Conferência sobre muros e discriminação abordou diferentes pontos de vista no FSM Palestina Livre

Foto: Guto Prestes
Foto: Guto Prestes

O que nós estamos enfrentando hoje não é apenas ocupação e discriminação, estamos enfrentando crime contra a humanidade”. Foi assim que Stiaan van der Merwe definiu o que ocorre nos territórios da palestina e de Israel, na conferência “Por um mundo sem muros, bloqueios, discriminação racista e patriarcado”, no Gasômetro, na manhã de sexta-feira (30).

Por Alessandra Verch e Camila Konrath.

Apartheid: um crime contra a humanidade

Stiaan van der Merwe, dirigente sul-africano da coalizão pela Palestina Livre, iniciou a conferência indagando aos participantes se sabiam o que é, de fato, apartheid. Sua explanação centrou-se no esclarecimento do que ele acredita ser um erro usual. “Quando usamos a palavra ou dizemos a frase ‘que o Estado de Israel é o Estado do apartheid’, eu acho que a gente tem que ter muito cuidado. Em 1º lugar vocês tem que ter certeza do que é o apartheid, mas chamar o Estado de Israel de o Estado do apartheid não é só uma coisa emocional, há muitas coisas que estão acontecendo no Estado de Israel que são iguais ao que ocorreram na África do Sul, então cuidado (…) isso é muito mais profundo, a gente tem que saber bem o que é essa palavra”. O dirigente alertou os participantes para o uso correto do conceito. Van der Merwe salientou que a palavra apartheid jamais poderá ser usada de forma comparativa ao que ocorreu na África do Sul. Ela precisa ser usada com base na referência de Direito Internacional: “[apartheid] é um crime contra a humanidade, é um termo técnico legal (…). Parem de ligar o apartheid com o que aconteceu na África do Sul, vocês tem que ligar o apartheid com o direito internacional (…). Certamente, o que aconteceu na África do Sul pode nos ajudar a entender isso, mas não foi o que aconteceu que determina se é apartheid ou não, o que determina é o Direito Internacional”. Para o conferencista esse alerta é primordial, pois um dos contra-argumentos, bastante frequente, é o que o banaliza o conceito diferenciando práticas entre a África do Sul de ontem e Israel hoje. “Uma coisa é um assassinato, é uma contravenção contra a lei, isso acontece (…) [apartheid] é um crime contra a humanidade, é um termo técnico legal”. O apartheid está definido juridicamente. De acordo com van der Merwe apartheid é um conceito objetivo, no qual as ações ostensivas e violadoras dos direitos humanos, promovidas pelo Estado de Israel, se inserem.

O que nós estamos enfrentando hoje não é apenas ocupação e discriminação, estamos enfrentando crime contra a humanidade. Então, o que vamos fazer em relação a isso? A sociedade civil hoje, mesmo depois do que aconteceu ontem na ONU, precisa tomar a responsabilidade para si de apoiar os palestinos e sua luta contra o apartheid. E por sinal, os sul-africanos vão contar para vocês que nós até agradecemos por nos pouparem de certas coisas. O que acontece hoje na Palestina é muito, muito pior, do que jamais podíamos imaginar na África do Sul”.

Van der Merwe concluiu sua palestra afirmando que a luta contra opressões não pode incorrer em ainda mais opressões, porque opressores também são seres humanos. A luta é, portanto, para combater as ideias que categorizam e hierarquizam os seres humanos: “O primeiro muro que precisa cair não é o físico, aquele do qual tiramos fotos.(…) O muro que precisa cair é o muro da mente sionista (…). A luta contra o apartheid em Israel não é esmagar os seres humanos, esse muro também precisa ser derrubado dentro de nós, porque os sionistas são seres humanos como nós”. Para o autor, o muro da mente é o mais difícil de derrubar.

Uma mídia negligente com o Fórum

Antes de passar a palavra para o próximo painelista a mediadora Rosane Bertotti, secretária de Comunicação da CUT Nacional e da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), criticou a negligência da mídia para com os debates promovidos pelo fórum, o que ela chamou “muro do bloqueio informativo”. Disse ela, “a velha mídia esconde e invisibiliza a voz da liberdade, pois teme a verdade. Nossa luta pela democratização da comunicação é para colocar abaixo este muro de alienação que semeia preconceito, individualismo, racismo e machismo”.

