistiado. Mais do que isso, a importância da figura, da luta, das ideias, da postura de Carlos Marighella. Então, fazer o lançamento desse documentário hoje, pro nosso grupo, dá continuidade a esse trabalho de memória de verdade, principalmente de justiça. (…) Mais do que uma biografia do Carlos, é uma biografia de sua vida coletiva, da sua organização política, das suas ideias. É um dia muito importante dentro da historia brasileira, a história que não é contada nos livros (…) Mas é a historia do povo brasileiro”.

O nome do documentário faz referência a uma carta escrita por Marighella a seus companheiros revolucionários de São Paulo, em dezembro de 68. Carlos Marighella – quem samba fica, que não samba vai embora é composto de relatos de mais de 20 pessoas envolvidas na vida política de Marighella, contando sua história, seu envolvimento político, sua luta e sua coerência em discursos e ações. O documentário é construído através do resgate da memória destas pessoas que estiveram ao lado de Marighella, fosse em tempos de militância no PCB (Partido Comunista Brasileiro) ou na ALN (fundada pelo próprio Marighella), além dos relatos narrados por seu filho, Carlinhos Marighella. Depois de ter sido preso por três vezes, ainda lutando pelo fim da ditadura e expondo as perseguições do governo, Carlos Marighella morreu em emboscada no dia 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo.

ALN

A ALN foi uma organização de guerrilha chamada Ação Libertadora Nacional, que surgiu em 1966, após a saída de Marighella do PCB. Ele achava que os vínculos burocráticos de um partido colocariam suas intenções como político e lutador contra a ditadura numa posição contraditória. A organização deveria se pautar pelas atitudes, pois era dessa forma que Marighella acreditava em mudanças, sempre através de ações. Ações que, inclusive, foram construídas de forma horizontal, onde os grupos tinham autonomia para agir sem pedir permissão a ele ou qualquer outro membro da ALN. O lema do grupo era sua autodefinição: “Todos nós somos guerrilheiros e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução. O centralismo democrático não se aplica a Organizações revolucionárias como a nossa “.

Saiba mais em: http://marighella100anos.wordpress.com/

A carta homônima “Quem Samba fica, quem não samba vai embora”:

É a seguinte a relação de forças na Organização: vamos atuando aqui e ali. Toda ação nossa de razoável envergadura sempre dá dinheiro. Há uma ordem de preferência na aplicação. As viagens às áreas estratégicas têm preferência. Viagens significam preparação de pessoal altamente qualificado. Isto é coisa a longo prazo. Por enquanto debilitamos a organização pegando os melhores e mandando-os viajar, para que se preparem bem em todos os sentidos. Isto é inversão de capital. Amanhã tudo será transformado em melhores ações. Haverá mudança de qualidade. A Revolução não é coisa abstrata.

Então continuamos lutando sem desfalecer, indo devagar até conseguirmos o que queremos. E um jogo de paciência, de decisão e de vontade. A persistência é a melhor qualidade do revolucionário. O homem por sua vez é seu melhor capital. Todo capital que empregamos para preparar gente é capital rentável. E rende depois. Assim estamos trabalhando porque a guerra contra eles é longa e prolongada e não se baseia em combates decisivos, mas na paciência chinesa, na astúcia, na sagacidade, na malícia, no reconhecimento de que somos fracos e eles fortes. Precisamos trabalhar os jovens. Ou melhor: precisamos trabalhar com os jovens. É preciso dar oportunidades aos jovens e responsabilizá-los com problemas que só a juventude pode resolver. Tragam jovens para a ação, para contatos, reuniões se for o caso. E gente jovem para viajar e aprender. Quando voltarem, pouco a pouco, irão cuidando de tudo, queiramos ou não.

Outro gasto a se fazer é com a área estratégica. Esta área é mais importante que a cidade. É decisiva. A cidade é complementar. No caminho que seguimos no Brasil, não devemos deixar a cidade abandonada. Sem a cidade não haverá êxito na área estratégica rural. Mas a cidade trabalha para permitir o lançamento da área estratégica.

Lançada a área estratégica, muda a qualidade do movimento e a coisa pega fogo. Mas a cidade é um cemitério de homens e recursos. Quanto mais recurso se lança na cidade, mais é preciso empregar. A cidade, se a área rural em movimento não tem perspectiva, cansa e leva ao desespero. Consome tudo e não tem de onde receber. Temos que ir empregando algo na cidade, sem perder o campo de vista, esperando o momento de lançar a área estratégica rural. Uma vez esta lançada, a cidade é arrastada. Encontra-se diante de um fato consumado. Com um pequeno trabalho inicial na cidade, com o apoio de uma pequena rebelião preparada antecipadamente, os gorilas ficam enganados.

