A HOMOFOBIA E OS “ESCLARECIDOS”

Por Juliana Verch.

Tenho presenciado diversas discussões sobre o assunto e percebi que ainda existem preconceitos escondidos na mente de muitos que se autodenominam “cabeça aberta”. Durante um recente debate entre amigos, ouvi que o ”homossexualismo” não era um comportamento normal, e, graças à exploração midiática sobre o assunto, vem sendo cada vez mais difundido entre os jovens, acompanhado, é claro, de modas coloridas, emotivas, carregadas de sentimentos juvenis.

No entanto, a homossexualidade, embora não assim denominado, faz parte da cultura ocidental há mais de dois mil anos como demonstram muitos estudos. Na Antiguidade, a prática da pederastia era comum entre os homens, isto é, um homem que mantinha relações com um jovem não era mal visto, mas era considerado um guia na inclusão desse jovem no mundo do amor, da filosofia e das artes, agindo como um complementador na sua educação.  Em meio a uma atmosfera totalmente antropocêntrica, o homem e seu corpo eram considerados motivos de culto – o que seria revisto no renascimento-, enquanto o sexo praticado com mulheres era visto com uma única função: a procriação. Historiadores afirmam que grandes nomes da História Ocidental apresentavam este comportamento, tais como Sócrates, na Grécia Antiga, e Júlio Cesar, em Roma.  Na Grécia, o comportamento homossexual não só fazia parte do cotidiano dos gregos como era incentivado.  Investigações históricas recentes evidenciam que, em Esparta, o relacionamento entre homens no exército era valorizado, já que o estreitamento dos laços entre dois guerreiros poderia fazer com que estes ficassem mais dispostos a lutar pela cidade-Estado e os impeliam a continuar em batalha pelo seus companheiros. Além disso, os próprios termos “lésbico” e “lesbianismo” têm origem na ilha grega de Lesbos, no mar Egeu, onde vivia a poetisa Safo, cujos poemas revelam uma grande paixão ao amor feminino, o que leva muitos historiadores a crer que a autora tenha partilhado desse sentimento.

Então, se o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo não é, nem nunca foi, uma novidade em nossa sociedade, ou como muitos afirmam, absurdamente, o resultado da influência midiática, quando esse sentimento deixou de ser nobre e passou a ser condenado? A possível resposta está no século V d.C., quando o imperador Justiniano promulgou o primeiro texto proibidor da homossexualidade. No texto, ficou estabelecido o vínculo de todas as relações homossexuais ao adultério, o qual era punido com pena de morte. Justiniano, contudo, foi um imperador adepto ao cristianismo, doutrina que condenava, e ainda condena, o sexo que não fosse com intuito de procriação. Esse pensamento, possivelmente, foi o que distorceu a visão de um comportamento que outrora era natural, já que, na Antiguidade, o sexo era valorizado como simples troca de experiências culturais entre gerações diferentes, ocorrendo com o consentimento de ambas as partes que participavam, e também das famílias. Entretanto, os relacionamentos homossexuais, como os heterossexuais, na visão do cristianismo, passaram a ser considerados pecados, e um pecado, na visão do homem medieval, era, por vezes, pior que a própria morte. É interessante atentar ao fato de que, séculos mais tarde, a cultura antropocêntrica foi revivida por renascentistas de todas as formas possíveis. Leonardo da Vinci, segundo alguns historiadores, não foi apenas um dos seguidores da estética clássica, mas do próprio comportamento, chegando a manter, também, relacionamentos homossexuais.

Passaram-se anos, e só a partir da segunda metade do século XX conseguimos desfazer-nos da idéia de sexo por reprodução, ruptura fortemente influenciada pelo movimento feminista, culminando com a invenção das pílulas anticoncepcionais.

A homofobia, contudo, ainda é muito presente. Muitos acreditam que o preconceito contra homossexuais não é preconceito quando não exteriorizado com violência, ou seja, homofóbicos são só aqueles que agridem gays nas ruas, como temos visto em notícias nos últimos meses. Porém de acordo com o dicionário, homofóbico são todos aqueles que apresentam repulsa ou preconceito contra homossexuais. Há quem diga que não sente repulsa por um gay, mas quando vê um casal homossexual trocando carinhos sente-se ofendido, enquanto que um casal heterossexual passaria despercebido.

A discriminação, infelizmente, existe em nossa sociedade e está escondida de diversas formas. Desde o ódio explícito até os “pseudo-esclarecidos” sobre o assunto que não se sentem constrangidos em afirmar que jamais agrediriam um gay, mas não acham o comportamento normal e não medem críticas à mídia, acusando-a de incentivar tal comportamento. É necessário perceber, porém, que a homossexualidade esteve presente ao longo de toda a história desde pelo menos a Antiguidade Clássica.

O que os meios de comunicação fazem, quando vinculam em rede nacional casais gays, é apenas retratar uma realidade presente em nossa sociedade há séculos. Acreditar que a televisão cria, estimula ou determina sexualidades por retratar de maneira estereotipada, e por vezes preconceituosa também, a homossexualidade é absurdo. Opiniões como esta, compreendem pessoas diferentes como objetos a mercê de “influências externas malévolas”. Essa compreensão retrata um ser humano não crítico e não ator de suas vontades, descaracterizando a sexualidade, já consolidada como direito humano, como dimensão da cidadania.  É bem possível que seja cada vez mais comum ver casais do mesmo sexo nas ruas, mas não por uma campanha midiática que determina um modismo, e sim porque a repressão à sexualidade é cada vez menor, o que é o mínimo que se espera de um Estado laico na contemporaneidade. Entender a homossexualidade como modismo, ou associá-la a qualquer prática fútil e transitória, é ser homofóbico (!), independente de violência física. É lastimável ainda verificar esse tipo de entendimento (preconceito) entre amigos. É ainda mais lastimável a não percepção de seus preconceitos escamoteados por argumentos rasos.

Em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade tem sido um componente da vida humana, nesse sentido, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há dúvida de que a homossexualidade é e sempre foi menos comum do que a heterossexualidade. No entanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da espécie humana.” escreveu William Naphy, diretor do colégio de Teologia, História e Filosofia da Universidade de Aberdeen, Reino Unido.

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