Capitalismo é o principal gerador de muros

Foto: Guto Prestes
Foto: Guto Prestes

O mundo é repleto de muros. Eu acho que a humanidade ainda vive um processo de desenvolvimento muito inferior do que ela precisa ter para que nós tenhamos um mundo, efetivamente, sem muros”, afirmou o segundo conferencista da manhã, Vagner Freitas, bancário e presidente da CUT.

O presidente da CUT falou sobre a importância da consciência de classe dos trabalhadores e de sua militância no sindicalismo, nesse sentido para “elevar a consciência de classe” dos trabalhadores. Salientou também sobre a situação da Europa e dos trabalhadores europeus e suas conquistas históricas, que se perdem cada vez mais em função da crise. Para Freitas, o principal gerador dos “muros da humanidade” e, consequentemente, dos conflitos e violações humanas é o sistema capitalista, este é, portanto, o que conecta todas as crises, do Oriente Médio à América Latina. “Agora, o que se percebe é um ataque direto aos direitos dos trabalhadores na América Latina por conta da crise econômica mundial (…) o capitalismo, onde ele é mais desenvolvido, quando ele não consegue manter sua lucratividade no país de origem ele vai buscar sua lucratividade nos países menos desenvolvidos que, consequentemente, exploram mais ainda os trabalhadores nesses países”. Após defender a liberdade de imprensa, onde toda a população deve se ver representada, Freitas abordou as injustiças do sistema judiciário brasileiro no julgamento do mensalão, com o apoio da mídia tradicional. Segundo Freitas, a intenção de ambas é chegar até Lula e desqualificá-lo, desqualificar seu governo, o caracterizando como corrupto e criminoso, impedindo todas as transformações positivas que ocorrem em dissonância com os interesses da elite brasileira.

Alice Walker, ativista e vencedora de Nobel da Literatura, depõe em vídeo

Após a fala de Vagner Freitas, um vídeo enviado pela ativista feminista e antirracista Alice Walker (vencedora do Prêmio Nobel da Literatura) foi transmitido aos presentes. Nele, Alice faz um depoimento afirmando que gostaria muito de estar Fórum. Ela elogiou bastante a união e a movimentação de diversos países para a realização do evento e relatou também um pouco de sua experiência em Gaza, bem como o processo de ocupação da Palestina. “Os judeus que colonizaram a Palestina e foram vítimas do holocausto precisavam de um tratamento especial nessa área, mas (…) independente do aconteceu no passado nós não podemos defender o abuso, de nenhum ser humano em todo esse planeta, nos temos que lutar contra a desumanidade em qualquer momento e isso tem acontecido há mais de 60 anos”.

Alice relatou os boicotes que estão ocorrendo no mundo, e lembrou um recente em especial, ocorrido na África do Sul. Este envolveu uma loja de brinquedos que, após diversas manifestações, precisou fechar suas portas. Alice Walker defendeu iniciativas como esta, crendo que “os objetos que adquirimos não podem estar vinculados a sofrimentos de outras pessoas. Transmitir estes valores para nossos filhos nos tornará seres humanos melhores.”

Foto: Guto Prestes
Foto: Guto Prestes

Professor da USP comove participantes e afirma: queda de muros só acontece com educação e cultura

Dr. Paulo Daniel Farah – professor USP e Diretor presidente da BIBLIASPA (biblioteca e centro de pesquisa América do Sul-Países Árabes), falou na sequencia e comoveu os participantes do evento. O professor iniciou sua fala mencionando um verso do poema palestino “digo muitas palavras”, “Senhoras e senhores de bom coração. A terra dos humanos é de todos os humanos como clamais?”. Paulo Farah defendeu que os muros, o objeto de discussão desta conferência, somente cairão através da educação e da cultura. “Eu entendo que é através da cultura e da educação que a gente vai conseguir desconstruir essa imagem de que não há violação de direitos humanos na região, ou essas representações (politicamente motivadas)(…) de que há uma necessidade de civilização da região. Infelizmente essa é uma lógica muito antiga”. O professor citou o teórico Edward Said, no livro “Orientalismo”, para evidenciar a descaracterização dos palestinos, assim como o processo de criação de estereótipos da qual são vítimas: “para que as violações de direitos humanos não fossem vistas como tal (…) Há uma campanha de desinformação muito forte (…) Todos nós temos de trazer para nós o papel de educadores, de mostrarmos a informação real do que acontece lá. Mostrarmos que a Palestina tem uma cultura fantástica, uma literatura fantástica”. Paulo lembrou ainda que o conflito da região não se trata de um conflito religioso. Ele frisou que naquela região o islamismo sempre conviveu em harmonia com o judaismo e o cristianismo. Portanto, esse argumento é ilegítimo: “É outra tentativa de desvirtuar a questão e de dizer que se trata de um conflito milenar que há problemas religiosos”, prática que diminui a luta Palestina. Paulo Farah encerrou sua explanação recitando um belíssimo poema de Mahmoud Darwich, intitulado “Carteira de identidade” (para escutar o poema e a entrevista feita com o professor logo após o término da conferência clique aqui).