Para a preparação desta rebelião empregamos alguns recursos em toda parte urbana importante. A questão do emprego de recursos obedece ao plano estratégico e não ao emprego de capital para manter e somente quando estas estão bem “azeitadas”, lançar o movimento rural. Ainda quando se trata de armas podem ser consumidas e já há homens em quantidade suficiente para manejá-las bem e economicamente.

A tarefa de vocês é logística, mas acontece que de acordo com o desenvolvimento das ações, criam-se três frentes: a frente guerrilheira, a frente de massas e a rede de sustentação. Isto se dá tanto na área rural quanto na área urbana. Na frente guerrilheira existe a organização dos GTA e das áreas estratégicas, assim como a dos eixos guerrilheiros. Na frente guerrilheira existe também o ICR, a captura de armas e munições. Há além disso na frente guerrilheira a preparação de sabotagens e a formação de professores na especialidade e também na execução prática.

Não devemos dar trégua. Cada uma pequena ação e de vez em quando as grandes. Vocês têm carta branca na frente guerrilheira para desencadear a ação. Só não têm carta branca para coisas burocráticas, isto é, para impedir ações planejadas pelos grupos, sejam eles quais forem. Nem podem fazer discussões formais. É preciso ação e mais ação. Distribuir manifestos, pichar muros, sabotar, fazer política de terra arrasada, tudo isto com o trabuco na cintura. Ninguém deve se deixar prender sem resistência. Por isto deve andar armado. E atirar para matar policiais e dedos-duros.

A ditadura tem medo e nós não vamos parar nem sair do ritmo porque os fascistas deram um golpe dentro do golpe. Levem trabalho na frente guerrilheira para o interior e para todas as partes. Vejam quem quer fazer e dêem carta branca. É preciso acabar com a omissão e a vacilação. A ação não prejudica. Que seja planejada e executada sem demora. Ponham os jovens nisso. O dinheiro só vem da ação.

Na frente de massas não preciso dizer nada. Vocês são especialistas nisto. Operários, camponeses, estudantes, padres e intelectuais: todos devem ser estimulados para a ação de massas. A frente de massas deve possuir potência de fogo e responder a tiros. A frente de massas deve ser conduzida a adotar táticas guerrilheiras. Tudo que se pode fazer está resumido no capítulo “A nova fase da luta” da mensagem. A rede de sustentação são as casas, os esconderijos, a fabricação de armas. Vocês devem fazer um balanço de tudo que possuímos nas três frentes e traçar novas tarefas de organização, colocando, à frente de cada setor de atividade, os elementos que se destacaram na ação e querem ação e não burocracia. A coordenação, se atrapalha a ação, pode deixar de existir.

O fundamental na organização são os grupos e a atuação de baixo para cima. Uma coordenação ativa e revolucionária leva a ação para diante. Os grupos devem unir-se de baixo para cima, a partir da ação. Podem ser feitas ações em conjunto. Todos os grupos nossos ou não nossos devem ser chamados para a ação conjunta, para ICR, seja para o que for contanto que acabe a ditadura e o imperialismo. De todo modo, o problema é quem samba fica, quem não samba vai embora.

Nossos vínculos são ideológicos. Quem diverge ideologicamente deve dizer e colocar-se em sua verdadeira posição. A verdade deve ser dita claramente. O que acontece é que a juventude está vindo para a organização, porque vê nela a decisão de fazer, executar, atuar sem burocracia e sem respeitar os velhos e gastos padrões de centralismo democrático, tão desprestigiados e desmoralizados. Nossa democracia é revolucionária. É a democracia da ação, o que é útil à revolução e não a meia dúzia de burocratas e faladores. O problema para nós é o seguinte: perguntar o que faz, o que quer, que ações já participou e onde quer chegar. Se alguém acha que o nosso caminho armado é o correto ou não é correto, faça o favor siga seu caminho e não está obrigado a seguir o nosso. E quanto a vocês que têm uma posição ideológica determinada, não têm que esperar por mim. Tomem a iniciativa, assumam responsabilidades, façam. É melhor cometer erros fazendo, ainda que disto resulte a morte. Os mortos são os únicos que não fazem autocrítica.”

Ficha técnica:

Carlos Pronzato – Direção e Roteiro

Baruch Blumberg – Edição

Renan Henriques Sobral – Assistente de Edição

Marcos Santos – Design

Jéssica Araújo – Assistente de Design

Piero e Café Pequeno– Trilha Sonora

Getúlio Vargas e Maysa Machado – Assistentes de Produção

Paulo Victor Melo – Assessoria de Comunicação

Taylane Cruz – Assistente da Assessoria de Comunicação

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