Os muros e a limpeza étnica

Jamal Juma, ativista e membro da organização Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel (BDS), analisou a função histórica e social de diversos muros no mundo “muro da Palestina não é apenas para acabar a resistência palestina, mas também tem a ver com limpeza étnica (…) Na verdade o que os muros fazem é tornar a vida dos povos dentro dos muro, impossíveis (…)Eles empurraram as pessoas para a faixa de Gaza e outros lugares tentando expulsá-las do país”. Jamal Juma lembrou que o intuito dos muros foi sempre impedir o movimento populacional, a liberdade das populações e restringir os recursos necessários para a sua sobrevivência e reprodução. “A maior parte dos palestinos vivem nas montanhas, então os muros começam a cercar os palestinos em 3 porções separadas: 60% dos recursos, como água e terras produtivas estão fora desses muros”. O ativista ainda relatou as relações de diversas instituições com a implementação dos chekpoints* na Palestina, restringindo também desta forma, o fluxo de boa parte dos palestinos “[Banco Mundial, FMI] O que eles querem é acabar com a soberania do povo palestino. Os palestinos são apenas trabalhadores escravos, para esses trabalhadores escravos não há limites de fronteiras com Israel. O Banco Mundial também financiou os checkpoints de 1957 e continua a apoiar esses checkpoints, Continua a financiar… Então eles continuam a apoiar e a financiar esse sistema”.

*(explicar checkpoints) ou colocar dentro do texto

Viver em paz com o que sobrou” da Palestina.

O deputado e membro do Conselho Legislativo Palestino Faiez Saqqa foi o último a falar e começou elogiando o apoio político conferido à Palestina através da realização do Fórum. “Queremos estabelecer uma forma de libertar a Palestina e parar a colonização (…). Para isso precisamos de muitos fóruns como esse, para que as ferramentas e metodologias sejam construídas”. Ele agradeceu bastante e disse estar muito feliz em participar do evento, podendo falar e compartilhar os problemas que o povo palestino vem sofrendo. “Os muros existem e os muros israelenses não são só essa construção, eles criam ódio, não querem que os palestinos existam, eles querem a terra sem pessoas, eles querem forçá-los a deixar o país. E como todos disseram, nós estamos em 2012 e não em 1948, quando expulsaram milhares de palestinos, quando houveram o massacre em Belém e em outras cidades (…) Quantos palestinos foram assassinados? Nós queremos acabar com esse drama, queremos viver em paz mesmo com o que nos sobrou, queremos viver em paz com eles”. Saqqa se mostrou defensor da proposta de dividir o território da Palestina e transformá-lo em dois países soberanos e autônomos. “Queremos ficar nesses 22% das terras que restam na Palestina (…) Isso nunca aconteceu antes, ninguém nunca abriu mão de 73% de seu território para não ser morto. Esse tipo de equilíbrio nunca aconteceu antes no mundo, e nós esperamos que nunca mais aconteça”. A proposta de Saqqa não é unânime, pois diversos ativistas e palestinos no mundo inteiro lutam para que as fronteiras de 1948 sejam reconhecidas e que o território ocupado de forma arbitrária após essa data, pelo Estado de Israel, seja devolvido ao povo palestino. O relato de Saqqa comoveu a plateia. “Queremos viver em paz, nós estamos sofrendo há 100 anos, o meu pai morreu e não viveu um único ano em paz (…) eu quero que meus filhos vivam em paz, é isso que nós queremos como povo palestino, o direito do povo de viver com dignidade em sua própria terra”.

Leia e ouça o poema aqui.

 

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